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Para um cristianismo místico: Pistas para uma teologia da interioridade

I – Para começar: um sinal dos tempos

1. A interioridade é o novo paradigma religioso, é um facto. (…) Mas, o que é realmente a interioridade? Uma palavra fetiche, claro, isto é, um vocábulo que, por ser muito genérico, todos podem colocar o que quiserem. Mas podemos nós especificar alguma coisa? Não será necessária a concretude para poder avançar?

2. A interioridade é um termo que não pode ser entendido sem o seu contrário, oposto ou complementar: a exterioridade. A exterioridade foi, provavelmente, embora não com essa palavra, o paradigma religioso precedente. «Crer é comprometer-se», dizia uma ou duas gerações anteriores à nossa. Hoje, em contrapartida, nem a crença nem o compromisso são palavras que sejam particularmente cordiais. Preferimos falar de experiência, de solidariedade, de tantas outras coisas. Cada geração tem, decerto, o seu próprio acervo espiritual, e "interioridade", juntamente com "silêncio", "consciência" ou "meditação", para dar alguns exemplos, formam claramente parte do atual.

3. Assim, a nossa sensibilidade para o interior vem como reação, perante uma anterior forte sensibilidade ao social. Nos meus anos de formação sacerdotal, há um par de décadas, o definitivo e definidor era expressar a fé, encarnar-se, implicar-se nas estruturas públicas, atender os marginalizados, compartilhar a Eucaristia... Hoje, em contrapartida, olhamos para dentro, talvez porque o mundo exterior nos dececionou, ou porque descobrimos que o exterior, sem o interior, não tem consistência. Voltamos o olhar para o interior, e isso, enquanto não degenerar em espiritualismo, ou seja, em desconexão ou indiferença perante o exterior, é bom.

4. Teremos que nos perguntar se não vai chegar o dia em que deixemos definitivamente por trás deste esquema dual (interior e exterior, dentro e fora, cristãos e não cristãos, homens e mulheres...) para descobrir – já é hora - que dentro e fora são, depois de tudo, a mesma coisa, que a realização humana passa, precisamente, pela descoberta de que não existe tal fronteira. Que a plenitude é a harmonia entre a experiência e a expressão, entre o que se pensa e sente e o que se diz e faz. A unidade do ser humano consigo mesmo, a unidade do ser humano com os seus semelhantes e com a natureza: esta é, em definitivo, a questão.



Nos retiros de meditação que oriento, costumo distinguir, nesse sentido, entre a taça e o vinho. A religião é a taça; a espiritualidade, o vinho. O que interessa a qualquer homem sensato é beber para saciar a sua sede de vida, não simplesmente colecionar taças ou dar-lhes brilho. De modo que uma religião sem espiritualidade, na melhor das hipóteses, reduz-se à cultura e, na pior, a folclore ou ritualismo



II – Religião, espiritualidade e cultura

1. Hoje proliferam os profetas que anunciam que a religião chegou ao seu fim. Quer concordemos ou não com essa profecia, há um fato incontestável: cresce a sensibilidade anti-religiosa nas nossas sociedades ocidentais. Primeiro foi um julgamento da instituição eclesial e dos seus mecanismos de funcionamento. Depois – era de esperar – das religiões em particular e do facto religioso em geral. Agora questiona-se inclusive a figura de Jesus Cristo, não já como grande mestre e realizador de milagres, mas como Filho de Deus e Redentor do mundo. O processo de questionamento tem sido progressivo e paulatino Tanto as formas religiosas quanto os conteúdos que expressam têm sido questionados sistematicamente nestas últimas décadas. Apesar de tudo - e isto é curioso -, as formas religiosas não só persistem no nosso tempo, como em alguns casos florescem, embora existam outras que, certamente, definham e chegam até a morrer.

2. Esta situação não é radicalmente nova. O radicalmente novo é, talvez, a intensidade e generalidade, bem como o êxito com que esta crítica se estende. Mas este erodir dos fundamentos do religioso existiu sempre, desde o princípio. Coloquemos o exemplo de Jesus de Nazaré. O conflito que Jesus tem com as autoridades religiosas de seu tempo, segundo nos é contado nos Evangelhos, é precisamente este: Ele acusa de esterilidade e até de hipocrisia os representantes oficiais do judaísmo (as jarras de Caná, símbolo das tábuas da Lei, estão vazias; eles podem enchê-las de água, mas só Ele converterá essa água em vinho, ou seja, fará com que elas sejam portadoras de verdadeira vida). Os fariseus e saduceus, aborrecidos e indignados, incomodam-se. Estavam muito agarrados ao exterior, provavelmente por medo e insegurança. O que Jesus lhes desafia, com os seus ditos e ações, é interiorizar a sua prática religiosa, quer dizer, atualizar permanentemente, para não o esquecer, que o culto serve unicamente se alimentar a alma das pessoas. E a esse alimento da alma das pessoas, a esse sustento cultual para o interior, é o que hoje chamamos de interioridade, que é o nome laico de espiritualidade.

3. Nos retiros de meditação que oriento, costumo distinguir, nesse sentido, entre a taça e o vinho. A religião é a taça; a espiritualidade, o vinho. O que interessa a qualquer homem sensato é beber para saciar a sua sede de vida, não simplesmente colecionar taças ou dar-lhes brilho. De modo que uma religião sem espiritualidade, na melhor das hipóteses, reduz-se à cultura e, na pior, a folclore ou ritualismo. Também uso nestes retiros a metáfora do sábio que aponta para a lua. Os estúpidos ficam-se pelo dedo que aponta; os sensatos dirigem o olhar para a lua que é apontada. E a metáfora do fogo e das pedras. Não se trata de adorar as pedras com que fazemos fogo, mas de nos aquecermos e iluminarmos à dessa fogueira. As metáforas são incontáveis e apontam sempre para o mesmo: o homem contemporâneo, como o próprio Jesus de Nazaré no seu tempo, quer a lua, o fogo e o vinho; e não está disposto a perder tempo com o dedo, a taça ou as pedras. Nesse sentido, este interesse atual pela interioridade é, desde logo, uma boa notícia.



Assim como não sacia a alma humana um amor abstrato, mas uma pessoa amada, creio que sinceramente que também não sacia a alma humana uma interioridade genérica, mas uma incarnada na forma cultural de determinada tradição



4. Claro que é muito fácil criticar as formas e dizer que o que importa é o fundo, mas a questão não é assim tão simples, porque... Como é que se pode ir ao fundo se não for por meio de alguma forma? Ou será que o ser humano pode prescindir da sua condição histórica e corporal? É ou não é a espiritualidade um ato cultural, e, se o é, não implica que tem de ser traduzido em formas? Esta é uma questão complicada. Pela minha parte, defendo que toda a busca espiritual se encarna em palavras e gestos, e que, se as religiões não existem sem as palavras e o gestos que o ser humano realiza para alimentar a sua alma, então toda a busca espiritual termina, no final, por ser religiosa, ainda que com formas distintas, mas desde logo afins, às clássicas ou tradicionais.

5. Este é o centro ou núcleo da minha contribuição nesta conferência: a religião é a cultura do espiritual; se hoje interessa a interioridade - que, como disse, é o nome laico  da espiritualidade –, a única coisa que cabe fazer para dar resposta a este manifesto interesse é, ou inventar formas religiosas novas, mais de acordo com a nossa linguagem e sensibilidade - e isso é seguramente o que está a fazer o chamado “mindfulness” – ou, que é o que proponho, rever e renovar as formas religiosas tradicionais (as cristãs no nosso caso, embora clara e totalmente abertas a outras tradições de sabedoria), para, a partir delas, fazer uma proposta que responda a esse amplo, ainda que difuso, anseio de Vida.

6. Esta abordagem - é necessário deixar claro - é incómoda na atualidade: muitos, talvez a maioria, não sei, quereriam apagar tudo, começar do zero, partir totalmente do princípio. Não creio, com franqueza, que algo assim seja possível (ou desejável). Dito com mais clareza: defendo que sem uma raiz cristã (ou budista, hindu, muçulmana...) não é possível articular um caminho espiritual a partir deste novo paradigma que chamamos interioridade, sob pena de ficarmos por grandes princípios gerais e abstratos. No entanto, assim como não sacia a alma humana um amor abstrato, mas uma pessoa amada, creio que sinceramente que também não sacia a alma humana uma interioridade genérica, mas uma incarnada na forma cultural de determinada tradição. Se nem a Modernidade nem o Iluminismo conseguiram terminar com o fenómeno religioso - como vaticinaram -, e se hoje se apresenta a interioridade - e com força crescente - como o grande paradigma da educação, então é porque soou a hora de uma profunda renovação espiritual. Renovação quer dizer que, tendo em conta o antigo (o religioso), propor algo novo com e desde essa raiz.



O risco de uma leitura do cristão meramente a partir da palavra ou da ação - e essa tem sido a experiência religiosa da Modernidade - é, por um lado, reduzi-lo a algo eminentemente teológico ou intelectual, isto é, a um fenómeno da mente; e, por outro, reduzi-lo a algo eminentemente útil ou prático, e isso é, em última instância, o moralismo, bem como o seu filho mais patético e evidente: o ativismo, essa doença que aflige o Ocidente



III – Cristo, o cristianismo e o silêncio

1. Esta exposição podia ficar por aqui, mas nesse caso limitar-se-ia ao esboço de um diagnóstico e de um horizonte. Gostaria, como é natural, dar um passo mais e enunciar, mesmo que de forma necessariamente esquemática e sucinta, como se articularia esta renovação espiritual à luz do que aludi. Aqui, a palavra-chave é para mim "silêncio". Também o termo "consciência". Porque não há interioridade possível sem silêncio. Mais ainda: a interioridade é substancialmente silêncio, ambas são a mesma e única coisa. Se algo pode ser qualificado de interior, é porque quem o vive parou e pôs-se a escutar, porque deteve o fluxo das atividades - sempre tão frenético - e reprimiu os pensamentos, para, desse modo, poder receber o que há: o presente do real. O silêncio não é para ir para outro lugar, mas para tomar consciência das implicações e do horizonte deste lugar. O silêncio é a condição de possibilidade da consciência e a consciência mesma. Articular o paradigma da interioridade implica perguntar-se, simples e francamente, como educar no silêncio. O que fazer para que nem tudo seja pensamento e ação? Não é o silêncio o que permite que uma palavra não seja meramente mental, mas espiritual, e o que possibilita que um gesto não seja apenas mecânico ou meramente significativo, mas transformador? Demasiadas perguntas. Não vou tentar responder aqui a todas. Limitar-me-ei a colocar as bases do edifício.

2. O cristianismo tem sido lido até agora fundamentalmente em chave de palavra. Projetá-lo agora em chave de silêncio supõe, desde logo, um repensamento muito radical. Mas trata-se de um repensamento necessário, pois não nasce de um laboratório teológico, mas desse sinal dos tempos que chamamos de paradigma da interioridade. O risco de uma leitura do cristão meramente a partir da palavra ou da ação - e essa tem sido a experiência religiosa da Modernidade - é, por um lado, reduzi-lo a algo eminentemente teológico ou intelectual, isto é, a um fenómeno da mente; e, por outro, reduzi-lo a algo eminentemente útil ou prático, e isso é, em última instância, o moralismo, bem como o seu filho mais patético e evidente: o ativismo, essa doença que aflige o Ocidente. Esta degeneração ou reducionismo da fé é evitada, em contrapartida, a partir da chave do silêncio, que convida a considerar o real não como algo que primordialmente pode ser pensado e transformado, mas primeiramente contemplado, isto é, reconhecido e agradecido. Assim, o pensamento e a ação, para que sejam cristãos, para que eles sejam pensamento e ação cristãos, devem ser precedidos, encorajados e seguidos, de contemplação. Contemplação - escusado será dizer – é a palavra religiosa (estar no templo) para interioridade.



Esta nova compreensão do cristianismo, esta releitura de Cristo e até mesmo do próprio Deus, essa nova, embora antiga, forma de autoconhecimento tem, certamente, uma grande via de acesso: a oração contemplativa ou meditação em silêncio e em quietude. Essa é a disciplina ou ascese que deve aprender-se se se quiser dar lugar ao paradigma da interioridade



3. Reler Cristo desde o silêncio (e esta é a teologia da interioridade sobre a qual me pediram para falar) supõe entendê-lo em íntima conexão com a sua Fonte, o Pai, e com a sua Energia vivificadora, o Espírito. Esta releitura suporá seguir atendendo ao Jesus histórico, é claro, mas também e sobretudo ao Cristo interior ou místico. Interessará a forma da Divindade, desde logo, e essa é Jesus de Nazaré; mas interessará sobretudo o fundo, e esse é Cristo. Os cristãos não são chamados a ser outros Jesus na nossa história, mas outros Cristos; não a reproduzir nas nossas coordenadas históricas ou contingentes a exterioridade ou formas de Jesus Cristo, mas o seu Fundo ou interioridade, o seu Espírito. Os cristãos são chamados não só a reconhecer que Ele é o Caminho, a Verdade, a Vida, a Porta, a Luz do mundo..., mas a começar a atrever-nos - e talvez isso provoque escândalo - que somos o Caminho, a Verdade, a Vida, a Porta e a Luz do mundo. Trata-se de fazer, o mais radicalmente possível, a mesma experiência que Ele fez: a de sentirmo-nos e sabermo-nos filhos, únicos e amados. Trata-se de reconhecer que no interior todos somos o mesmo. Que todos somos um.

4. O conhecimento silencioso é, desde logo, distinto, ainda que complementar, ao que nos proporciona o conhecimento verbal. Porque a palavra procede necessariamente por análise, dividindo, enquanto que o silêncio faz isso através da síntese, isto é, unificando. A via reflexiva ou analítica é distinta e complementar da via meditativa ou sintética. A primeira usa a razão, a segunda a contemplação. A primeira quer entrar na realidade para a compreender; a segunda, em contrapartida, permite que a realidade entre em nós. O propósito da contemplação não é saber, mas precisamente não saber, libertar-se do conhecimento, soltar qualquer ideia ou crença e caminhar, o mais despojadamente possível, para a bem-aventurança da pobreza espiritual. O conhecimento silencioso não provém da compreensão, mas de desapego, não da soma, mas da subtração; não é uma construção, mas uma descoberta. Para tudo isto – reconheçamo-lo – apenas há hoje pedagogias. Talvez porque se tenha considerado que era um caminho para uns poucos eleitos. Esta é a novidade do nosso tempo: que a via contemplativa, que antes era para selecionados, estende-se hoje para todos. Que a mística não é um privilégio aristocrático, mas uma possibilidade geral.



A partir do silêncio, o diálogo inter-religioso será não só um imperativo e uma necessidade, mas uma consequência óbvia e imprescindível. A partir do silêncio, a comunidade cristã pode reinventar-se, e, o que é ainda mais importante, a pessoa, toda a pessoa, descobrirá a sua verdadeira humanidade



5. Esta nova compreensão do cristianismo, esta releitura de Cristo e até mesmo do próprio Deus, essa nova, embora antiga, forma de autoconhecimento tem, certamente, uma grande via de acesso: a oração contemplativa ou meditação em silêncio e em quietude. Essa é a disciplina ou ascese que deve aprender-se se se quiser dar lugar ao paradigma da interioridade. (…) Meditar é convocar e recolher as energias para seguir o caminho em direção ao próprio centro ou fonte do Ser. Uma peregrinação rumo ao próprio jardim do Éden, portanto. Um itinerário do corpo, da mente e do espírito em direção ao núcleo de nossa identidade mais radical. Onde colocou "energias", um cristão poderia colocar "Espirito Santo". Meditamos no Espírito, não sem sua mediação. Onde eu escrevi (ou disse) "caminho", um cristão escreveria (ou diria) Cristo, visto que Ele é o Caminho. Os cristãos meditaremos em e com o nome de Jesus: esse é o nome que nos traz a presença, a salvação e a união. Passo a passo, respiração a respiração, esse nome, que é Caminho, essa Palavra feita Silêncio, conduz-nos à nossa Fonte, que os cristãos chamamos Pai ou Deus. Tudo isto para indicar que a meditação cristã tem uma estrutura claramente trinitária. Que reunir-se em nome do Pai, do Filho e do Espírito é tanto quanto meditar em nome da Fonte, do Caminho e da Energia.

 

IV - Para terminar: um momento apaixonante

É provável que as teses que sugeri nesta palestra, os horizontes que abrem, as perplexidades que despertam e as perguntas que suscitam sejam tão numerosas quanto inquietantes. É bom que seja assim, essa é a missão da teologia. Esta apresentação pretende, simples e francamente, abrir um campo de investigação. Abrir também, se é possível, um campo de oração. A partir do silêncio - esta é a minha convicção - o Evangelho de Jesus Cristo soar-nos-á completamente novo. A partir do silêncio, o diálogo inter-religioso será não só um imperativo e uma necessidade, mas uma consequência óbvia e imprescindível. A partir do silêncio, a comunidade cristã pode reinventar-se, e, o que é ainda mais importante, a pessoa, toda a pessoa, descobrirá a sua verdadeira humanidade. A meditação e o silenciamento abrem-nos para uma nova era. Isto mesmo está a ser dito a partir das mais diversas instâncias filosóficas e científicas, e com muitas linguagens. É apaixonante fazer parte deste momento e contribuir para ele, ainda que seja modestamente. Sem nenhum espírito grandiloquente, com a humildade de quem sabe que encontrou a pérola: estamos a fazer história.


 

Pablo d'Ors
9.º Simpósido do Clero em Portugal
Fátima, setembro 2018
In "O padre - Ministro e testemunha da alegria do Evangelho", ed. Paulinas
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Mihailo K/Bigstock.com
Publicado em 18.03.2019

 

 
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