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O Espírito Santo no fortalecimento do «homem interior»

A íntima relação com Deus, no Espírito Santo, faz com que o homem também se compreenda de uma maneira nova a si mesmo a à sua própria humanidade. É realizada, assim, plenamente, aquela imagem e semelhança de Deus, que o homem é desde o princípio. (1) Esta verdade íntima do homem deve ser continuamente redescoberta à luz de Cristo, que é o protótipo da relação com Deus; e, na mesma verdade, deve ser igualmente redescoberta a razão de o homem não poder “encontrar-se plenamente a não ser no dom sincero de si mesmo”, ao conviver com os outros homens, como escreve o Concílio Vaticano II; isso acontece justamente por motivo da semelhança com Deus, a qual “torna manifesto que o homem, é a única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma”, com a sua dignidade de pessoa, mas também com a sua abertura à integração e à comunhão com os outros. (2) O conhecimento efectivo e a realização plena desta verdade do ser dão-se só por obra do Espírito Santo. O homem aprende esta verdade de Jesus Cristo e põe-na em prática na própria vida por obra do Espírito Santo, que Ele nos deu.

Neste caminho - no caminho de um amadurecimento interior assim, que inclui a descoberta plena do sentido da humanidade - Deus torna-se íntimo ao homem e penetra, cada vez mais profundamente, em todo o mundo humano. Deus uno e trino, que «existe» em si mesmo como realidade transcendente de Dom interpessoal, ao comunicar-se no Espírito Santo como dom ao homem, transforma o mundo humano, a partir de dentro, a partir do interior dos corações e das consciências. Neste caminho, o mundo, participante do Dom divino, torna-se - como ensina o Concílio – “cada vez mais humano, cada vez mais profundamente humano”, (3) ao mesmo tempo que, nele, vai amadurecendo, através dos corações e das consciências dos homens, o Reino no qual Deus será definitivamente “tudo em todos” (4) como Dom e como Amor. Dom e Amor: é esta a eterna potência do abrir-se de Deus uno e trino ao homem e ao mundo, no Espírito Santo. (...) 

Quando os homens descobrem, sob a influência do Paráclito, esta dimensão divina do seu ser e da sua vida, quer como pessoas quer como comunidades, estão em condições de libertar-se dos diversos determinismos, que resultam principalmente das bases materialistas do pensamento, da práxis e da sua relativa metodologia. Na nossa época, estes factores conseguiram penetrar até ao mais íntimo do homem, naquele santuário da consciência, onde o Espírito Santo continuamente faz entrar a luz e a força da vida nova segundo a “liberdade dos filhos de Deus”. O amadurecimento do homem nesta vida nova é impedido pelos condicionamentos e pressões, que exercem sobre ele as estruturas e os mecanismos dominantes nos diversos sectores da sociedade. Pode dizer-se que, em muitos casos, os factores sociais, em vez de favorecerem o desenvolvimento e a expansão do espírito humano, acabam por arrancá-lo à genuína verdade do seu ser e da sua vida - sobre a qual vela o Espírito Santo - para o sujeitar ao “príncipe deste mundo”. (...)

[O Espírito Santo é] o único que pode ajudar as pessoas e as comunidades a libertarem-se dos antigos e dos novos determinismos - guiando-as com a “lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus” - descobrindo e actuando, deste modo, a medida plena da verdadeira liberdade do homem. Com efeito, - como escreve São Paulo – “onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade”. (5) Esta revelação da liberdade e, por conseguinte, da verdadeira dignidade do homem, adquire uma particular eloquência para os cristãos e para a Igreja em situações de perseguição - quer em tempos passados quer actualmente: porque as testemunhas da Verdade divina, neste caso, tornam-se uma comprovação viva da acção do Espírito da verdade, presente no coração e na consciência dos fiéis; e, não poucas vezes, selam com o próprio martírio a suprema glorificação da dignidade humana.

Mesmo nas condições normais da sociedade, os cristãos, quando testemunhas da autêntica dignidade do homem, contribuem, pela sua obediência ao Espírito Santo para a multiforme “renovação da face da terra”, colaborando com os seus irmãos em ordem à realização e valorização de tudo o que é bom, nobre e belo (6) no progresso actual da civilização, da cultura, da ciência, da técnica e dos outros sectores do pensamento e da actividade humana. E fazem-no como discípulos de Cristo, o qual - escreve ainda o Concílio – “constituído Senhor pela sua ressurreição... actua no coração dos homens pela virtude do seu Espírito, não só suscitando neles o desejo do mundo futuro, mas, por isso mesmo, inspirando, purificando e fortalecendo também as generosas aspirações com as quais a família humana procura tornar mais humana a própria vida e, para esse fim, submeter toda a terra”.

O Espírito Santo, na sua misteriosa ligação de divina comunhão com o Redentor do homem, é Quem dá continuidade à sua obra: Ele recebe do que é de Cristo e transmite-o a todos, entrando incessantemente na história do mundo através do coração do homem. É aí que ele se torna - como proclama a Sequência litúrgica da Solenidade do Pentecostes - verdadeiro "pai dos pobres, distribuidor dos dons e luz dos corações"; torna-se: "hóspede amável das almas", que a Igreja saúda, sem cessar, no limiar da intimidade de cada homem. Ele, efectivamente, traz «descanso e refrigério» no meio dos esforços, do trabalho dos braços e das mentes humanas; traz «descanso» e «alívio» nas horas de calor ardente do dia, no meio das preocupações, das lutas e dos perigos de todas as épocas; e traz, por fim, a "consolação", quando o coração humano chora e é tentado pelo desespero.

Por isso, a mesma Sequência litúrgica exclama: "Sem a tua potência divina nada há no homem, nada que seja inocente". Só o Espírito Santo, de facto, "convence do pecado", do mal, com o objectivo de restabelecer o bem no homem e no mundo humano: para "renovar a face da terra". Por isso, Ele realiza a purificação de tudo o que "deturpa" o homem, de "tudo o que é sórdido"; cura as feridas mesmo as mais profundas da existência humana; transforma a aridez interior das almas em campos férteis de graça e de santidade. O que é "duro - abranda-o", o que é "frio - aquece-o", o que está "desencaminhado - recondu-lo aos caminhos da salvação".

 

(1) Cf. Gén 1, 26 s.; S .TOMÁS DE AQUINO, Summa Theol. Ia, q. 93, aa. 4. 5. 8.

(2) Cf . Const. past sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 24; cf. também n. 25.

(3) Cf. Ibid., 38, 40.

(4) Cf. 1 Cor 15, 28.

(5) 2 Cor 3, 17.

(6) Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 53-59.

 

João Paulo II
Carta Encíclica »Dominum et vivificantem», 59, 60, 67
29.05.09

Imagem
Dons do Espírito Santo
João de Sousa Araújo
Paróquia de S. Martinho
Cedofeita, Porto






































































 

 

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