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Quando quem é “fraco” se faz “forte”: Retratos de uma peregrinação a Compostela

Álvaro Calvente, de 15 anos, que se define como um jovem com «capacidades que nem imaginas», sonha encontrar-se com o papa Francisco e vê na Eucaristia a «maior das celebrações», passando muitas horas do dia a repetir para si próprio as palavras da missa.

Ele e o pai, Ildefonso, com um amigo de família, Francisco Javier Millan, andaram cerca de 20 km por dia para chegar a Santiago de Compostela. A peregrinação, que começou a 6 de julho, tinha inicialmente o objetivo de envolver muitos jovens da paróquia de Álvaro; a pandemia, contudo, fê-los desistir.

«Mas o Álvaro não esquece os seus compromissos com Deus, por isso decidimos ir por nossa conta, e depois o Francisco juntou-se porque adora o Álvaro», explicou Ildefonso. O Álvaro, sétimo de 10 filhos, nasceu com uma deficiência intelectual.

«Andamos cerca de 20 km por dia, mas ao ritmo do Álvaro», assinalou o pai. O ritmo é lento, porque o jovem detém-se para saudar vacas, touros, cães e, claro, todos os peregrinos que encontram ao longo do caminho.

«O maior desafio foi compreender e ver que Deus não faz distinções por alguém ter uma deficiência», declarou Ildefonso; «ao contrário: Ele favorece e cuida do Álvaro. Vivemos para cada dia, e agradecemos Deus por aquilo que temos hoje, sabendo que Ele providenciará para amanhã».






O treino para a peregrinação consistiu em caminhadas diárias de 8 km, desde outubro, mas tiveram de suspender o exercício por causa da pandemia. Mas mesmo sem a devida preparação, decidiram ir por diante com a peregrinação, com «a certeza de que Deus aprontará o caminho para chegarmos a Santiago».

«Na verdade, acabámos de percorrer o nosso trecho mais comprido, 22 km, e o Álvaro chegou ao destino a cantar e a dar graças», partilhou Ildefonso na quarta-feira.

Na véspera da peregrinação, abriram uma conta do Twitter, e com a ajuda do tio de Álvaro, “El Camino de Alvaro” depressa chegou aos dois mil seguidores. Hoje conta com perto de 3300.

«Eu nem sequer sabia como é que o Twitter funcionava antes de abrir a conta», disse Ildefonso. «E, de repente, tínhamos todas essas pessoas, de todo o mundo, a caminhar connosco. É impressionante, porque contribui para tornar visível o amor de Deus visível: está realmente em todo o lado.»

Todos os dias publicam várias mensagens, sempre em espanhol, com as suas aventuras. No dia 10, Álvaro convidou o papa Francisco a ir jantar a sua casa.






No dia anterior, um “post” dizia: «O dia amanhece cinzento. Mas são só nuvens. Detrás delas há um enorme e precioso céu azul. Se crês que a tua vida é cinzenta, não te acobardes. Põe-te a caminhar, como vamos nós fazer. Talvez nos molhemos um pouco, mas às vezes é necessário. Confia. Caminha». Uma imagem que vale também para o caminho que muitos fazem, mesmo sem sair de casa – ou do hospital, ou da prisão –, bem como para quem é obrigados, dia após dia, a outros trajetos, mais curtos, para assegurar a sobrevivência sua e dos seus.






Um das mensagens do dia anterior mostrava Álvaro prestes a atravessar uma pequena ponte: «Na tua vida há obstáculos, problemas, dificuldades… Acreditas que na minha não? Mas eu sei uma coisa que talvez desconheças: é que Deus é um grande engenheiro, e, se lhe pedires, ele engenha-as para que passes sem que te molhes».






«[A peregrinação] também nos ajudou a compreender que uma pessoa que é “fraca” aos olhos do mundo, pode ajudar, dar esperança e mostrar o amor de Deus por todos», destacou, com a voz entrecortada pela emoção, Ildefonso.

Ao constatar o apoio, os peregrinos abriram uma campanha para uma instituição de apoio social de Málaga, a Casa do Sagrado Coração de Jesus, onde «os favoritos de Deus encontram lar e família: sem-abrigo, idosos, pessoas com deficiência, que não têm nada nem ninguém».

A chegada a Santiago aconteceu esta segunda-feira, e D. Sergio Buenanueva, bispo da diocese de onde partiram, San Francisco, na Argentina, deu-lhes os parabéns: «Obrigado, Álvaro e papá, pelo vosso caminho… Acompanhámos-vos». E o deão da catedral de Santiago fez questão de receber os três peregrinos.

A peregrinação terminou, mas pode ser descoberta e, de certa maneira, revivida, cada qual à sua maneira, nas dezenas de mensagens, vídeos e mensagens no Twitter.


 

Inés San Martín
In Crux
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 13.07.2020

 

 

 
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