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Leitura: "Partir ao encontro dos corações"

Imagem © Riccardo Meloni/Fotolia

Leitura: "Partir ao encontro dos corações"

Quando era arcebispo de Buenos Aires, o papa Francisco encontrava-se regularmente com catequistas, bem como com peregrinos do santuário de Nossa Senhora de Luján, padroeira da Argentina.

No contexto da aproximação de um novo ano de catequese, a Paulinas Editora publica nos próximos dias o livro "Partir ao encontro dos corações - Mensagens aos catequistas e peregrinos", redigidas pelo arcebispo Jorge Mario Bergoglio, as quais, neste volume, estão separadas em dois capítulos.

Os 20 textos selecionados, 10 em cada secção, estão geralmente intitulados com excertos bíblicos, como é o caso daquele que oferecemos para leitura, em que o arcebispo portenho se centra não em técnicas ou estratégias para ampliar os resultados da catequese, mas na espiritualidade que o catequista deve cultivar.

 

Mestre, onde vives?
Card. Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco)

 

Querido irmão e irmã catequista,

Temos mais uma vez a oportunidade de nos encontrarmos. Aqui, juntos, retomamos o tempo anual da catequese, centrando-nos numa ideia-força que nos acompanhará ao longo do ano. É um momento intenso de encontro, de festa, de comunhão, que valorizo muito e, tenho a certeza, que vós também.

Ao aproximar-se a festa de São Pio X, patrono dos catequistas, gostaria de me dirigir agora a cada um de vós, através desta carta. No meio das atividades, quando o cansaço começa a fazer-se sentir, desejo animar-vos, como pai e irmão, e convidar-vos a fazer uma paragem para podermos refletir juntos sobre alguns aspetos da pastoral catequética.

Faço-o consciente de que, como bispo, sou chamado a ser o primeiro catequista da diocese... Mas gostaria sobretudo, por este meio, de vencer um pouco o anonimato próprio da grande cidade, que impede muitas vezes o encontro pessoal, que certamente todos procuramos. Além disso, este pode ser mais um meio para ir traçando linhas comuns à pastoral catequética arquidiocesana, que permitam uma unidade de fundo dentro da lógica e sã pluralidade própria de uma cidade tão grande e complexa como Buenos Aires.

Nesta carta, preferi não me deter em alguns aspetos da praxis catequética, mas, antes, na própria pessoa do catequista. (...)

A Igreja reconhece no catequista uma forma de ministério que, ao longo da história, permitiu que Jesus fosse conhecido de geração em geração. Não de forma excludente, mas, sim, de uma maneira privilegiada, a Igreja reconhece nesta porção do povo de Deus essa corrente de testemunhas de que nos fala o "Catecismo da Igreja Católica": «Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir. [...] Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser amparado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para amparar os outros na fé» (CIC, n. 166).

Todos, ao relembrar o nosso próprio processo pessoal de crescimento na fé, descobrimos rostos de catequistas simples que, com o seu testemunho de vida e a sua entrega generosa, nos ajudaram a conhecer e a enamorarmo-nos de Cristo. Recordo com carinho e gratidão a irmã Dolores, do Colegio de la Misericordia de Flores: foi quem me preparou para a Primeira Comunhão e para a Confirmação. E até há uns meses ainda estava viva outra das minhas catequistas: fazia-me bem visitá-la, ou recebê-la, ou falar com ela pelo telefone. Hoje também são muitos os jovens e adultos que silenciosamente, com humildade e desde a base, continuam a ser instrumentos do Senhor para edificar a comunidade e tornar o Reino presente.

Por isso, hoje, penso em cada catequista, ressaltando um aspeto que me parece que, nas circunstâncias atuais que vivemos, tem maior urgência: o catequista e a sua relação pessoal com o Senhor.

Com toda a lucidez, João Paulo II adverte-nos na Carta Apostólica "Novo millenio ineunte": «O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que, muitas vezes, chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de “fazer por fazer”. Há que resistir a esta tentação, procurando o “ser” acima do “fazer”. A tal propósito recordemos a censura de Jesus a Marta: “Andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária” (Lc 10,41-42)» (NMI, n. 15).

No ser e vocaçãode todo o cristão está o encontro pessoal com o Senhor. Procurar Deus é procurar o seu Rosto, é entrar na sua intimidade. Toda a vocação, muito mais ainda a do catequista, pressupõe uma pergunta: «Mestre, onde vives?» «Vem e verás...». Da qualidade da resposta, da profundidade do encontro surgirá a qualidade da nossa mediação como catequistas. A Igreja constitui-se sobre este «Vem e verás». Encontro pessoal e intimidade com o Mestre que fundamentam o verdadeiro discipulado e asseguram à catequese o seu sabor genuíno, afastando a perseguição sempre atual de racionalismos e ideologizações que tiram vitalidade e esterilizam a Boa-Nova.

A catequese precisa de catequistas santos, que contagiem tão-somente com a sua presença, que ajudem com o seu testemunho de vida a superar uma civilização individualista dominada por uma «ética minimalista e uma religiosidade superficial» (NMI, n. 31). Hoje mais do que nunca urge a necessidade de se deixar encontrar pelo Amor, que tem sempre a iniciativa, para ajudar os homens a experimentar a Boa-Nova do encontro.

Hoje mais do que nunca, pode-se descobrir detrás de tantas buscas da nossa gente uma procura do Absoluto que, por momentos, adquire a forma de grito doloroso de uma humanidade ultrajada: «Queremos ver Jesus» (Jo 12,21). São muitos os rostos que, com um silêncio que diz mais que mil palavras, nos formulam este pedido. Conhecemo-los bem: estão no meio de nós, fazem parte desse povo fiel que Deus nos confia. Rostos de crianças, de jovens, de adultos... Alguns deles têm o olhar puro do discípulo amado, outros, o olhar baixo do filho pródigo. Não faltam rostos marcados pela dor e pela desesperança.

Mas todos esperam, «os homens do nosso tempo, talvez sem se darem conta, pedem aos crentes de hoje não só que lhes “falem” de Cristo, mas também que de certa forma lho façam “ver”... Mas, o nosso testemunho seria excessivamente pobre, se não fôssemos primeiro contemplativos do seu rosto» (NMI, n. 16).

Hoje mais do que nunca as dificuldades presentes obrigam, àqueles que Deus convoca, a consolar o seu povo, a enraizar-se na oração, para nos aproximarmos de «algo que se assemelha à experiência de Jesus na cruz, num misto paradoxal de beatitude e dor» (NMI, n. 27). Só a partir de um encontro pessoal com o Senhor, poderemos desempenhar a diaconia da ternura, sem nos aquebrantarmos ou nos deixarmos sufocar pela presença da dor e do sofrimento.

Hoje mais do que nunca é necessário que todo o movimento em direção ao irmão, todo o serviço eclesial, tenha o pressuposto e fundamento da proximidade e da familiaridade com o Senhor. Assim como a visita de Maria a Isabel, rica em atitudes de serviço e de alegria, só se entende e torna realidade a partir da experiência profunda de encontro e escuta ocorrida no silêncio de Nazaré.

O nosso povo está cansado de palavras: não precisa de tantos mestres, mas sim de testemunhas... E a testemunha consolida-se na interioridade, no encontro com Jesus Cristo. Todo o cristão, mas muito mais o catequista, deve ser permanentemente um discípulo do Mestre na arte de rezar. É preciso aprender a orar, aprendendo de novo esta arte dos próprios lábios do divino Mestre, como os primeiros discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar» (Lc 11,1). Na prece desenvolve-se este diálogo com Cristo, que nos converte em seus íntimos: «Permanecei em mim, que Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4; cf. NMI, n. 32).

Daí que o convite de Jesus para navegar mar adentro deva ser entendido também como um chamamento a animarmo-nos a abandonar-nos na profundidade da oração que permita evitar a ação dos espinhos que asfixiam a semente. Às vezes a nossa pesca é infrutífera porque não o fazemos em seu nome; porque estamos demasiado preocupados com as nossas redes... e esquecemo-nos de o fazer com e por Ele.

Estes tempos não são fáceis, não são tempos para entusiasmos passageiros, para espiritualidades espasmódicas, sentimentalistas ou gnósticas. A Igreja católica tem uma rica tradição espiritual, com numerosos e variados mestres que podem guiar e nutrir uma verdadeira espiritualidade que torne possível hoje a diaconia da escuta e a pastoral do encontro. Na leitura atenta e recetiva do capítulo terceiro da carta do Papa "Novo millenio inneunte", encontrareis a fonte inspiradora de muito do que eu quis partilhar convosco. Simplesmente para terminar, animo-me a pedir-vos que reforceis três aspetos fundamentais da vida espiritual de qualquer cristão, e muito mais de um catequista:

O encontro pessoal e vivo através de uma leitura orante da Palavra de Deus

Dou graças ao Senhor porque a sua Palavra está cada vez mais presente nos encontros de catequistas. Consta-me, aliás, que são muitos os avanços relativamente à formação bíblica dos catequistas. Mas correr-se-ia o risco de ficar numa fria exegese ou uso do texto das Sagradas Escrituras, caso faltasse o encontro pessoal, a reflexão [ruminadora] insubstituível que cada crente e cada comunidade deve fazer da Palavra para que se dê «o encontro vital, segundo a antiga e sempre válida tradição da "lectio divina": esta permite ler o texto bíblico como palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência» (NMI, n. 39). O catequista encontrará assim a fonte inspiradora de toda a sua pedagogia, que necessariamente estará marcada pelo amor que se torna proximidade, oferta e comunhão.

O encontro pessoal e vivo através da Eucaristia

Todos vivenciámos o prazer, como Igreja, desta presença próxima e quotidiana do Senhor ressuscitado, até ao fim da história. Mistério central da nossa fé, que realiza a comunhão e nos fortalece na missão. O "Catecismo da Igreja Católica" recorda-nos que, na Eucaristia, encontramos todo o bem da Igreja. Nela temos a certeza de que Deus é fiel à sua promessa e ficou até ao fim dos tempos (Mt 28,20).

Na visita e na adoração ao Santíssimo vivenciamos a proximidade do Bom Pastor, a ternura do seu amor, a presença do amigo fiel. Todos já vivenciámos a ajuda tão grande oferecida pela fé, o diálogo íntimo e pessoal com o Senhor sacramentado. E o catequista não pode abdicar desta bela vocação de contar o que contemplou (1Jo 1,1-3).

Na celebração da Fração do Pão somos interpelados, uma vez mais, a imitar a sua [Cristo] entrega, e renovar o gesto inédito de multiplicar as ações de solidariedade. A partir do banquete eucarístico, a Igreja vivencia a comunhão e é convidada a tornar efetivo o milagre de proximidade, através do qual é possível, neste mundo globalizado, dar um espaço ao irmão e fazer com que o pobre se sinta em cada comunidade como em sua casa (cf. NMI, n. 50). O catequista é chamado a fazer com que a doutrina se torne mensagem e a mensagem vida. Só assim, a Palavra proclamada poderá ser celebra e constituir-se verdadeiramente em sacramento de Comunhão.

O encontro comunitário e festivo da celebração do domingo

Na Eucaristia dominical atualiza-se a Páscoa, a Passagem do Senhorque quis entrar na história para nos fazer participantes da sua vida divina. Congrega-nos todos os domingos como família de Deus reunida em torno do altar, que se alimenta do Pão vivo e que traz e celebra o que aconteceu no caminho, para renovar as nossas forças e continuar a gritar que Ele vive no meio nós. Na missa de cada domingo vivemos a nossa pertença cordial a esse povo de Deus ao qual fomos incorporados pelo Batismo e recordamos o «primeiro dia da semana» (Mc 16,2.9). No mundo atual, muitas vezes doente de secularismo e de consumismo, parece que se vai perdendo a capacidade de celebrar, de viver como família. Por isso, o catequista é chamado a comprometer a sua vida para que não nos roubem o domingo, ajudando a que no coração do homem não se acabe a festa e ganhe sentido e plenitude o seu peregrinar da semana.

Santa Teresinha, com o poder de síntese próprio das almas grandes e simples, escreve a uma das suas irmãs, resumindo em que consiste a vida cristã: «Amá-lo e fazer com que o amem...» Esta é também a razão de ser de todo o catequista. Só havendo um encontro pessoal se pode ser instrumento para que outros o encontrem. Ao saudar-te no dia do catequista, quero agradecer-te de todo o coração toda a tua entrega ao serviço do povo fiel. E pedir a Maria Santíssima que mantenha viva no teu coração essa sede de Deus, para nunca te cansares de procurar o seu rosto. Não deixes de rezar por mim, para que eu seja um bom catequista. Que Jesus te abençoe e a Virgem Santa te cuide.

 

Publicado em 03.09.2015

 

Título: Partir ao encontro dos corações
Autor: Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco)
Editora: Paulinas
Páginas: 120
Preço: 18,00 €
ISBN: 978-989-673-478-7

 

 
Imagem © Riccardo Meloni/Fotolia
Hoje também são muitos os jovens e adultos que silenciosamente, com humildade e desde a base, continuam a ser instrumentos do Senhor para edificar a comunidade e tornar o Reino presente
A Igreja constitui-se sobre este «Vem e verás». Encontro pessoal e intimidade com o Mestre que fundamentam o verdadeiro discipulado e asseguram à catequese o seu sabor genuíno, afastando a perseguição sempre atual de racionalismos e ideologizações que tiram vitalidade e esterilizam a Boa-Nova
«Queremos ver Jesus» (Jo 12,21). São muitos os rostos que, com um silêncio que diz mais que mil palavras, nos formulam este pedido. Conhecemo-los bem: estão no meio de nós, fazem parte desse povo fiel que Deus nos confia. Rostos de crianças, de jovens, de adultos... Alguns deles têm o olhar puro do discípulo amado, outros, o olhar baixo do filho pródigo. Não faltam rostos marcados pela dor e pela desesperança
O nosso povo está cansado de palavras: não precisa de tantos mestres, mas sim de testemunhas... E a testemunha consolida-se na interioridade, no encontro com Jesus Cristo. Todo o cristão, mas muito mais o catequista, deve ser permanentemente um discípulo do Mestre na arte de rezar
Às vezes a nossa pesca é infrutífera porque não o fazemos em seu nome; porque estamos demasiado preocupados com as nossas redes... e esquecemo-nos de o fazer com e por Ele
Correr-se-ia o risco de ficar numa fria exegese ou uso do texto das Sagradas Escrituras, caso faltasse o encontro pessoal, a reflexão [ruminadora] insubstituível que cada crente e cada comunidade deve fazer da Palavra
A partir do banquete eucarístico, a Igreja vivencia a comunhão e é convidada a tornar efetivo o milagre de proximidade, através do qual é possível, neste mundo globalizado, dar um espaço ao irmão e fazer com que o pobre se sinta em cada comunidade como em sua casa
No mundo atual, muitas vezes doente de secularismo e de consumismo, parece que se vai perdendo a capacidade de celebrar, de viver como família. Por isso, o catequista é chamado a comprometer a sua vida para que não nos roubem o domingo, ajudando a que no coração do homem não se acabe a festa e ganhe sentido e plenitude o seu peregrinar da semana
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