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Papa propõe política sem «fantasia tradicionalista» nem «tábua rasa»

Pensava no que lhe poderia dizer [presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez], ao reconhecer em si o trabalho dos políticos. O papa Paulo VI, retomando uma tradição de outro papa [Pio XI], dizia que a política era uma das formas mais altas da caridade. A política não só é uma arte, mas para os cristãos é um ato de caridade, enobrece e, muitas vezes, conduz ao sacrifício da própria vida, dos tempos de privacidade, tantas coisas, pelo bem dos demais, e isto acontece porque o político tem nas suas mãos uma missão muito difícil, muito difícil. Com três canais, digamos assim: para com o país, para com a nação e para com a pátria.

Tem a missão de fazer progredir o país, através da agricultura, pecuária, mineração, investigação, educação, arte. Que o país cresça, que cresça o país. E isso é desgastante. Tem a missão de consolidar a nação, não só cuidar das fronteiras, que já é muito importante, mas a nação como organismo de leis, de maneiras de proceder, de hábitos. Consolidar a nação, e tem a missão de fazer crescer a pátria. País, nação e pátria estão nas mãos de um político. Bastante trabalho. Sei que não é fácil, por isso transmita aos membros do seu parlamento o que pensa o papa sobre isto: o meu grande respeito pela vocação política, uma das formas mais altas da caridade.

Ainda que fazer progredir um país parece fácil, mas não o é, supõe relações internacionais constantes de comércio, de ciência, de técnica, de tudo. Consolidar a nação supõe, por vezes, dificuldades de entendimento com os localismos, há-os em todos os países, os dialetos. Mas também de entendimento do direito, da justiça, de fazer que a nação seja cada vez mais forte. Talvez a coisa mais difícil seja fazer progredir a pátria, porque aí entramos numa relação de filiação. A pátria é algo que recebemos dos nossos mais velhos. Pátria, paternidade, vem daí; e é algo que temos de dar aos nossos filhos. Estamos de passagem na pátria. E é de construir a pátria que falarei neste caso. Para com o país, fazê-lo progredir, com a nação, consolidá-la, e com a pátria temos de a construir. Construir a pátria com todos. Não é fácil. Construir a pátria onde não nos é permitida a tábua rasa. Numa empresa é permitido, na pátria não, porque é algo que recebemos. E tão-pouco nos é permitido irmos refugiar-nos naquilo que aconteceu há cinquenta, cem anos.



Com estas palavras quero, simplesmente, recordar aos políticos que a sua missão é uma forma muito alta da caridade e do amor



O desafio de receber das raízes para poder dar fruto. Há um poema de Bernárdez [soneto de Francisco Luis Bernárdez] muito bonito que diz: «Tudo o que a árvore tem de florido vem-lhe daquilo que tem de soterrado», mas não se ficou pelas raízes. Talvez a fantasia tradicionalista seja a de voltarmos às raízes. Daqui tomo a inspiração. Sou filho, mas também tenho de ser pai no futuro. E para isso, tenho de viver um presente que implica para mim discernimento. E isso não é fácil. Para mim é o mais difícil do político: fazer crescer a pátria. Porque se encontram sempre álibis para isso. Álibis disfarçados de modernidade ou de restauracionismo. Os movimentos são vários. Mas álibis para que a pátria seja o que eu quero, e não o que recebi e que tenho de fazer crescer livremente, a aí entram em jogo as ideologias: construir uma pátria na minha mente, com a minha ideia, não com a realidade do povo que eu recebi, que estou a levar por diante, que estou a viver.

Há dois anos, talvez a senhora embaixadora [de Espanha na Santa Sé, presente no encontro com o papa Francisco] o conheça, foi publicado, aqui em Roma, um livro de um intelectual italiano do Partido Comunista. Tem um título muito sugestivo: “Síndrome 1933”. Conhece-o? De capa vermelha. Muito belo. Vale a pena lê-lo.



É muito triste quando as ideologias se apoderam da interpretação de uma nação, de um país, e desfiguram a pátria



Refere-se à Alemanha, obviamente. Caída a República de Weimar, aí começou toda uma miscelânea de possibilidades de sair da crise. E aí começou uma ideologia a fazer ver que o caminho era o nacional socialismo, e continuou, e continuou, e chegou ao que conhecemos: ao drama que foi para a Europa com essa pátria inventada por uma ideologia. Porque as ideologias sectarizam, as ideologias desconstroem a pátria, não constroem. Aprender isto da história. E este homem, nesse livro, faz com muita delicadeza uma comparação com o que está a acontecer na Europa. Diz: cuidado, estamos a refazer um caminho parecido. Vale a pena lê-lo.

Com estas palavras quero, simplesmente, recordar aos políticos que a sua missão é uma forma muito alta da caridade e do amor. Não é questão de manobras ou de resolver casos que chegam todos os dias ao gabinete dos políticos, mas de serviço nas três vertentes: fazer crescer o país, consolidar a nação e construir a pátria. E é muito triste quando as ideologias se apoderam da interpretação de uma nação, de um país, e desfiguram a pátria. Vem à minha mente neste momento o poema de Jorge Dragone: «Morreu-se-nos a pátria». É o réquiem mais doloroso que li, e de uma beleza extraordinária. Oxalá nunca nos aconteça.

Senhor presidente [do governo], agradeço a sua visita. Agradeço a vós que vieram. Gratifica-me muito, e peço-vos, por favor, que rezem por mim. E os que não rezam, porque não são crentes, pelo menos enviai-me pensamento positivo, que me faz falta. Muito obrigado.


 

Papa Francisco
Discurso ao presidente do governo espanhol, Vaticano, 24.10.2020
Fonte: L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: © Vatican News
Publicado em 26.10.2020

 

 
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