Vemos, ouvimos e lemos
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosLigaçõesBrevesAgenda Arquivo

Leitura

Quem vigia o vento não semeia

«Do que aqui se trata é da reabilitação cultural de um género, o da homilia. De facto, José Augusto Mourão reintroduz no discurso cristão um pensamento. A homilia torna-se a grande ocasião da leitura, e de uma apaixonada leitura, do que nos é mais próximo e mais distante, do que podemos entender das moções da alma e dos movimentos do corpo, do que significa o presente profético do mundo e o futuro utópico de Deus.»

Esta é a apresentação do livro “Quem vigia o vento não semeia”, recentemente publicado pela Pedra Angular. Escolhemos um das quase sete dezenas que o compõem.

 

O amor é deficiente

1. A vida é o que cada um experimenta, a vida é autorrevelação. E que nos é mais íntimo do que isto que mal sabemos definir; o amor? Nós nascemos do amor de um homem e de uma mulher. O que mais profundamente nos liga uns aos outros, em graus diferentes, é o amor. E não há amor a prazo. O amor e as tristezas não se explicam. Tocam-nos por dentro, aquecem-nos, gelam-nos, pressentimo-los como efeitos, como paixões. Porque o amor move. É no interior da vida que se tecem as relações desconcertantes que nos fundam. O amor diz-nos sempre isto: dependemos do outro para viver. Sem o outro ninguém vive. O amor é deficiente. O próprio do amor ou do sofrimento é que só cada um o experimenta. E na nossa carne que o amor e o sofrimento se nos revelam. O mesmo da alegria, da angústia e da esperança. Ora é essa certeza invencível que faz que seja impossível duvidar do amor ou do prazer.

2. Que podem as palavras de fogo que nos chegam do Pentecostes contra o impasse em que caiu o mundo? Que pode este Evangelho do desasossego contra a peste daquilo a que se tem chamado o confronto de civilizações (Huntington), que assenta na dicotomia supostamente irreconciliável do Ocidente e do islão? Quem acredita hoje no amor? «Quem acredita na sensualidade do invisível» (M.G. Llansol)? Onde nos leva esta palavra de fogo que é a inversão radical das formas de pensar e de agir do mundo? Onde nos leva este desafio ao bom senso? Homo homini lúpus (Hobbes): é nisso que acredita um cristão? O outro será sempre uma ameaça? Seremos todos suspeitos? O predador esfomeado há de tornar-se na sua presa.

3. Estes textos são como o oráculo, que se referem à vida e à sua estrutura interna. A condição humana foi abalada pela palavra de Cristo. Nem todas as palavras que Cristo dirige aos homens na sua língua falam deles. As mais essenciais falam-lhes dele. A nossa relação com Deus, que perturba as relações humanas, depende daquilo que Cristo diz de si e da sua condição. A relação do paradoxo ao Reino subsiste quando este não é designado mas apenas significado através de algumas das suas propriedades - «satisfação», «alegria», «riso», «visão de Deus», «misericórdia». Eis o que indicia o Reino, eis o que vem preencher o imenso Desejo do homem, aquilo que vem realizar a sua relação interior com Deus. Não haverá nesta palavra de fogo algo que nos escapa, mas que sentimos consubstanciai à nossa experiência?

4. Os tempos são de niilismo, que é antes de mais uma negação de todos os valores, assinalando o colapso da ideia de totalidade. O fantasma é o da fusão total (Crash). O que acontece quando a relação erótica é reduzida à sexualidade ou ao voyeurisme, que é uma profanação da vida. Os tempos são de suspeita. Não há valores na natureza. E apenas na vida e paraela, em função de necessidades e de desejos que eles lhe pertencem, que valores correlativos a estas necessidades se ligam às coisas. O tempo do niilismo vem quando a vida deixa de ser o princípio da organização duma sociedade e da vida de cada um.

5. Não podemos falar das coisas do alto e fazer da terra um inferno. O que sabemos do outro mundo é inspirado neste mundo. O que sabemos de nós é inspirado no que de nós sabem os outros. Foi isso que levou Sartre a dizer no Huis Clos: «O inferno são os outros». Interrogado sobre a sua peça, disse ele um dia: «Quando pensamos sobre nós, quando tentamos conhecer-nos, no fundo usamos os conhecimentos que os outros têm já sobre nós. Julgamo-nos com os meios que os outros têm ou nos deram para nos julgarmos. Naquilo que diga sobre mim, está lá sempre o juízo de outrem. O que quer dizer que se as minhas relações são más, me coloco na total dependência do outro. E então de facto, eu sou inferno. Há uma multidão de gente no mundo que está no inferno porque depende demasiado do juízo de outrem. O que não quer dizer que não se possa ter outras relações com os outros. Isso marca apenas a importância capital de todos os outros para cada um de nós». Mais tarde diz: «O que quis dizer é que muita gente está incrustada a uma série de hábitos, de costumes que nem sequer tenta mudar. E essa gente está como morta. No sentido que não pode quebrar o quadro das suas preocupações e dos seus costumes; e que continua a ser vítima dos juízos que sobre ela fizeram». A «vitimização» tornou-se a postura do indivíduo contemporâneo, o que o impede de se posicionar como cidadão e o que favorece a obsessiva ideia de que somos lobos uns dos outros. A competitividade substituiu a colaboração.

O mundo antigo não desapareceu. O cainismo continua a fazer vítimas. Falhou o projeto de uma modernidade secularizada e autoafirmativa. Falhou o projeto de pretensão absolutista de impor um humanismo essencialista e metafísico (Carta sobre o Humanismo, 1949). Resta um humanismo que acredita na esperança do vivo, no que é singular, no que está a acontecer e em devir («Nada foi, tudo está sendo»). A informação tornou-se um excitante da sociedade, a cafeína que a mantém acordada. A morte continua a lavrar o seu campo e o luto cobre-nos os ombros como um dia de chumbo.

6. Do amor não sabemos falar. Os amores tornaram-se cada vez mais fungíveis e frágeis. Secaram-nos os olhos. Mas a vida é boa e sem porquê, como o é a rosa de Silesius. Mestre Eckhart dizia antes dele: «por mais dura que seja a vida, quer-se todavia viver (...) Mas porque vives tu? Para viver, dizes tu, e porém não sabes porque vives. Tão desejável é ávida em si mesma que a desejamos por si mesma». Ora a rosa é o nome da vida. Floresce porque floresce. Enxugue a fonte do Amor as lágrimas dos nossos olhos a nós que tão mal amamos. Se Ele prometeu renovar todas as coisas, não renovará a nossa secura de afetos, o nosso luto, a perda da regra de ouro que a Vida nos deixou como mandamento novo?

7. Abrigam-se no desejo raízes de eternidade. O azeite que alimenta o desejo do encontro é a vigília (como expectativa e como oração). O desejo é alma da oração, dizia Agostinho. É sempre na fé, na esperança e no amor, pela continuidade do desejo. A sabedoria ensina-nos a espiritualidade do caminho: o gosto e o medo do desconhecido, a camaradagem no caminho, o sentido da filialidade, a mobilidade e o destaque das Escrituras, a alegria de viver em conjunto, na doçura da fraternidade. «Desperta, abre os olhos e vê a que madrugas» (Vieira). Vigiai, madrugai para o louvor, não apenas para o ídolo que se compra e se vende. Que ela permaneça sentada à nossa porta. E que o desejo em nós nunca adormeça. Quem ama, não dorme.

 

José Augusto Mourão
In Quem vigia o vento não semeia, ed. Pedra Angular
05.06.11

Capa

Quem vigia o vento
não semeia

Autor
José Augusto Mourão

Editora
Pedra Angular

Ano
2011

Páginas
367

Preço
25,00 €

ISBN
978-989-971-1921














Citação



















Citação




















Citação

 

Ligações e contactos

 

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Subscreva

 


 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página