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Papa diz que cinema neorrealista provoca a consciência e sabe ver a primavera no inverno

A cultura cinematográfica do papa Francisco, em particular a sua predileção pelo cinema neorrealista, que ao gerar «compaixão» converge com a misericórdia, uma das chaves deste pontificado, abre o novo livro “Lo sguardo: porta del cuore. Il neorrealismo tra memoria e attualità”, lançado estes dias em Itália, no qual o autor, Mons. Dario Viganò, entrevista o papa.

«É esta a lição que podemos aprender da escola de humanismo do neorrealismo: um olhar que provoca a consciência, que coloca em relação, que faz germinar. Uma pedagogia para os olhos que muda o nosso olhar míope, aproximando-o do próprio olhar de Deus», sublinha Francisco.

È esta conversa sobre a sétima arte e os seus cruzamentos com Deus, assim como em torno à vida e a algumas das suas questões essenciais – por exemplo, o que nos diz o olhar das crianças e dos últimos, a par da importância de salvaguardar a memória e a documentação audiovisual, inclusive na Igreja –, que reproduzimos, antes do convite para assistir integralmente a um dos filmes que mais tocou o papa.

 

No seu magistério, não raro faz referência ao cinema: por vezes ouvimo-lo citar este ou aquele filme. De onde nasce esta sua particular relação com o cinema?

Devo a minha cultura cinematográfica sobretudo aos meus pais. Quando era criança, frequentava muitas vezes o cinema do bairro, onde se projetavam até três filmes de seguida. Faz parte das memórias belas da minha infância: os meus pais ensinaram-me a fruir da arte, nas suas várias formas. Ao sábado, por exemplo, com a minha mãe, juntamente com os meus irmãos, escutávamos as óperas líricas que eram transmitidas na rádio do Estado. Fazia-nos sentar junto ao aparelho, e antes que começasse a transmissão contava-nos a trama da ópera. Quando estava para começar alguma ária importante, avisava-nos: «Fiquem atentos, esta é uma canção muito bela». Era uma coisa maravilhosa. E depois havia os filmes no cinema, para os quais os meus familiares aplicavam o mesmo método: como faziam com as óperas, explicavam-nos, para nos orientar.



Hoje é muito importante uma catequese do olhar, uma pedagogia para os nossos olhos tantas vezes incapazes de contemplar no meio da obscuridade a grande luz que Jesus veio trazer



E foi nesse contexto que nasceu também a sua relação com o neorrealismo italiano.

Sim, entre os filmes que os meus familiares queriam absolutamente que conhecêssemos estavam precisamente os do neorrealismo. Entre os dez e doze anos creio que vi todos os filmes com Anna Magnani e Aldo Fabrizi, entre os quais “Roma cidade aberta”, de Roberto Rossellini, que gostei muito. Para nós, crianças na Argentina, esses filmes foram muito importantes, porque nos fizeram compreender em profundidade a grande tragédia da guerra mundial. Em Buenos Aires só conhecemos a guerra sobretudo através dos muitos migrantes que chegavam: italianos, polacos, alemães… As suas histórias abriram-nos os olhos para um drama que não conhecíamos diretamente, mas é também graças ao cinema que adquirimos um conhecimento profundo dos seus efeitos.

 

Definiu, muitas vezes, o cinema neorrealista também como uma «catequese de humanidade» ou uma «escola de humanismo». São expressões muito belas com as quais se atribui um valor universal a esta cinematografia. Onde está a atualidade destes filmes?

Os filmes do neorrealismo formaram-nos o coração e continuam a poder fazê-lo. Direi mais: esses filmes ensinaram-nos a olhar a realidade com olhos novos. Apreciei muitíssimo que este livro colha este aspeto fundamental: o valor universal daquele cinema e a sua atualidade como instrumento importante para nos ajudar a renovar o nosso olhar sobre o mundo. Quanta necessidade temos hoje de aprender a olhar. A difícil situação que estamos a viver, marcada profundamente pela pandemia, gera preocupação, medo, desconforto: por isso são precisos olhos capazes de fender a escuridão da noite, de erguer o olhar para além do muro para perscrutar o horizonte. Hoje é muito importante uma catequese do olhar, uma pedagogia para os nossos olhos tantas vezes incapazes de contemplar no meio da obscuridade a grande luz que Jesus veio trazer. Uma mística do nosso tempo, Simone Weil, escrevia: «A compaixão e a gratidão derivam de Deus, e quando são dadas através de um olhar, Deus está presente no ponto em que os olhares se encontram». É por isso que a reflexão sobre o olhar abre para a transcendência. Como seria belo redescobrir através do cinema a importância da educação para o olhar puro. Precisamente como fez o neorrealismo.



O cinema neorrealista universalizou este olhar das crianças: o seu olhar, que é muito mais que um simples ponto de vista, interroga-nos tanto mais hoje que a pandemia parece multiplicar as bancarrotas da humanidade



Mas de que maneira este cinema pode ensinar-nos a olhar?

O neorrealista é um olhar que provoca a consciência. “I bambini ci guardano” (As crianças olham-nos) é um filme de 1943 de Vittorio De Sica que gosto de citar muitas vezes porque é muito belo e rico de significados. Em muitos filmes o olhar neorrealista foi o olhar das crianças sobre o mundo: um olhar puro, capaz de captar tudo, um olhar límpido através do qual podemos apontar desde logo e com nitidez o bem e o mal. Recordo as palavras do meu irmão Hieronymos, arcebispo ortodoxo de Atenas e de toda a Grécia, a propósito de uma das realidades mais duras do nosso tempo: «Quem vê os olhos das crianças que encontramos nos campos de refugiados é capaz de reconhecer imediatamente, na sua inteireza, a “bancarrota da humanidade”». Em muitas ocasiões e em muitos países diferentes, os meus olhos encontraram os das crianças, pobres e ricas, saudáveis e doentes, alegres e sofredoras. Ser olhado pelos olhos das crianças é uma experiência que todos conhecemos, que nos toca até ao fundo do coração e que nos obriga também a um exame de consciência. O cinema neorrealista universalizou este olhar das crianças: o seu olhar, que é muito mais que um simples ponto de vista, interroga-nos tanto mais hoje que a pandemia parece multiplicar as bancarrotas da humanidade. O que fazemos para que as crianças possam olhar-nos a sorrir e conservem um olhar límpido, rico de confiança e de esperança? O que fazemos para que não lhes seja roubada esta luz, para que esses olhos não turbados e corrompidos?

 

A propósito, vem à mente um outro grande mestre do cinema italiano como Federico Fellini, que também gosta de citar, pela sua capacidade de restituir o olhar sobre os últimos.

Sim, “La strada”, de Fellini, é o filme que talvez tenha gostado mais. Identifico-me muito nesse filme, em que encontramos uma referência implícita a S. Francisco. Fellini soube dar uma luz inédita ao olhar sobre os últimos. Nesse filme a narrativa sobre os últimos é exemplar e é um convite a preservar o seu precioso olhar sobre a realidade. Penso nas palavras que [o funâmbulo] “Matto” dirige a Gelsomina: «Tu, pedrinha, tens um sentido nesta vida». É um discurso profundamente impregnado de referências evangélicas. Mas penso em todo o percurso de Gelsomina: com a sua humildade, com o seu olhar plenamente límpido, consegue suavizar o coração duro de um homem que tinha esquecido como se chora. Este olhar puro dos últimos é capaz de semear vida nos terrenos mais áridos. É um olhar de esperança, que sabe intuir a luz na escuridão: por isso deve ser protegido.



O cinema neorrealista teve este poder, próprio da grande arte, de saber colher no inverno aquilo que já era primavera. É olhar que nas trevas guarda o gosto e o sentido da luz



O cinema neorrealista narrou, no entanto, uma realidade bem precisa: a de uma Itália a reconstruir logo após sair do drama epocal da guerra mundial. Como podem esses filmes falar também ao nosso presente?

Olhar não é ver, observa-se eficazmente neste volume. Ver é um ato que se realiza apenas com os olhos, para olhar são precisos os olhos e o coração. Os filmes neorrealistas não são documentários que restituem um simples registo ocular da realidade; restituem-na, sim, mas em toda a sua crueza, através d eum olhar que envolve, que move as entranhas, que gera compaixão. É a qualidade do olhar que faz a diferença, então como hoje. O neorrealista não é um olhar distante, mas um olhar que aproxima, que toca a realidade tal como é, que a salvaguarda e, portanto, que coloca em relação. Já observei como hoje «os meios de comunicação digital podem expor ao risco de dependência, de isolamento e de progressiva perda de contacto com a realidade concreta, obstaculizando o desenvolvimento de relações humanas autênticas» (“Christus vivit”, 88), e como há «necessidade de gestos físicos, de expressões do rosto, de silêncios, de linguagem corpórea, a até de perfume, através das mãos, rubor, suor, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana» (“Fratelli tutti”, 43). A capacidade de adquirir um olhar que sabe colocar em relação é, portanto, a chave para uma comunicação autêntica, e é-o tanto mais neste tempo difícil da pandemia, em que o contacto virtual predomina muitas vezes sobre o contacto real.

 

Qual é a qualidade mais importante do olhar neorrealista?

Direi que é a de ter sabido olhar não só dentro da História, mas também dento do coração dos seres humanos. Nisto está a sua catequese de humanidade: válida então e válida hoje. Um olhar que toca a realidade, mas também o coração, é um olhar que transforma a realidade. Não é um olhar que te deixa onde estás, mas é um olhar que te levanta, que te ergue, que te convida a levantares-te. O cinema neorrealista teve este poder, próprio da grande arte, de saber colher no inverno aquilo que já era primavera. É olhar que nas trevas guarda o gosto e o sentido da luz. É um olhar de desvelamento: onde nós só vemos um limite, o olhar do poeta e do artista constrói passagens, abre brechas nas barreiras, vislumbra os sinais de uma realidade mais bela e maior. Temos muita necessidade deste olhar. O olhar do neorrealismo abraçou por inteiro e até ao fundo a realidade dramática do seu tempo, mas dessa forma passou as consciências a pente fino, preparou um campo de novo limpo para poder de novo plantar. É esta a lição que podemos aprender da escola de humanismo do neorrealismo: um olhar que provoca a consciência, que coloca em relação, que faz germinar. Uma pedagogia para os olhos que muda o nosso olhar míope, aproximando-o do próprio olhar de Deus.



A arte cinematográfica conseguiu iluminar a trama dos factos para lhes desvelar o seu sentido profundo. Também por isso é importante regressar a esses filmes não com nostalgia, mas com compromisso para o futuro. Devemos ser corajosos guardiães da “memória por imagens”, para a transmitir aos nossos filhos, aos nossos netos



Além de fornecer uma pedagogia do olhar, o cinema, em geral, tem também um grande valor social.

O cinema foi e é um grande instrumento de agregação. Sobretudo no pós-guerra italiano, contribuiu de maneira excecional para reconstruir o tecido social com muitos momentos de agregação. Quantas praças, quantas salas, quantos oratórios, animados por pessoas que, na visão do filme, transferiam esperanças e expetativas. E dali voltavam a partir, com um suspiro de alívio, para as ansiedades e dificuldades quotidianas. Um momento também educativo e formativo, para voltar a ligar relações consumidas pelas tragédias vividas. Também hoje, ao olhar para as dificuldades, o cinema pode manter esta capacidade de agregar ou, melhor, de construir comunidade. Sem comunhão, à agregação falta a alma. É claro que muito depende da qualidade do olhar que o cinema propõe, mas também da qualidade do olhar dos próprios espetadores. A visão de uma obra cinematográfica pode abrir várias espirais na alma humana. Tudo depende da carga emotiva que é dada à visão. Pode haver a evasão, a emoção, o riso, a raiva, o medo, o interesse… Está tudo ligado à intencionalidade colocada na visão, que não é simples exercício ocular, mas algo mais. É o olhar colocado sobre a realidade. O olhar, com efeito, revela a orientação mais diversificada da interioridade, porque é capaz de ver as coisas e ver dentro das coisas. O olhar provoca também a consciência a um exame atento.

 

O neorrealismo pode ser visto também com um grande processo de construção de uma memória coletiva, que, de outra forma, ficaria sepultada pelos escombros da guerra. Que valor tem para si o cinema na dinâmica entre história e memória? E quanto é importante salvaguardar esta “memória por imagens”?

Esse é um discurso decisivo para o futuro. Na minha experiência de pastor alcancei várias vezes a “memória por imagens”: na “Amoris laetitia” faço referência ao filme “A festa de Babette” [n. 129], de Gabriel Axel (1987), para explicar a importância da «alegria que deriva de provocar a felicidade dos outros»; na “Fratelli tutti há três referências [nn. 48, 203, 281] ao filme “Papa Francisco – Um homem de palavra”, de Wim Wenders (2018). O cinema ensina a criar e salvaguardar a memória, através de um olhar que sabe traduzir e decifrar a mensagem. Penso também na densidade de memória que as imagens da “Statio orbis” de 27 de março de 2020 sedimentou no coração de muitíssimas pessoas. Neste sentido, também para a Igreja, a dinâmica História-memória encontra no cinema uma referência importante. Olhemos o neorrealismo: a arte cinematográfica conseguiu iluminar a trama dos factos para lhes desvelar o seu sentido profundo. Também por isso é importante regressar a esses filmes não com nostalgia, mas com compromisso para o futuro. Devemos ser corajosos guardiães da “memória por imagens”, para a transmitir aos nossos filhos, aos nossos netos. Aqui, creio que o discurso pode alargar-se para além daquilo que propriamente chamamos cinema, para nele incluir as fontes audiovisuais na sua totalidade enquanto preciosas testemunhas do passado: vivemos no tempo das imagens, e este tipo de documentos tornou-se agora para a nossa História – e e sê-lo-á cada vez mais – um complemento permanente à documentação escrita. Além disso, trata-se de documentos de carácter intrinsecamente universal porque transcendem as fronteiras linguísticas e culturais, e podem ser compreendidos imediatamente por todos. O neorrealismo, na Argentina, era compreendido por aquilo que transmitia. Não se subvalorize a importância destes documentos, que, apesar de ser um património recente, é paradoxalmente muito frágil e necessita de cuidados constantes: muito já se perdeu por causa da incúria e da ausência de recursos e competências. Nesta frente devíamos fazer mais, inclusive como Igreja.

 

Fazer mais por parte da Igreja significa antes de tudo não desperdiçar o património das fontes audiovisuais, ou talvez imaginar alguma coisa que se coloque ao lado das grandes instituições do Vaticano do Arquivo e da Biblioteca Apostólica?

Penso numa instituição que funcione como arquivo central para a conservação permanente e ordenada segundo os critérios científicos, dos fundos históricos audiovisuais dos organismos da Santa Sé e da Igreja universal. Poderemos chamá-la uma mediateca, ao lado do Arquivo e da Biblioteca, para a recolha e salvaguarda do património de fontes históricas de alto nível religioso, artístico e humano.









 

In Vatican News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "La strada", de Federico Fellini | "Matto" com Gelsomina | D.R.
Publicado em 19.07.2021

 

 
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