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P. Manuel João: As saudades da Comunhão, do vinho e do bacalhau, e as baleias que não lhe tiram a esperança

Caros amigos,

alguns de vós pedem-me notícias. Eu estou bem. De facto, viajo todos os dias, ou melhor, todas as noites (com bilhete de ida e volta!), caminho, falo, como… sempre de noite, nos meus sonhos! Primeiro, sonhava muito a missão. Sonhei muito Roma, onde vivi dezoito anos e deixei muitos amigos. Mais recentemente, sonho muitíssimas vezes os meus lugares-natal. Não sei o que significa. Talvez o regresso às origens. Com efeito, nos meus sonhos, é como se estivesse a viver a minha vida às avessas, andando para trás.

É uma ocasião para louvar o Senhor pelo dom da vida e da vocação missionária, pelas pessoas que encontrei e pelos amigos que me acolheram no seu coração. Louvar o Senhor pela minha terra e a sua gente, pela sua beleza, pelas suas colinas e as suas vinhas, exigentes mas generosas, pelas cerejeiras, as oliveiras e as árvores de fruto…

Agora que a doença me tirou o prazer de saborear a comida e a bebida, dado que sou alimentado por uma sonda, privando-me nestes últimos tempos de tomar o Corpo e o Sangue de Cristo, pedi ao Senhor que quando chegar às portas do Paraíso, onde espero entrar unicamente pela Misericórdia de Deus, me faça acolher com um grande tabuleiro de cerejas e de cachos de uvas, e um bom prato de bacalhau regado com o azeite da minha terra. E que os amigos do Paraíso venham ao meu encontro com uma boa provisão de vinhos preciosos para brindar à vida e a todos os amigos.



Há mortes injustas! Como as provocadas pelo vírus, que nos arrancam à vida com violência e traição. É injusta a morte de um jovem morto por uma rasteira que põe fim prematuramente à sua carreira. Mas é injusta também a morte de um ancião que um empurrão faz vacilar e cair, impedindo-o de apreciar serenamente os últimos dias da sua vida



Mas não vos escrevo para falar de sonhos. Venho pedir-vos para rezardes pela minha comunidade. A maioria dos meus colegas e do pessoal que nos assiste contraiu a Covid-19. Eu estou relativamente bem, apesar das habituais dificuldades respiratórias e os distúrbios da imobilidade. Estou confiante de que a baleia da minha doença [esclerose lateral amiotrófica] não se deixará intimidar por um “animalzinho” tão vil e desprezível como o vírus. Esta minha amiga não muito simpática jurou há dez anos não deixar-me, e que seria ela a levar-me consigo!

Falo-vos em tom de brincadeira, mas o meu coração está cheio de tristeza. Nestes dias o Covid levou oito dos meus colegas, um ou até dois ou três por dia. Outros encontram-se em sitações críticas. Há mortes serenas, como as do P. Aleardo, falecido há dias com 99 anos, ou do P. Efrem, falecido há alguns meses também com 99 anos, repletos de dias e de bênçãos de Deus. E há mortes injustas! Como as provocadas pelo vírus, que nos arrancam à vida com violência e traição. É injusta a morte de um jovem morto por uma rasteira que põe fim prematuramente à sua carreira. Mas é injusta também a morte de um ancião que um empurrão faz vacilar e cair, impedindo-o de apreciar serenamente os últimos dias da sua vida em companhia dos seus queridos.

A quem pedirei contas destas mortes injustas? A Deus? Não me parece, pois Deus é o amante da vida. Antes, então, ao pai de toda a mentira e inveja que introduz a morte no mundo, juntamente com quantos lhe pertencem (Sabedoria 2,23-24). Então só nos resta raiva e amargura? Não. Resta-nos ainda a esperança. E esta leva-me a acreditar que a monstruosa e insaciável baleia do vírus, repleta de mortos injustamente arrancados à vida, não escapará à mão de Deus, e, como fez com o profeta Jonas, depor-nos-á na margem onde Deus nos aguarda.

Tenho-vos no santuário do meu coração. Que Deus vos abençoe e vos proteja!

Manuel João Pereira Correia

Castel D’Azzano [Itália], 17 de novembro de 2020


 

P. Manuel João Pereira Correia
In Comboniani
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: P. Manuel João Pereira Correia | D.R.
Publicado em 20.11.2020

 

 
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