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Para fazer política é preciso dimensão interior

O célebre texto “A política como profissão”, de Max Weber, termina com inspiradas palavras sobre o ser humano que tem vocação para a política. «A política consiste numa lenta e tenaz superação de duras dificuldades, a realizar-se com paixão e discernimento ao mesmo tempo. É perfeitamente exato, e confirmado por toda a experiência histórica, que o possível não seria realizado se no mundo não se tentasse sempre o impossível. Mas aquele que pode preparar-se para essa empresa deve ser um chefe, não só, mas também – num sentido muito sóbrio da palavra – um herói. E mesmo quem não seja nem uma coisa nem outra, deve forjar-se dessa têmpera de alma, de modo a poder suportar, inclusive, o desabamento de todas as esperanças, e desde já – de outro modo não será sequer capaz de levar ao cumprimento aquele pouco que hoje é possível. Só quem está seguro de que não fracassará, mesmo se o mundo, considerado do seu ponto de vista, é demasiado estúpido ou vulgar para aquilo que ele quer oferecer-lhe, e de poder dizer diante de tudo isso “não importa, continuamos”, só um homem assim tem a “vocação” para a política.»

O retrato esboçado por Weber faz emergir um invisível do homem político, uma dimensão profunda e oculta que se subtrai ao aparecer, que evita a exibição, que habita a profundidade e – protegida pelo pudor – detesta a superficialidade. Este retrato fala, sem a nomear, da solidão do homem político. Uma solidão imbuída de força e de solidez porque fruto de ascese, de dedicação ao exercício da arte de conhecer-se, do exame de si, de diálogo e luta interiores, de pensamento e reflexão, de capacidade de suportar o impacto de situações desfavoráveis e desesperantes, sem deixar-se abater.

Falar de espiritualidade e política requer também falar da qualidade humana da pessoa que se dedica à política, isto é, que tem a vocação (“beruf”) para a política ou que dela faz profissão. E que neste “professar a política” unifica trabalho e crença, profissão e profissão de fé, unifica sobretudo as duas dimensões da responsabilidade e da convicção, que são as duas éticas, ou dimensões da ética, sublinhadas por Weber no seu ensaio.



A liberdade é o que pretendem servir tanto uma autêntica espiritualidade quanto uma política séria. Uma interioridade cultivada está na base do pensamento crítico, da capacidade de selecionar e gerir as informações, chegar a um conhecimento e formar uma opinião, tal como está na raiz de relações sociais vitais



Dimensões não exclusivas uma da outra. Com efeito, a ação política está sempre ao serviço de uma causa, a causa a que o político se consagra implica uma fé: «Ele pode servir a nação ou a humanidade, pode dar a sua obra por fins sociais, éticos ou culturais, mundanos ou religiosos (…), mas deve ter sempre uma fé».

Max Weber considera que quem se empenha na política deve prestar sempre uma atenção particular ao cuidado pela sua vida interior: a política, que conduz o ser humano a gerir força e poder, e até a «violência legítima», trará consigo «perigosas tentações», conduzirá a encontrar o mal, a confrontar-se com poderes diabólicos, a sofrer seduções poderosas, exigindo, por isso, discernimento e solidez, conhecimento de si e luta interior, capacidade de querer e capacidade de dizer não. Se a dedicação à política exige paixão, sentido de responsabilidade e visão de longo alcance, ela requer um rigoroso exercício de governo de si e das suas paixões para adquirir força e autoridade. E, quem dera, a assunção daquela virtude que se chama coerência.

Em particular, Weber recorda a tentação da vaidade, de que o político se deve guardar: «O homem político deve levar a melhor dentro de si, dia após dia e hora após hora, sobre um inimigo muito frequente e demasiadamente humano: a vaidade comum a todos, inimiga mortal de toda a efetiva dedicação e de toda a “distância”, e, neste caso, da separação em relação a si mesmo». Portanto, «quem é interiormente fraco, mantenha-se longe desta carreira».

A extraordinária força emanada por alguns homens políticos está ligada à sua profundidade espiritual. De acordo com um seu biógrafo, uma das descobertas mais importantes na formação de Gandhi foi a convicção de que «para poder transformar os outros, devemos primeiro transformarmo-nos a nós próprios». Outras aquisições que ele fez no seu amadurecimento espiritual, e que se tornaram importantes pilares da sua ação política e social, foram o considerar as dificuldades como oportunidades de servir e como desafios para estimular a sua inteligência e imaginação, em colher de qualquer coisa a possibilidade de escolher de viver para si mesmo ou para os outros, o colocar em ato uma vontade indomável.



Não é por acaso que os regimes totalitários, perseguindo a «politização total» (Arendt) do indivíduo, matam a liberdade, calam as pessoas, impedem-lhes as reuniões e as discussões, e extinguem-lhes a capacidade de pensamento autónomo; não se contentam com uma reverência exterior, mas querem invadir a interioridade e apoderar-se da alma das pessoas



E “querer” significa comandar e obedecer simultaneamente. É o dois em um próprio da vontade. A vontade implica que aquele que quer, obedeça também ao que quer. Aquele que quer determina-se, mas determinar-se significa também dar uma ordem a si mesmo e obedecer-se. O mesmo sujeito é aquele que comanda e obedece ao mesmo tempo. «Aquilo que há de mais prodigioso na vontade é que nós somos ao mesmo tempo quem comanda e quem obedece» (Nietzsche).

O diário póstumo de Dag Hammarskjöld, secretário-geral da ONU desde 1953 até à trágica morte em 1961, prémio Nobel da Paz a título póstumo no mesmo ano, revelou um homem de uma profundíssima estatura espiritual, devotado ao diálogo interior, que unia responsabilidades políticas de alcance mundial com o cultivo da interioridade, na convicção de que «as questões que estão na base de uma vida espiritual não são assunto privado, mas podem, melhor, devem alimentar um compromisso público».

As declarações proferidas por Hammarskjöld durante uma transmissão radiofónica, pouco depois da sua nomeação para secretário-geral da ONU, radicam a ligação entre compromisso político e dimensão interior e espiritual nos testemunhos dos místicos medievais: «A explicação de como o homem deve viver uma vida de serviço ativo para a sociedade em completa harmonia consigo mesmo como um membro ativo da comunidade do espírito, encontrei-a nos escritos daqueles grandes místicos medievais para os quais “a submissão” foi a via da realização de si, e que encontraram na “honestidade da mente” e na “interioridade” a força de dizer sim a cada pedido que as necessidades do seu próximo lhe punham à frente, e de dizer sim a qualquer destino que a vida tivesse reservado para eles quando responderam ao chamamento do dever tal como eles o entendiam».

Mas o cultivo e a guarda da interioridade são operações necessárias a cada ser humano, não só a quem se dedica inteiramente à política. E isto porque a liberdade é o que pretendem servir tanto uma autêntica espiritualidade quanto uma política séria. Uma interioridade cultivada está na base do pensamento crítico, da capacidade de selecionar e gerir as informações, chegar a um conhecimento e formar uma opinião, tal como está na raiz de relações sociais vitais.

Não é por acaso que os regimes totalitários, perseguindo a «politização total» (Arendt) do indivíduo, matam a liberdade, calam as pessoas, impedem-lhes as reuniões e as discussões, e extinguem-lhes a capacidade de pensamento autónomo; não se contentam com uma reverência exterior, mas querem invadir a interioridade e apoderar-se da alma das pessoas. O espaço interior é o primeiro espaço de liberdade enquanto espaço de cultivo da revolta, do “não”, do começar a imaginar e a pensar alguma coisa de alternativo ao estado das coisas. E a política deve fornecer alternativas entre opções diferentes.

Parece-me que há três faculdades do espírito humano que são particularmente de desenvolver para construir uma interioridade apta a enfrentar os desafios da política, hoje: a imaginação, a criatividade e a coragem.


 

Luciano Manicardi
Prior da comuniodade monástica de Bose, Itália
Fonte: Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: PhotoFact/Bigstock.com
Publicado em 08.04.2019

 

 
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