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Patti Smith, Jesus Cristo e a devoção

É de uma relação de respeito, admiração, até proximidade, mas ao mesmo tempo distante das opções pessoalmente assumidos, não com a atitude do “não tens nada a ver com isso”, mas de quem não quer ser um “peso” a quem se ofereceu para carregar o de todos, que fala Patti Smith sobre Jesus, em entrevista à edição desta sexta-feira da revista Ipsílon (Público).

«Sempre admirei Jesus, li as Escrituras, admiro os ensinamentos, mas quando tive uma religião era jovem, e a ideia de Jesus como a de alguém a carregar um enorme peso, a ideia de que tudo o que fizéssemos de mau pesaria sobre os seus ombros, fazia-me sentir claustrofóbica», afirma a compositora e cantora norte-americana, em conversa com a jornalista Isabel Lucas.

Na entrevista, a propósito do livro “Devoção” (Quetzal), que em abril chegou às livrarias em Portugal, Patti Smith, que já atuou no concerto de Natal do Vaticano, recorda que cresceu «com uma educação religiosa intensa, típica da altura».

«Mas a partir dos 12 ou 13 anos achava tudo demasiado confinado; parecia-me que a religião enquadrava as coisas para servir precisamente a religião, e quando tentava expressar o que sentia a um padre, a um catequista, diziam-me: “Isso não é para ser questionado”. E eu respondia: “Mas Jesus questionava”. E vinha logo a contra-resposta: “Não te compares a Jesus”», afirma.



A poesia «é uma das artes mais bonitas mas mais exigentes porque há tanta poesia cifrada num poema! Talvez seja por isso que muita poesia seja indecifrável. Para mim, a poesia é a equação perfeita, a obra de um matemático místico»



Um dos versos mais conhecidos de Patti Smith, e mais sujeito a exegeses, quantas vezes ao lado da intenção (embora ler seja também interpretar), é «Christ died for somebody’s sins, but not mine».

«Foi uma declaração de independência. Eu iria ser a responsável pelos meus pecados; Jesus não teria de ser responsável pelo que eu fizesse. Não é uma declaração contra Jesus, por quem tenho admiração», observa.

E acrescenta: «Para algumas pessoas, ter alguém a morrer pelos seus pecados é muito confortável, mas sinto que a responsabilidade é toda minha, Jesus já tem muito que fazer; não precisa de carregar o que faço. Essas coisas preocupavam-me muito quando era nova. Agora não penso muito nisso, porque sou o que sou, mas aos 20 tudo conta muito».

A poesia «é uma das artes mais bonitas mas mais exigentes porque há tanta poesia cifrada num poema! Talvez seja por isso que muita poesia seja indecifrável. Para mim, a poesia é a equação perfeita, a obra de um matemático místico».

Neste livro, a “devoção” de Patti é precisamente a escrita, como assinalou em entrevista publicada o ano passado ao “El País”: «Não posso imaginar minha vida sem escrever. Se só pudesse ficar com uma coisa, ficaria com a literatura. Se só pudesse ficar com uma coisa, seria com a literatura».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: D.R.
Publicado em 11.05.2019

 

 
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