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Pietà

Os biógrafos de Miguel Ângelo são unânimes em sublinhar a importância da figura materna na sua obra: perde a mãe desde criança, e em muitos momentos a sua arte será uma espécie de diálogo, evocação discreta ou puro grito, com esta figura ausente e, precisamente por isso, desmesuradamente presente.

Pensemos, por exemplo, na Pietà que se encontra na basílica de S. Pedro, no Vaticano, uma das imagens mais dolorosas e icónicas do cristianismo. A Mãe está sentada, e o Filho morto repousa no seu ventre. A Mãe tem um corpo enorme, capaz de acolher o corpo do Filho adulto, mas conserva o rosto de uma jovem em flor.

O corpo parece um bote, um salva-vidas, uma cidade-refúgio. O rosto, no entanto, desenha-se impávido, como se, através daquele sofrimento, olhasse para outro lugar, e se concentrasse não sobre aquela morte, mas na infância intacta do Filho.

É um enigma esta discordância aparente, e as hipóteses de explicação são numerosas: que Miguel Ângelo estivesse contagiado pelo neoplatonismo, segundo o qual a vida divina é impassível; que pretendesse reproduzir a forma dos rostos da escultura greco-romana, tão admirada pelo Renascimento; que citasse o teológico verso de Dante sobre os mistérios da Virgem, «filha do seu filho»; ou, simplesmente, que aquele rosto jovem fosse a imagem que um filho pode preservar da sua mãe perdida na infância.


 

D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Pietà" (det.) | Miguel Ângelo | Basílica de S. Pedro, Vaticano
Publicado em 31.05.2019

 

 
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