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Papa Francisco e a corrupção na Igreja: «Tive de mudar muitas coisas, e muitas depressa vão mudar»

Na Igreja, «infelizmente, a corrupção é uma história cíclica, repete-se, depois chega alguém que limpa e põe em ordem, mas depois recomeça-se, na expetativa que chegue outro para pôr fim a esta degeneração»: esta é uma das declarações que o papa proferiu na entrevista à agência AdnKronos, realizada esta terça-feira, onde também falou do seu relacionamento com Bento XVI, das consequências pessoais das decisões que toma, da maneira como reage às críticas e das implicações da pandemia.

«A Igreja é e permanece forte, mas o tema da corrupção é um problema profundo, que se perde nos séculos. No início dos meu pontificado fui ao encontro de Bento [XVI]. Ao passar-me a “pasta”, deu-me uma caixa grande: “Está tudo aqui dentro, estão os procedimentos com as situações mais difíceis, eu cheguei até aqui, intervim nesta situação, afastei estas pessoas, e agora… cabe a ti”. Por isso eu não fiz mais do que recolher o testemunho do papa Bento, continuei a sua obra», afirmou.

Sobre o relacionamento com o papa emérito, Francisco é claro: «Bento, para mim, é um pai e um irmão, escrevo-lhe, por carta, “filialmente e fraternalmente”. Vou ao seu encontro muitas vezes», e «se recentemente o vejo menos é só porque não quero cansá-lo. A relação é verdadeiramente boa, muito boa, concordamos sobre o que deve ser feito. Bento é um homem bom, é a santidade feita pessoa. Não há problemas entre nós, depois cada um pode dizer e pensar o que quiser. Veja que chegaram até a dizer que tínhamos discutido, eu e Bento, sobre que túmulo cabia a mim e qual para ele».

Voltando ao tema da corrupção na Igreja, Francisco refere-se a Santo Ambrósio: «A Igreja foi sempre uma “casta meretrix”, uma pecadora. Digamos melhor: uma parte dela, porque a grande maioria vai em sentido contrário, persegue o caminho certo. Mas é inegável que personagens de vário género e espessura, eclesiásticos e tantos fingidos amigos leigos da Igreja, contribuíram para dissipar o património móvel e imóvel não do Vaticano, mas dos fiéis».



«Não diria a verdade, e insultaria a sua inteligência, se dissesse que as críticas te deixam bem. Não agradam a ninguém, especialmente quando são bofetadas na cara, quando fazem mal se são ditas de má-fé e com malvadez»



Para «extirpar a erva daninha» da corrupção «não há estratégias particulares, o esquema é banal, simples, andar para a frente e não se deter, é preciso dar passos pequenos, mas concretos. Para chegar aos resultados de hoje partimos de uma reunião realizada há cinco anos sobre como atualizar o sistema judicial, depois com os primeiros inquéritos tive de remover posições e resistências, escavaram-se as finanças, tivemos novos diretores no IOR [Instituto para as Obras de Religião, comummente conhecido como “Banco do Vaticano”], em resumo, tive de mudar muitas coisas, e muitas depressa vão mudar.

Francisco afirma que não tem medo das implicações pessoais das suas decisões: «Não temo consequências contra mim, não temo nada, ajo em nome e por conta de nosso Senhor. Sou um inconsciente? Falta-me um pouco de prudência? Não sei o que dizer, é o instinto e o Espírito Santo que me guiam, guia-me o amor do meu maravilhoso povo que segue Jesus Cristo. E depois rezo, rezo muito».

A entrevista centra-se, depois, no “toto-papa”, o pontífice que se seguirá: «Eu também penso naquele que será depois de mim, sou o primeiro a falar disso. Recentemente submeti-me a exames médicos de rotina, os médicos disseram-me que um deles podia fazer-se a cada cinco anos ou anualmente, eles tendiam para o quinquénio, eu disse façamo-lo ano a ano, nunca se sabe».

Em relação às críticas que lhe chegam do interior da Igreja, o papa responde: «Não diria a verdade, e insultaria a sua inteligência, se dissesse que elas te deixam bem. Não agradam a ninguém, especialmente quando são bofetadas na cara, quando fazem mal se são ditas de má-fé e com malvadez. Com a mesma convicção, no entanto, digo que as críticas podem ser construtivas, e então eu assumo-as totalmente, porque a crítica conduz a examinar-me, a fazer um exame de consciência».

«O papa escuta todas as críticas, e depois exerce o discernimento.» «E aqui seria importante uma comunicação honesta, para descrever a verdade sobre o que está a acontecer no interior da Igreja», acrescenta.

Referindo-se às repercussões que a perspetiva de novos confinamentos devidos ao coronavírus, nomeadamente as possíveis restrições às celebrações litúrgicas, Francisco observa: «Não quero entrar nas decisões políticas do governo italiano, mas conto-lhe uma história que me desagradou: soube de um bispo que afirmou que, com esta pandemia, as pessoas “desabituaram-se” – disse precisamente assim – de ir à igreja, que as pessoas não voltarão a ajoelhar-se diante de um crucifixo ou a receber o Corpo de Cristo. Eu digo que se esta “gente”, como lhe chama o bispo, ia à igreja por hábito, então é melhor que fique em casa. É o Espírito Santo que chama a gente. Talvez após esta dura provação, com estas novas dificuldades, com o sofrimento que entra nas casas, os fiéis sejam mais verdadeiros, mais autênticos. Acredite-me, vai ser assim».


 

Gianni Cardinale
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 31.10.2020

 

 
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