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Papa ataca cultura do «pensamento único»: É uma «vergonha» endeusar o eu e desprezar os pobres

A exaltação do “eu” pessoal ou do grupo transforma-se muitas vezes «em desprezo e descarte dos outros, dos pobres, na recusa em deixar-se interpelar pela evidente ruína da criação. Isto é uma vergonha», declarou hoje o papa, numa intervenção em que criticou o «contexto cultural marcado pelo pensamento único, que envolve e adormece todos com o seu abraço mortífero, e queima toda a forma de criatividade e de pensamento divergente».

As palavras de Francisco, proferidas durante a deslocação, de surpresa, à Universidade Pontifícia Lateranense, em Roma, onde comentou a primeira leitura bíblica proclamada nas missas desta terça-feira (Daniel 3,25.34-43), vincaram que «a adesão ao Evangelho e o acolhimento do rico património da tradição eclesial, a todos os níveis, não conduzem a bloquear o pensamento, nem pedem para que se repitam exaustivamente as fórmulas de sempre»; antes, propõem «um ponto de vista livre, autêntico, fiel ao real» e «saudável».

A «diferença cristã portadora de novidade» contrapõe-se ao impulso que é recebido «continuamente a viver num individualismo cómodo e avaro», apenas «preocupado com o próprio bem-estar, com o tempo livre e a realização de si».

«Detenho-me aqui para tocar um ponto que me faz sofrer: o nosso inverno demográfico. “Mas porque é que não tendes um filho, pelo menos, ou dois?”; “Gostaria de fazer uma viagem, vou esperar mais um pouco…”. E assim os casais seguem por diante sem fecundidade. Por egoísmo, para ter mais, também para fazer viagens culturais, mas os filhos não vêm. Essa árvore não dá fruto. O inverno demográfico que hoje todos nós sofremos é precisamente o efeito deste pensamento único, egoísta, dirigido unicamente para si mesmo, que só procura a “minha” realização», afirmou.



«O teólogo que se compraz do seu pensamento completo e concluído, o que é? Um teólogo medíocre. O bom teólogo, o bom filósofo, tem um pensamento aberto, ou seja, incompleto. Enamorai-vos do pensamento incompleto, porque esse é o nosso caminho»



O pensamento único «parece muito cultural, mas é “selvagem”»: «Impede-te de fazer história, de deixar após ti uma história. Quanto é perigoso tudo isto, quanto tudo isto nos separa dos outros e, por isso, da realidade, quanto nos faz adoecer e delirar. Tantas nevroses».

O primado dado pelo pensamento cristão e pela ação da Igreja «à relação, ao encontro com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com toda a humanidade enquanto vocação de todos», nasce da «contemplação» de Deus: «O Evangelho dá-nos os antídotos mais radicais e profundos para nos defendermos e curar da doença do individualismo».

«Gostaria muito que ao projetar o futuro conservásseis a memória de ser povo, de ter uma história com luzes e sombras, de serdes protagonistas hoje daquele diálogo de amor entre Deus e os homens que atravessou os séculos», porque «o sentir-vos partes de um povo de pecadores dar-vos-á os anticorpos para não cometer os mesmos erros, para com Deus, os outros, toda a criação», apontou.

A reflexão do papa prosseguiu com alertas dirigidos especificamente aos professores e alunos, inspirada pela sua experiência de docente e diretor de instituições de ensino, no sentido de unir a teoria à prática: «Pode-se estudar fechando-se em círculos académicos sem respiração, jogar com os conceitos em vez de interpretar a vida, prender-se às fórmulas mas afastar-se da existência real das pessoas».



«Não percais a vossa juventude, não percais o sentido de humor, não o percais! Ver um jovem amargurado é terrível. O sentido do humor é, no plano humano, a atitude mais próxima da graça de Deus. Não percais o sentido de humor»



«Por isso desejei que nos estudos eclesiásticos se realize uma mudança radical de paradigma, uma corajosa revolução cultural, que, brotando do contributo da reflexão e da prática do povo de Deus “no terreno” de todos os cantos do mundo, produza uma verdadeira hermenêutica [interpretação] evangélica, para compreender melhor a vida, o mundo, os homens», vincou.

Francisco considera que ainda não se superou «a lógica do Iluminismo»; para a ultrapassar, é preciso imprimir na educação a dimensão da «memória, da pertença a um povo, de ter uma história, a hermenêutica de caminhar para uma esperança», juntando em harmonia três linguagens: mente, coração, mãos, de maneira a que «se pense aquilo que se sente e se faz; se sinta aquilo que se pensa e se faz; se faça aquilo que se sente e se pense».

«Não é tão necessária uma nova síntese, mas uma «atmosfera espiritual de procura e certeza baseada nas verdades da razão e da fé», que será fecunda «apenas se se fizer com a mente aberta e de joelhos». Com efeito, «o teólogo que se compraz do seu pensamento completo e concluído, o que é? Um teólogo medíocre. O bom teólogo, o bom filósofo, tem um pensamento aberto, ou seja, incompleto. Enamorai-vos do pensamento incompleto, porque esse é o nosso caminho».

Jovens e anciãos devem assumir que são elos de uma história que os precede e aponta para o futuro: «Continuai a trabalhar, porque a vida não começa convosco, mas precisa de vós para continuar. Radicados na memória dos antepassados, radicados na pertença a um povo. O presente é vosso e não é vosso: é um dom que vem da história, oferecido a ti, mas para o levares por diante. A tua decisão fará com que esse dom continue a avançar e dê frutos».

«Não percais a vossa juventude, não percais o sentido de humor, não o percais! Ver um jovem amargurado é terrível. O sentido do humor é, no plano humano, a atitude mais próxima da graça de Deus. Não percais o sentido de humor», assinalou o papa, que pediu à comunidade universitária para rezar por ele, porque, «como se diz na Argentina, por vezes “toca-me dançar com a mais feia”, e o Senhor quis que também elas tenham o direito de dançar».


 

Rui Jorge Martins
Fonte (texto e imagem): Sala de Imprensa da Santa Sé
Publicado em 26.03.2019

 

 
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