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Quando o cardeal se despede do pobre

Roberto Molinari era um homem bem-disposto de Verona, um grande adepto da equipa de futebol AS Roma, treinada pelo português Paulo Fonseca, e costumava compartilhar refeições com um dos cardeais mais próximos do papa Francisco. A celebração litúrgica do seu funeral contou com a participação de dois cardeais e um arcebispo, e é provável que as restrições devidas à pandemia tenham impedido a presença de mais dignatários do Vaticano.

A liturgia decorreu na igreja de S. Pio X, em Roma, presidida pelo esmoler do papa, o cardeal polaco Konrad Krajewski, e concelebrada pelo o antigo responsável pelas finanças da Santa Sé, o cardeal australiano George Pell, o secretário da Congregação para a Liturgia e o Culto Divino, o arcebispo inglês Arthur Roche, e cerca de uma dezena de padres.

Molinari morreu num abrigo aos cuidados da Igreja, no qual viveu durante grande parte da pandemia. Tendo sofrido vários episódios de pneumonia, doença comum entre pessoas sem-abrigo, foi encaminhado para a instituição por amigos que se quiseram assegurar de que dispunha de uma cama quente para passar a noite.

Durante vários anos, especialmente nos dias do inverno mais rigorosos, foram funcionários do Vaticano que ajudaram a pagar os custos de alojamento num albergue “bed and breakfast”. Molinari costumava fazer a sua cama com caixas de cartão a curta distância de um dos acessos que conduzem ao Vaticano, na mesma rua de um prédio de apartamentos que pertencem Cidade-Estado.



«Que a nossa amizade com Roberto nos incentive sempre a encontrar respostas para quem bate à nossa porta e pede ajuda, para que ninguém fique sozinho nesta nossa cidade»



Krajewski, que na semana passada ajudou 50 homens e mulheres sem-abrigo da capital italiana a receber a vacina conta a Covid-19 no Vaticano, escolheu uma passagem do Evangelho segundo S. Lucas para o funeral. A narrativa conta a história de Lázaro, um sem-abrigo sentado junto à porta de um homem rico, que quando morre é recebido no Céu por Abraão, enquanto que o abastado segue para o Inferno.

«Na parábola, Abraão representa o pensamento de Deus. O homem rico representa a ideologia dominante da época. Lázaro representa o grito silencioso dos pobres nos tempos de Jesus e no nosso tempo», sublinhou o cardeal polaco na homilia.

O pobre morre antes do rico, e com ele, prosseguiu Krajewski, morre igualmente a única oportunidade de salvação para o homem endinheirado, que apesar de conhecer a Bíblia «de memória», «nunca pensou» que ela «tivesse algo a ver com os pobres», e por isso manteve «a porta fechada» ao mendigo, tal como acontece hoje.

Jesus ressuscitado vem «na pessoa do pobre, na dos que não têm direitos, das que não têm terra, das que não têm comida, das que não têm casa, das que não têm saúde», assinalou o prelado.



«Que nos sirvam de advertência as palavras de S. Gregório Magno que, perante a morte de um mendigo por causa do frio, afirmou que naquele dia não seriam celebradas missas, porque era como a Sexta-Feira Santa»



Robertino, como Molinari era conhecido entre os amigos, teve uma prometedora carreira futebolista, chegando a jogar num clube que hoje está na primeira divisão transalpina, o Hellas Verona, mas um infortúnio impediu-o de continuar no “desporto-rei”.

«Conforta-nos saber que não morreu na rua, como infelizmente tem acontecido com muitos outros amigos nos últimos meses, por causa do frio e da indiferença», leu-se na eulogia que antecedeu a celebração.

«Que a nossa amizade com Roberto nos incentive sempre a encontrar respostas para quem bate à nossa porta e pede ajuda, para que ninguém fique sozinho nesta nossa cidade», apontou o discurso fúnebre.

Entre as muitas pessoas que morreram de frio nos últimos meses conta-se Edwin, nigeriano que faleceu a poucos metros da praça de São Pedro. No domingo, após a oração do Angelus, o papa pediu orações por ele:

«A sua vicissitude acrescenta-se à de muitos outros desabrigados que morreram recentemente em Roma, nas mesmas circunstâncias dramáticas. Rezemos por Edwin. Que nos sirvam de advertência as palavras de S. Gregório Magno que, perante a morte de um mendigo por causa do frio, afirmou que naquele dia não seriam celebradas missas, porque era como a Sexta-Feira Santa. Pensemos em Edwin. Pensemos no que este homem, de 46 anos, sentiu no frio, ignorado por todos, abandonado, até por nós. Rezemos por ele!».


 

Paulina Guzik, Inés San Martín
In Crux
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Paulina Guzik/Crux | D.R.
Publicado em 26.01.2021

 

 
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