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Qual é o melhor passeio deste verão? Qualquer um, desde que seja com quem está só

Estamos em pleno verão, o mais difícil do século, depois dos meses de um confinamento que, esperamos, não se volte a repetir. O cansaço que temos de aliviar não é o normal stress de correr em excesso, de ter trabalhado em demasia, de não ter dormido o suficiente, mas é a ausência de paz, sobretudo interior, que nos afaste das sirenes das ambulâncias que atravessavam as nossas ruas, ferindo os silêncios das nossas cidades, recordando-nos que mais outra pessoa estava mal, outra pessoa como nós talvez estivesse para morrer.

Estamos desgastados, mais do que exaustos. O repouso que procuramos é aquele que deve lançar âncora na contemplação, mais do que na recreação física. E assim entre restrições nas viagens, medos e falta de dinheiro, a pergunta que se torna cada vez mais necessária é: de que é que necessitamos, verdadeiramente, durante o tempo de verão? Precisamos de beleza, sem esquecer, no entanto, que a beleza não é só a da Criação, mas sobretudo a da vida, dos laços. Os meses em casa abriram-nos bruscamente os olhos para verdade de que a “família” não é só onde se come ou dorme, mas onde se vive. A beleza que devemos alcançar, e que depende só de nós, e não do nosso dinheiro ou das decisões do Governo, é a da vida e dos laços.

Nestes meses, todos encontrámos, das maneiras mais variadas, muitas pessoas que sofriam, e nós, sendo bons, quisemos, como primeira atitude, resolver a causa do seu sofrimento, mas muitas vezes fracassámos. Se uma pessoa sofre porque a mãe morreu ou está abandonada, não podemos fazer nada. Melhor, só podemos fazer uma coisa: ter “compaixão”, “padecer juntos”. É justo (e necessário), obviamente, procurar dar um teto a quem não o tem, ou dar de comer ao faminto, mas aquilo que, verdadeiramente, cada um de nós tem necessidade absoluta é de ter alguém que partilhe connosco. Que esteja junto de nós. Que, em primeiro lugar, viva connosco o mesmo destino de pobres e de sofredores; porque há muitos géneros de pobreza e de sofrimento.



Ainda que camuflada, a solidão permanece a verdadeira situação do homem, e denota, ao mesmo tempo, a mais estridente contradição com a natureza própria do homem, que não pode subsistir sozinho, mas precisa, pelo contrário, de uma vida com outros



Banalmente, gostaria de sugerir que nestas férias se tentasse viver junto dos outros “a penitência” e a alegria do caminhar. Tenho amigos apaixonados por excursões audaciosas que me descreveram como, neste verão, o primeiro com um filho, passaram toda a manhã a dar a volta ao lago da montanha onde se encontravam: a criança tem pouco mais de um ano, e a beleza do seu caminhar vacilante parecia-lhes mais emocionante do que subir uma falésia escarpada.

Percorramos a pé, se pudermos, os caminhos de quem está ao nosso lado e de quem amamos. Percorramos as estradas da humanidade que significa estar junto do ser humano. E assim remediaremos a dor que é mãe de todas as dores: a solidão, a principal razão da angústia do ser humano. Joseph Ratzinger disso estava convencido no final dos anos 60, quando, na sua “Introdução ao cristianismo”, escrevia: «Na extrema oração de Jesus na cruz (“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste” – Marcos 15,34), como, de resto, na cena do horto das oliveiras, no núcleo mais profundo da paixão não parece haver qualquer dor física, mas a radical solidão, o completo abandono. Nisto vem à luz, em definitivo, simplesmente a abissal solidão do homem em geral: do homem que no seu íntimo está só, tragicamente só.

Ainda que camuflada, esta solidão permanece a verdadeira situação do homem, e denota, ao mesmo tempo, a mais estridente contradição com a natureza própria do homem, que não pode subsistir sozinho, mas precisa, pelo contrário, de uma vida com outros. A solidão é, por isso, a razão da angústia (…)».

Dêmos casa aos outros, façamos com que deixem de se sentir estrangeiros. E teremos umas belas férias.


 

Mauro Leonardi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: sasirin pamai/Bigstock.com
Publicado em 12.08.2020

 

 
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