

Figueiras (det.) | Guy Rose | 1910Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante».
Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: “Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la” (…). Mas o vinhateiro respondeu-lhe: “Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano”». (Lucas 13, 1-9, Evangelho do 3.º Domingo da Quaresma)
Que culpa têm aqueles dezoito mortos pela torre de Siloé? E os três mil das Torres Gémeas? E os sírios, as vítimas e os doentes, serão talvez mais pecadores do que outros? A resposta de Jesus é clara: deixai de imaginar a existência como uma sala de tribunal. Não há relação alguma entre culpa e desgraça, entre pecado e doença. A mão de Deus não semeia morte, não desperdiça o seu poder em castigos.
Mas se não vos converterdes, perecereis todos. É toda uma sociedade que se deve salvar. Não serve fazer a conta dos bons e dos maus, é preciso reconhecer que é todo um mundo que não avança se a convivência não se edificar sobre outro fundamento, e não a desonestidade elevada a sistema, a violência do mais forte, a prepotência do mais rico.
Nunca como hoje compreendemos que tudo no mundo está em estreita ligação: se há milhões de pobres sem dignidade nem instrução, será todo o mundo a ser privado do seu contributo, da sua inteligência; se a natureza está em sofrimento, sofre e morre também o homem.
Sobre todos desce o apelo caloroso e total de Jesus: amai-vos, de outra forma destruir-vos-eis. O Evangelho está todo aqui. Sem isto não haverá futuro. A seriedade destas palavras tem como contraponto a confiança no futuro na parábola da figueira: há três anos que o proprietário espera em vão por frutos, e então fará cortar a árvore. Mas o agricultor sábio diz: «Mais um ano de trabalho e degustaremos o fruto». Deus é assim: mais um ano, mais um dia, mais sol e chuva porque esta árvore é boa; esta árvore, que sou eu, dará fruto.
Deus agricultor inclinou-se sobre mim, sobre este meu pequeno campo, em que tanto semeou para tão pouco colher. E todavia dá um outro ano aos meus três anos de inutilidade; e envia gérmenes vitais, sol, chuva, confiança. Para Ele o fruto possível de amanhã conta mais do que a minha inutilidade de hoje.
«Veremos, talvez no próximo ano dê fruto.» Talvez resida nisto o milagre da fé de Deus em nós. Ele acredita em mim antes ainda que eu diga sim. O tempo de Deus é a antecipação, o seu amor é preveniente, a sua misericórdia antecipa o arrependimento, a ovelha perdida é encontrada e recolhida quando ainda está longe e não está a voltar, o pai abraça o filho pródigo e perdoa-o ainda antes de abrir a boca.
Deus ama primeiro, ama em perda, ama sem condições. Amor que conforta e persegue: «Ama-te de tal forma que te obriga a tornares-te o melhor daquilo que te podes tornar» (R.M.Rilke). A sua confiança para mim é como uma vela que me impele em frente, rumo à profecia de um verão feliz de frutos: se demora, aguarda, porque o que tarda decerto virá (cf. Habacuc 2, 3).
Ermes Ronchi
Figueiras (det.) | Guy Rose | 1910