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«Pede-se à Igreja que os seus sacerdotes sejam cultos» e saibam «dialogar», diz Lídia Jorge

Lídia Jorge considera que entre vários padres subsiste uma ignorância em relação a criações elementares da arte e da cultura, que é preciso corrigir para aproximar a Igreja de mais pessoas, e constata que muitas homilias sobre o mesmo texto bíblico se repetem ao longo de décadas, indiferentes às mudanças no mundo.

«Pede-se à Igreja que os seus sacerdotes sejam cultos» e «tenham acesso a obras literárias, instrução do ponto de vista de gosto pela música, pelo teatro, pelas várias expressões da cultura», afirmou a escritora durante o 14.º Encontro Nacional de Referentes da Pastoral da Cultura, que decorreu pela internet nesta quarta-feira.

No encontro organizado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Lídia Jorge sublinhou que o desenvolvimento da sensibilidade para a cultura deve ser acompanhada pela «capacidade de dialogar com as pessoas».

«Muitas vezes» fala-se com sacerdotes «que não leram nada, a não ser obras fundamentais da teologia», mas «são incapazes de perceber o que a obra de James Joyce, ou outra, lhes pode dar», referiu.



«É importante perceber que há toda uma cultura que está a passar debaixo dos nossos olhos»



Como exemplo da «espécie de aversão» que em alguns meios clericais existe em relação à cultura, contou às cerca de duas dezenas de participantes um encontro, «estranho», com um padre, que lhe declarou: «Quando os sacerdotes começam a falar de poesia, temos tudo estragado (…) [porque] se entra num caminho que não se consegue dominar».

Ao lembrar a obra “Verbo - Deus como interrogação na poesia portuguesa”, com seleção de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia (ed. Assírio & Alvim), a escritora sustentou que há «poemas que podem perfeitamente circular pela Igreja, pelos crentes, e fazer parte das celebrações».

«É importante perceber que há toda uma cultura que está a passar debaixo dos nossos olhos», afirmou, antes de lamentar a existência de homilias que, «ano após ano», são proferidas «como se não corresse o tempo, como se de ano para ano não houvesse alterações».

Para Lídia Jorge, «as pessoas têm medo de falar do que vem nos jornais, medo de criar a sua própria narrativa; mas isso aprende-se. Devia haver um aprendizado da narrativa».



«Há uma espécie de assepsia, que a palavra dita e narrada não pode tocar neste mundo, há um tabique muito forte»



«A homilia é um momento importantíssimo» que «tem de ser aproveitado com a maior amplitude possível, com dados culturais vários; se isso não acontece, as pessoas vão à missa como foram há dez anos ou como irão daqui a dez anos, sem a noção de que o mundo se transforma», assinalou.

Neste sentido, a escritora defendeu que o texto canónico proclamado nas celebrações deve ser «acrescentado com a narrativa do nosso tempo, que tenha a capacidade de chegar às pessoas através de novas parábolas sobre a parábola».

Depois de evocar um padre que, nas pregações, contava não só «histórias da Bíblia», mas também «histórias da vida», a escritora observou que se mais sacerdotes aproximassem o Evangelho dos acontecimentos do dia a dia, «as pessoas sentiriam a Igreja muito mais próxima».

«Há uma espécie de assepsia, que a palavra dita e narrada não pode tocar neste mundo, há um tabique muito forte», observou, ao responder à pergunta de como os católicos podem estar mais presentes no mundo da cultura.

A Igreja tem lançado «uma espécie de cortina perante os vários espaços culturais, não os faz seus, não os interioriza, pode assistir a uma ou outra coisa, ser amiga de uma ou outra pessoa, mas não os transforma naquilo que é a sua pregação», apontou Lídia Jorge.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Lídia Jorge | D.R.
Publicado em 29.04.2021

 

 
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