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«Pensemos o mundo sem as mães: não tem futuro»

Podemos perguntar-nos: a mariologia [área do conhecimento teológico centrado em Maria], hoje, serve à Igreja e ao mundo? Obviamente, a resposta é sim. Andar na escola de Maria é andar na escola de fé e de vida. Ela, mestra porque discípula, ensina bem o alfabeto da vida humana e cristã. Mas há também outro aspeto, ligado ao hoje. Vivemos no tempo do concílio Vaticano II [1962-1965]. Nenhum outro concílio na história deu à mariologia tanto espaço quanto o dedicado no capítulo VIII da “Lumen gentium”, que conclui, e em certo sentido compendia, toda essa constituição dogmática sobre a Igreja. Isto diz-nos que os tempos que vivemos são tempos de Maria. Mas precisamos de redescobrir Nossa Senhora segundo a perspetiva do concílio. Como o concílio repôs em luz a beleza da Igreja, voltando às fontes e tirando a poeira que se tinha depositado sobre ela ao longo dos séculos, assim as maravilhas de Maria podem redescobrir-se melhor indo ao coração do seu mistério. Aí emergem dois elementos, bem evidenciados pela Escritura: ela é mãe e mulher. Também a Igreja é mãe e mulher.

Mãe. Reconhecida por Isabel como «mãe do Senhor», a “Theotokos” é também mãe de todos nós. Com efeito, ao discípulo João, e nele a cada um de nós, o Senhor, na cruz, disse: «Eis a tua mãe!». Jesus, naquela hora salvadora, estava a dar-nos a sua vida e o seu Espírito; e não deixou que a sua obra se cumprisse sem dar-nos Nossa Senhora, porque quer que na vida caminhemos com uma mãe, aliás, com a melhor das mães. S. Francisco de Assis amava-a precisamente porque mãe. Dele foi escrito que «circundava de indizível amor a Mãe do Senhor Jesus, pelo facto de ter tornado nosso irmão o Senhor da Majestade». Nossa Senhora tornou Deus nosso irmão, e enquanto mãe pode tornar mais fraternos a Igreja e o mundo.



Não é por acaso que a piedade popular chega com natureza a Nossa Senhora. É importante que a mariologia a siga com atenção, a promova, por vezes a purifique, tornando-se sempre atenta aos “sinais dos tempos marianos” que percorrem a nossa época



A Igreja precisa de redescobrir o seu coração materno, que bate pela unidade; mas dele precisa também a nossa Terra, para tornar a ser a casa de todos os seus filhos. Nossa Senhora deseja-o, «quer dar à luz um mundo novo, onde todos somos irmãos, onde haja lugar para cada descartado das nossas sociedades». Precisamos de maternidade, de quem gere e regenere a vida com ternura, porque só o dom, o cuidado e a partilha mantêm junta a família humana. Pensemos o mundo sem as mães: não tem futuro. Os proveitos e o lucro, por si só, não dão futuro, aliás, por vezes, acrescem desigualdades e injustiças. As mães, pelo contrário, fazem sentir cada filho em casa e dão esperança. (…)

Nossa Senhora – este é outro elemento essencial – é mulher. O dado mariológico talvez mais antigo do Novo Testamento diz que o Salvador «nasceu de mulher». No Evangelho, depois, Maria é a mulher, a nova Eva, que de Caná ao Calvário intervém pela nossa salvação. Por fim, é a mulher vestida de sol que cuida da descendência de Jesus. Como a mãe faz da Igreja uma família, assim a mulher faz de nós um povo. Não é por acaso que a piedade popular chega com natureza a Nossa Senhora. É importante que a mariologia a siga com atenção, a promova, por vezes a purifique, tornando-se sempre atenta aos “sinais dos tempos marianos” que percorrem a nossa época.



Quem é Maria para nós? Ela que, para cada um de nós, faz descer Cristo: Cristo plenitude de Deus, Cristo homem que se fez fraco por nós. Cristo homem que se fez fraco por nós. Vejamos Nossa Senhora assim: ela que faz entrar Cristo



Entre estes, há precisamente o papel da mulher: essencial para a história da salvação, só pode sê-lo para a Igreja e para o mundo. Mas quantas mulheres não recebem a dignidade a elas devida! A mulher, que trouxe Deus ao mundo, deve poder trazer os seus dons à história. Há necessidade do seu engenho e do seu estilo. Precisa a teologia, para que não seja abstrata e concetual, mas delicada, narrativa, vital. A mariologia, em particular, pode contribuir para levar à cultura, também através da arte e da poesia, a beleza que humaniza e infunde esperança. E é chamada a procurar espaços mais dignos para a mulher na Igreja, a partir da comum dignidade batismal. Porque a Igreja, como disse, é mulher. Como Maria, é mãe, como Maria.

O P. [Marko Ivan] Rupnik fez um quadro, que parece ser um quadro de Nossa Senhora, e não o é. Parece que Nossa Senhora está em primeiro plano, mas a mensagem é: Nossa Senhora não está em primeiro plano. Ela recebe Jesus, e com as mãos, como degraus, fá-lo descer. É a “synkatabasis” de Cristo através de Nossa Senhora: a condescendência. E Cristo apresenta-se como uma criança, mas Senhor, com a Lei na mão. Mas também como filho de mulher, frágil, agarrando-se ao manto de Nossa Senhora. Esta obra do P. Rupnik é precisamente uma mensagem. E quem é Maria para nós? Ela que, para cada um de nós, faz descer Cristo: Cristo plenitude de Deus, Cristo homem que se fez fraco por nós. Cristo homem que se fez fraco por nós. Vejamos Nossa Senhora assim: ela que faz entrar Cristo, que faz passar Cristo, que dá à luz Cristo, e permanece sempre mulher. É assim simples… E peçamos que Nossa Senhora nos abençoe.


Imagem P. Marko Ivan Rupnik | D.R.

 

Papa Francisco
Audiência aos docentes e estudantes da Pontifícia Faculdade Teológica Marianum, Vaticano, 24.10.2020
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: P. Marko Ivan Rupnik
Publicado em 24.10.2020

 

 
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