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Pensar é a tarefa mais importante para a Igreja de hoje

Para enfrentar a dificuldade que o cristianismo experimenta, a cada passo, em fazer surgir, florescer e alimentar nos nossos contemporâneos, especialmente naqueles das novas gerações, o desejo de um encontro de fé com Jesus, tem de se voltar a pensar. Sim, assim mesmo: aos católicos desta hora da história – e aos seus párocos – cabe a tarefa de voltar a pensar.

Na verdade, é só um segredo de Polichinelo o de reconhecer que as tentativas recentes de atualizar e rever numerosíssimas práticas pastorais não evitaram absolutamente o desolador cenário que anualmente cada comunidade paroquial regista. Com o Crisma, os jovens vão-se embora, sem levantar a voz, sem bater com nenhuma porta, sem qualquer sentido de culpa.

Não só. Para a Igreja atual, o verdadeiro ponto de embaraço é dado pelo facto de que, a nível de sensibilidade generalizada (e aqui já não falamos só dos jovens, mas também dos seus pais, dos seus professores e dos seus futuros dadores ou colegas de trabalho), a fé cristã é agora algo que é bom para as crianças e até que se permaneça criança. Quanto muito admite-se ainda que ela tem alguma coisa a dizer e a dar aos grandes anciãos, os quais, pelo menos na sua idade, além daquilo que eventualmente poderá existir ou não existir após a morte, é bom que dediquem alguma consideração devota. Em todo o caso, não é para jovens nem para adultos.

Em relação a esta situação, não poucos católicos e não poucos párocos dão-se simplesmente por derrotados. A ideia que os consola é que não há precisamente nada mais a fazer. A culpa seria, com efeito, a atribuir totalmente ao tempo que nos é dado viver; um tempo cada vez mais veloz, cada vez mais digital, cada vez mais atarefado, cada vez mais individualista, cada vez mais vitalista, cada vez mais imanentista. Numa palavra, um tempo cada vez menos disponível para a palavra do Evangelho. Para uma qualquer reviravolta seria preciso um milagre!



É, na verdade, precisamente ao advento de um tal pós-moderno que se deve o progressivo afastamento das instruções do viver das do crer, e é desse afastamento que depende substancialmente a ineficácia dos atuais percursos de iniciação cristã



E no entanto, não. É verdade que um milagre não estaria mal, mas o cristianismo não procede assim. Procede com a assunção da tarefa de evangelização da parte de toda a geração de crentes presente na história. Por isso, até prova em contrário, toca a nós!

E para fazer aquilo que precisamente nós, e não outros, somos chamados a fazer com vista a um cristianismo menos “infantil” e “envelhecido” do que o atual, é precisa a disponibilidade para dar espaço ao que insistentemente o papa Francisco chama «arte do discernimento». Ou, dito mais simplesmente, que o que é preciso é temos de nos dar tempo para pensar.

Mas pensar em quê? A resposta – e é mais do que um jogo de palavras – já foi dita: é preciso tempo para pensar o tempo. Este nosso tempo. Este nosso tempo que também nós definimos como tempos pós-moderno, ou mais simplesmente, como pós-moderno e pós-modernidade.

É, na verdade, precisamente ao advento de um tal pós-moderno que se deve o progressivo afastamento das instruções do viver das do crer, e é desse afastamento que depende substancialmente a ineficácia dos atuais percursos de iniciação cristã. A pós-modernidade, de facto, reescreve – da cabeça aos pés – as instruções para viver. As antigas, dos nossos avós, foram de tal maneira ultrapassadas, que quase nenhum de nós as recorda, e é preciso escavar não pouco na nossa memória para fazer brilhar diante dos nossos olhos admirados atitudes e comportamentos que há não mais de 40 anos eram a coisa mais natural do mundo. Pensemos nas longuíssimas viagens de comboio, pensemos no uno do telefone fixo de casa, pensemos nos rituais de cortejamento, pensemos na compulsão pelos dicionários ou enciclopédias, pensemos nos horários das lojas, pensemos na escassez de notícias, pensemos naquilo que foi o mundo dos nossos avós e das nossas avós. O nosso mundo é outro.



Uma autêntica mudança de pastoral – que é o que é preciso, que é o que deseja o papa Francisco – impõe que se dê tempo ao pensamento. Para pensar precisamente no pós-moderno. E dito entre nós, entre nós católicos, não parece que haja muito tempo a perder



Entre eles e nós há um hiato, um desvio. Qualitativo, e não meramente quantitativo. Em relação a eles, nós não vivemos apenas das coisas e das oportunidades que não tiveram. Mais simplesmente, vivemos diferentemente a nossa aventura humana. Vivemos num modo e num mundo diferentíssimo do deles, a tal ponto que dificilmente eles poderiam reconhecer-se nos nossos rituais e nos nossos imaginários sem literalmente enlouquecer. O que diria um qualquer dos nossos avós em relação aos jeans tão cheios de rasgões que tão orgulhosamente vestimos hoje, sem qualquer problema?

Especifiquemos já, todavia, que a questão em torno da qual o pensamento se deve exercer não é se é um bem ou um mal o tempo pós-moderno que nos é dado viver. De resto, para dizer francamente, nenhum de nós hoje quereria voltar atrás nem que fosse apenas uma década. Nem sequer os monges mais convictos saberiam viver sem telemóveis, Internet, deslocações ágeis e frequentes, e outras “diabruras” contemporâneas.

O núcleo sobre o qual se deve fixar a nossa massa cinzenta está precisamente noutra dimensão. O pós-moderno, com efeito, teve e continua a ter um impacto fortíssimo sobre o cristianismo vivido, sobre o modo como este, ao longo de dois milénios, fixou as suas instruções para crer, e sobretudo sobre o modo como as ligou às instruções para viver, ou sobre a ação pastoral concreta, hoje simplesmente paralisada e cada vez menos capaz de fazer surgir novos crentes no Evangelho.

Além disso, o que, até ao advento do pós-moderno, não era posto em discussão era o facto de que a religião cristã tinha uma palavra que, numa linha de princípio, era destinada a todos, enquanto era uma linha de princípio por todos assumida como uma proposta sensata de vida. Mesmo para os ateus, que precisamente se autoidentificavam por subtração. Não é por acaso que, presentemente, o ateísmo cede o passo à indiferença e à incredulidade; ou, melhor, a essa estranha mistura, a que muitas vezes faz referência o cardeal Gianfranco Ravasi, que é o “apateísmo”, que deriva de apatia e ateísmo.

Sem enfrentar com a coragem do pensamento esta verdadeira reviravolta trazida pela contemporaneidade pós-moderna, continuar-se-á a deitar mão a uma simples “pastoral da mudança”, que produzirá, infelizmente, não os frutos esperados, mas aqueles aos quais nos estamos quase todos a habituar desde há décadas. A fuga dos crismandos, por um lado, e a redução do cristianismo a uma coisa para as crianças e, quanto muito, para os seus avós por outro. Com a consequência de alimentar uma ação pastoral que já não tem jovens e adultos, nem como seus sujeitos nem como seus destinatários.

Uma autêntica mudança de pastoral – que é o que é preciso, que é o que deseja o papa Francisco – impõe que se dê tempo ao pensamento. Para pensar precisamente no pós-moderno. E dito entre nós, entre nós católicos, não parece que haja muito tempo a perder.


 

Armando Matteo
In Il postmoderno spiegato ai cattolici e ai loro parroci, Edizioni Messaggero Padova
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: World Image/Bigstock.com
Publicado em 20.03.2019

 

 
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