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Papa Francisco recorda S. João Paulo II, lembra detalhes da eleição e fala sobre sacerdócio ordenado

Sairá na próxima terça-feira, 11 de fevereiro, em Itália, o livro “San Giovanni Paolo Magno “(“S. João Paulo Magno”), uma longa entrevista ao papa Francisco, pelo padre e professor de filosofia Luigi Maria Epicoco, centrado na relação entre ele e o pontífice polaco - que o criou cardeal -, nascido há cem anos (18 de maio de 1920).

No volume publicado pela editora San Paolo (12,00 €), Francisco assume as reflexões do papa Wojtyla quanto ao celibato e ao sacerdócio feminino: «Caminhando atrás dos passos de Paulo VI, de João Paulo II e de Bento XVI, sinto o dever de pensar que o celibato é uma graça decisiva que caracteriza a Igreja católica latina».

Em relação ao sacerdócio feminino, Francisco afirma que «a questão não está num estado de discussão», porque as reflexões de João Paulo II foram «definitivas».

Francisco critica a teoria do género, que «se propõe destruir implicitamente a raiz do projeto de criatura que Deus queria para os homens: diversidade e diferenças, e não algo homogéneo e neutral», mas esta posição não se refere às pessoas que «têm uma orientação homossexual», a quem a Igreja católica convida a «acompanhar».

Depois de qualificar a teoria de género como «perigosa raiz cultural», Francisco alerta para a «aparente uniformidade» que pode conduzir à «autodestruição»: «Anular as diferenças não nos aproximará, mas é justamente o contrário».

Publicamos um fragmento do primeiro capítulo do livro, “Sobre ti edificarei a minha Igreja”, que incide sobre a eleição pontifícia de Francisco e a sua relação com S. João Paulo II.

 

Papa Francisco
In “San Giovanni Paolo Magno”

Qual foi a impressão que teve ao saber da eleição de um papa não italiano após quase 500 anos?

Ouvi as suas primeiras palavras e tive uma sensação muito boa. E esta impressão reforçou-se logo depois, quando me disseram que tinha sido um capelão universitário, um professor de filosofia, um alpinista, um esquiador, um desportista, um homem que rezava muito. Agradou-me muito. Senti logo uma grande simpatia por ele.

 

Que tarefa desempenhava nessa época na Igreja?

Era provincial dos Jesuítas. E fui-o até janeiro de 1980.

 

Regressemos por um instante àquela noite de outubro de 1978. O papa João Paulo II pronunciava poucas palavras, mas extraordinariamente significativas. Rompe a prática do protocolo, que impunha só uma saudação e a bênção, mas nenhum discurso. Entre aquelas frases pronunciadas com um italiano imperfeito, João Paulo II ganha logo o afeto de todos: «E eis que os veneráveis cardeais chamaram um novo bispo de Roma … Chamaram-no de um país … longínquo [a multidão aplaude] … longínquo, mas sempre próximo pela comunhão na fé e pela tradição cristã». Sabemos de uma entrevista dada depois a André Fossard que, ao pronunciar a palavra «longínquo»,  João Paulo II pensava também em Pedro, chegado da Galileia. Também o senhor, santo padre, usou palavras semelhantes: «Sabeis que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que o meus irmãos cardeais foram busca-lo quase ao fim do mundo … mas estamos aqui … Agradeço-vos o acolhimento». Pensou nele ao pronunciar estas palavras?

Na realidade não. Antes de tudo porque não imaginava ser eleito, não pensei nisso. Muitos dizem que no conclave de 2005 eu tive vários votos. Mas a verdade é que o papa certo naquele momento era Ratzinger. Eu estava convencido disso e apoiei-o. No conclave de 2013 reputava-me de um bispo já na reforma que não corria nenhum risco. Por isso não pensei em nada disso. Assim, logo após a minha eleição, após ter revestido a [veste] talar branca, tinha de sair para a varanda, e perguntei-me: que direi às pessoas? Recordava-me daquilo que me tinha dito poucas horas antes o cardeal [Francisco] Errázuriz [então arcebispo de Santiago do Chile], mas a que não tinha dado importância. Tínhamos ido rezar à capela paulina com dois acompanhantes que eu chamei pessoalmente, contra o protocolo. Ao cardeal [Agostino] Vallini disse: «O senhor é o vigário [da diocese de Roma], venha comigo; e ao meu amigo, o cardeal [Cláudio] Hummes [então arcebispo de S. Paulo], que me disse: «Não te esqueças dos pobres, pedi: «Acompanha-me. E fui rezar com eles. Então veio-me a ideia de dizer que o conclave tinha escolhido um novo bispo de Roma, fazer uma memória de Bento, e depois: «Vamos juntos». A expressão «do fim do mundo» veio-me espontaneamente naquele momento.

 

O que lhe disse o cardeal Errázuriz, a que não tinha dado importância?

Naquela manhã ocorreram alguns episódios que não me tinham particularmente preocupado, mas que só mais tarde me deram que pensar. Antes de tudo, o cardeal Orteja y Alamino tinha-me pedido o texto que pronunciei durante uma das reuniões oficiais dos cardeais naqueles dias. Na realidade não tinha escrito nada, procurei recordar de memória as palavras e escrevi-as à mão. Levei-lhas, quando voltámos antes do almoço, e disse-lhe: «Toma, escrevi à mão». Ele disse: «Oh, que belo, assim fico com uma recordação do papa». Respondi-lhe: «Não brinques».

 

[Mais tarde, o cardeal Ortega descreveu numa entrevista a mesma narrativa do papa, tendo entregado uma cópia do papel autógrafo do futuro papa. Esta nota é significativa porque antecipa os temas caros a Francisco nos anos seguintes: 1) «Evangelizar implica zelo apostólico. Evangelizar pressupõe na Igreja a “parresia” (o termo grego em sentido literal quer dizer “liberdade de dizer tudo”, ndr) de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e a ir para as periferias, não só as geográficas, mas também as existenciais; as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e da fé, as do pensamento, as de toda a forma de miséria.» 2) «Quando a Igreja não sai de si própria para evangelizar, torna-se autorreferencial (pense-se na mulher curvada do Evangelho segundo Lucas (cura de Jesus feita ao sábado, ndr)). Os males que, no decurso do tempo, afligem as instituições eclesiásticas têm uma raiz na autorreferencialidade, numa espécie de narcisismo teológico. No [livro do] Apocalipse, Jesus diz que Ele está no umbral e chama. O texto, evidentemente, refere-se ao facto de Ele estar fora da porta e bater para entrar… Mas por vezes penso que Jesus bate por dentro, para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial pretende ter Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.» 3) «A Igreja, quando não é autorreferencial, sem dar-se conta, acredita que tem luz própria; deixa de ser o “mysterium lunae” (da luz refletida, ndr), e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual (é o pior mal em que pode incorrer a Igreja segundo De Lubac, um teólogo do século XX, feito cardeal por João Paulo II, ndr); é o viver para dar glória uns aos outros. Simplificando, há duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si mesma; a da “Dei Verbum religiose audiens et fidanter proclamans” (“a Igreja que religiosamente escuta e fielmente proclama a Palavra de Deus”, ndr), ou a Igreja mundana que vive em si, de si, para si. Isto deve iluminar as possíveis mudanças e reformas a realizar para a salvação das almas.» 4) «Pensando no próximo papa: um homem que, com a contemplação de Jesus Cristo e a adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma rumo às periferias existenciais, que a ajude a ser mãe fecunda que vive “da doce e confortante alegria de evangelizar”.»]

 

Depois de ter entregado esta nota, apanho o elevador para subir ao segundo piso, e no quarto entra o cardeal [Gianfranco] Ravasi [presidente do Conselho Pontifício da Cultura] e diz-me: «Apressa-te a preparar o discurso!». «Qual?» «Aquele que tens de dizer na varanda.» «Vá lá, não brinques!». Depois, ao almoço, enquanto procurava um lugar para sentar-me, chamaram-me: «Venha, eminência, venha connosco»: eram cardeais europeus que eu não conhecia. Durante o almoço fizeram-me muitas perguntas sobre a América Latina e sobre a Igreja. Depois fomos descansar, e posso assegurar que repousei muito bem. À tarde voltámos a votar, eu tinha esquecido um pouco estes episódios, e entretive-me a falar com o cardeal Ravasi sobre o livro de Job. Durante a primeira votação percebi que o perigo era verdadeiramente sério. Na segunda votação fui eleito.


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Famiglia Cristiana, Vida Nueva
Imagem: S. João Paulo II, cardeal Jorge Mario Bergoglio | D.R.
Publicado em 07.02.2020

 

 

 
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