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Quatro bispos portugueses refletem sobre o medo, a fé e a oração do papa na Praça de S. Pedro deserta

«Desse dia memorável todos guardamos o silêncio como atitude fundamental diante do mistério que nos envolve. Guardamos as muitas interrogações que povoam a nossa mente e que, ali, convergiram para uma única questão, a do sentido do que somos.»

Os cardeais Manuel Clemente e António Marto e os bispos D. Virgílio Antunes e D. Daniel Henriques aceitaram refletir para o portal Sapo 24 sobre a oração que o papa proferiu ao anoitecer de 27 de março de 2020, diante da Praça de S. Pedro vazia, no contexto das consequências dramáticas da pandemia, assim como sobre a dupla pergunta de Jesus que citada na meditação de Francisco: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?».

«O gesto do papa Francisco não partiu de uma montagem cénica cuidadosamente calculada e penso que ninguém poderia imaginar o impacto que ele viria a ter. Tratou-se de um gesto simples realizado por um homem simples que acredita profundamente no valor da oração e que abraça resolutamente a sua missão de pastor universal da Igreja e de guia espiritual de todos os homens e mulheres de boa vontade», considera D. Daniel Henriques, um dos bispos auxiliares de Lisboa.

Referindo-se ao questionamento que Jesus fez aos seus discípulos, quando, assustados pela tempestade que agitava a sua frágil barca, o despertaram, o prelado observa: «Tantas vezes refleti e preguei sobre esta passagem evangélica mas, neste contexto de pandemia, foi como se a escutasse a primeira vez, vendo como ela põe a nu os meus medos e a minha falta de confiança».



«A Igreja não "plana" sobre os dramas do mundo. Ela faz parte desta humanidade sofrida que procura soluções e horizontes de esperança. É "carne da sua carne e sangue do seu sangue". As chagas da humanidade são as suas próprias chagas»



Para D. António Marto, tratou-se de «um gesto único e extraordinário de solidariedade do papa Francisco que, sob a forma de oração, interpretou a angústia e a dor de toda a humanidade — de crentes e não crentes — surpreendida e desorientada, à procura de uma resposta, perante uma pandemia devastadora. É um momento inesquecível, conhecido e reconhecido como um dos acontecimentos centrais do ano 2020 que marca a história deste século».

«Guardo a imagem do papa solitário, a atravessar a praça de São Pedro deserta, debaixo de chuva, como quem leva sobre si o peso do sofrimento do mundo, e guardo também a imagem impressionante do Crucifixo sobre o qual caía a chuva e evocava as chagas do lado do Crucificado e da humanidade», acrescenta o bispo de Leiria-Fátima.

Mais uma vez, Francisco levou consigo não só os católicos, não só os crentes em Deus, mas toda a humanidade, que «estava como que suspensa entre o céu e a terra, entre a esperança e o desespero, uma espécie de suspensão do presente para ver como seria o futuro. Aquela paragem no tempo, aquele silêncio fecundo e aquela dor sentida foram materializados na convergência para um lugar e numa pessoa», aponta D. Virgílio Antunes.

«O lugar com uma carga histórica tremenda, o crucifixo como sinal do amor de Deus e do amor humano, como sinal da vida que se dá e se recebe, como sinal de sofrimento, de morte e de esperança de ressurreição, acolheu efetivamente o peso de toda a humanidade. Foi um sinal sublime», refere o bispo de Coimbra, a quem pertencem as palavras que abrem este texto.



A Igreja «sente o dever de estar com todos, com um coração aberto em gestos pequenos, mas significativos para cada um e em cada situação»



D. Manuel Clemente sublinha a dimensão global daquela hora simultaneamente sombria e luminosa vivida pelo papa, que, «pelo que representa e pelo que faz, transporta o drama do mundo e vive-o com Deus para todos».

Que marcas características do catolicismo se manifestam nas palavras e gestos de Francisco? Para o cardeal-patriarca de Lisboa, «os discípulos de Cristo, ou seja, a sua Igreja, têm vivido como todos os outros seres humanos, entre o sofrimento e a esperança que nos mantém vivos e solidários. Por si ou com ou outros, desdobram-se em ações pessoais, profissionais e solidárias, nos vários ambientes e setores. Há muitas histórias belas para guardar e contar depois».

«A Igreja não "plana" sobre os dramas do mundo. Ela faz parte desta humanidade sofrida que procura soluções e horizontes de esperança. É "carne da sua carne e sangue do seu sangue". As chagas da humanidade são as suas próprias chagas. No entanto, ela traz consigo uma "Boa Nova" que a transcende, que não é um simples "vai ficar tudo bem", mas o anúncio da vitória de Jesus sobre a morte e a certeza de que Ele caminha connosco, como outrora navegou com os discípulos no Mar da Galileia», considera D. Daniel Henriques.

D. Virgílio Antunes destaca que «a Igreja recorre ao património bíblico, à palavra do papa, ao património espiritual e à proximidade com as pessoas nas muitas comunidades. Sente o dever de estar com todos, com um coração aberto em gestos pequenos, mas significativos para cada um e em cada situação».

A auscultação aos prelados inseriu-se no âmbito do lançamento recente do livro "Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?", editado em Portugal pela Dom Quixote, oferecido aos bispos portugueses pelo Dicastério da Comunicação da Santa Sé.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sapo 24
Imagem: D.R.
Publicado em 07.05.2021

 

 
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