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Para uma mística cristã de olhos abertos

Quem fizer uma busca na internet dá-se rapidamente conta de que a expressão “humanismo espiritual” está muito espalhada e tem significados e conotações diversas. O conceito de espiritualidade emergiu no século XVIII no sentido de uma forma de vida espiritual guiada pelo espírito de Jesus Cristo. Depois, esta palavra encontrou uma extensão de significado religioso e, inclusive, secular. Vai-se de um humanismo espiritual ateu laico, muitas vezes agressivamente anticristão, em Joachim Kahl (que se tornou uma importante referência para a União humanista evocativa de Giordano Bruno) e Richard Dawkins, um pioneiro do novo ateísmo, até a um humanismo espiritual confuciano em Tu Weiming, que atribui aquele termo ao filósofo indiano Ramachandran Balasubramanian. A estes acrescenta-se o humanismo socialista, que advoga a abolição da alienação e o fim da exploração do ser humano pelo ser humano, e o espiritualismo feminista, que na forma pós-cristã faz referência à energia vital feminina no ciclo do cosmo, enquanto na forma cristã faz referência a figuras bíblicas significativas e à mística feminina. Por fim, há o humanismo religioso “patchwork”, que junta acriticamente pedaços provenientes de religiões diversas, em parte arcaicas, que por vezes transformou o termo “espiritualidade” numa palavra insignificante que quer dizer tudo e nada, para seguir as modas. (…)

Após o 1968 houve um debate fundamental sobre o humanismo prático e socialmente comprometido. (…) Os estudantes queriam levar a sério a experiência, fundamental na pós-modernidade, do mal-estar no mundo ocidental iluminado, do falhanço dos sistemas idealistas do pensamento e da fé moderna no progresso. Com a sua crítica radical ao sistema, como lhe chamavam os estudantes que se revoltavam, queriam mudar a rota da história e emancipar-se de todo o pensamento humanista ocidental. Subverteram-lhe a lógica. A prática não deveria continuar a seguir a visão da verdade, mas a verdade deveria emergir da prática revolucionária. Essa total emancipação da tradição e de qualquer autoridade, como sublinhado por Olivier Clément, só podia conduzir a um niilismo caótico e muitas vezes violento. (…) Também o Evangelho fala de fazer a verdade. Só aqueles que fazem a verdade vêm à luz (cf. João 3,21). A verdade não é uma palavra abstrata, mas a pessoa Jesus Cristo (cf. João 14,9). Sem Ele não podemos fazer nada (cf. João 15,5).



A avidez cria um consumismo que quer adquirir o mais possível para o consumir, usufrui-lo e depois lançá-lo fora. Uma tal sociedade do descarte é um escândalo imenso. Faz pouco daqueles que não tem nada, e portanto não têm nada para lançar fora. Tiramos-lhes os seus bens, mas deixamos-lhes cinicamente o nosso lixo



Segundo Henri de Lubac, nestas afirmações bíblicas está expresso o paradoxo do ser humano. Ele não pode alcançar o máximo cumprimento da sua vida e das suas aspirações com as próprias forças, porque tudo depende do dom da graça. (…). O axioma beneditino “ora et labora” [oração e trabalho] tornou-se fundamental. Com ele, os filhos de Bento de Núrsia construíram a cultura da Europa. Após as catástrofes do século XX, a Europa só pode ter um novo futuro na base da oração e do compromisso humano. (…) A nossa situação coloca-nos diante da necessidade de um repensamento, de um novo pensamento (em grego “metanoia”) e de uma fundamental correção de rota, a que Jesus chamava os seus contemporâneos e as pessoas de todos os tempos, incluindo o nosso: «Convertei-vos e acreditai» (Marcos 1,15). O papa Francisco descreveu vividamente esta conversão fundamental sobretudo no sexto capítulo da encíclica “Laudato si’”, de 2015, na qual fala de uma nova espiritualidade ecológica. Só com os melhoramentos e as inovações económicas e tecnológicas, por muito necessárias que sejam, não poderemos dominar a crise em que nos encontramos.

Também as medidas que empregamos para a superar estão sujeitas à dialética do progresso. Ninguém pode garantir que estas medidas, fruto de boas intenções, não estejam sujeitas a imprevistos, graves efeitos negativos colaterais e de longo curso. Poderá inclusive acontecer que estejamos a enxotar o diabo com Belzebu. O progresso económico conduziu à dependência da posse e a uma injustiça que brada até ao Céu pela desigualdade entre os pouquíssimos muito ricos e os inumeráveis muito pobres. Esta injustiça que brada ao Céu é uma gigantesca ameaça para a paz no mundo. A avidez cria um consumismo que quer adquirir o mais possível para o consumir, usufrui-lo e depois lançá-lo fora. Uma tal sociedade do descarte é um escândalo imenso. Faz pouco daqueles que não tem nada, e portanto não têm nada para lançar fora. Tiramos-lhes os seus bens, mas deixamos-lhes cinicamente o nosso lixo. A nossa avidez, que destrói a realidade da criação, torna-nos, também a nós, pobres. Porque a perda de liberdade pela posse das coisas torna-nos dependentes e interiormente vazios. Ter mais conduz a ser menos. Todavia, o moto deveria ser: ser mais do que ter. Em vez de avaliar tudo com base no seu uso e na sua utilidade, deveríamos redescobrir o valor intrínseco das coisas como a inviolável dignidade das outras pessoas e aprender de novo a antiga virtude romana da “pietas”, a atitude de temor para com o mundo e as pessoas. Isto significa que depois de todas as vagas de secularização e utilização técnica da realidade, deveríamos redescobrir o sagrado num mundo novo. Não é simplesmente uma realidade ultraterrena; manifesta-se na realidade. Definitivamente, é o maravilhosamente inacessível e inutilizável na realidade do mundo e das pessoas que atrai e fascina, mas que ao mesmo tempo nos escapa, nos mantém timidamente à distância, e preserva assim a nossa liberdade interior.



Nesta omnipotência que se tornou impotente, Deus pode forçar tudo, exceto nós, seres humanos, não podendo obrigar-nos a adorá-lo contra a nossa vontade. Em Jesus Cristo quer ser próximo a nós e a todas as pessoas com amor, compaixão, e também com grande ternura. A sua honra é o ser humano vivo



O sagrado foi justamente definido como um “mysterium tremendum fascinosum”, como um segredo majestoso, mas atraente. A sua redescoberta reconduz-nos às raízes do humanismo espiritual. Como cristãos, podemos encontrar Deus em todas as coisas (Inácio de Loyola) e no sacramento do irmão (Hans Urs von Balthasar), nos outros, especialmente nos pobres e nos necessitados, para encontrar o Deus que se torna homem em Jesus Cristo (cf. Mateus 25). Ele mostrou a sua omnipotência na impotência da quenose, esvaziando-se a si próprio na cruz (cf. Filipenses 2,6-9). Nesta omnipotência que se tornou impotente, Deus pode forçar tudo, exceto nós, seres humanos, não podendo obrigar-nos a adorá-lo contra a nossa vontade. Em Jesus Cristo quer ser próximo a nós e a todas as pessoas com amor, compaixão, e também com grande ternura. A sua honra é o ser humano vivo.

O que é, então, o humanismo espiritual no sentido cristão? O humanismo cristão pede uma conversão profunda, que conduz a uma redescoberta do sagrado e da sacralidade no mundo, particularmente do sagrado em cada pessoa humana. Convida-nos a uma nova visão cósmica de Jesus Cristo e a encontrar Deus em Jesus Cristo, tornado homem fraco, nos nossos irmãos e irmãs fracos com compaixão operosa e amor preferencial. Pode também dizer-se: o humanismo espiritual é uma mística não dos olhos fechados, ao mundo e à sua miséria, mas uma mística dos olhos abertos, que nos conduz a viver com as mãos abertas e a correr velozmente, cooperando para uma nova civilização do amor. É certo que nunca chegaremos ao fim. Mas a sabedoria do Talmude ensina: «Quem salva um homem salva o mundo inteiro».


 

Card. Walter Kasper
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Aliaksandr Antanovich/Bigstock.com
Publicado em 28.01.2021

 

 
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