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P. Jacques Hamel: Memória e justiça, remissão e martírio, denúncia e fermento

O quinto aniversário do assassinato do P. Jacques Hamel apresenta duas particularidades cronológicas. Por um lado, ocorre algumas semanas depois da morte de Janine Coponet, testemunha, dupla testemunha, ousaria dizer. Testemunha da morte do P. Jacques Hamel, testemunha dos ferimentos do seu marido, querido Guy, quando participava na missa. Por outro lado, este quinto aniversário antecede em alguns meses o processo de quatro pessoas acusadas de ser cúmplices deste ato que nós denominamos, na fé cristã, martírio, e que todos reconhecem como bárbaro.

Assumindo o risco de surpreender, até de ser incompreendido, permiti-me que me detenha no segundo acontecimento antes do primeiro. Após as primeiras horas desse 26 de julho de 2015, rezo pelos dois assassinos que morreram precisamente ao lado do lugar onde nos encontramos. Faço-o com a comunidade cristã, não sem dificuldade no meu coração que, por vezes, tem ainda sentimentos de vingança, de cólera. Fazemo-lo porque o nosso horizonte é o de Jesus, da misericórdia e do perdão: acreditamos que Jesus, Deus feito homem, veio salvar toda a humanidade, veio perdoá-la.

Cada vez mais acreditamos que esta humanidade é uma. Que sentido daríamos a um Deus que só salvasse algumas das suas criaturas sem as outras? O seu amor seria impotente para salvar aqueles de quem Ele quer a existência, uma existência a que dá a liberdade mas a que não dá a morte, e não pode decidir-se por essa morte. A pandemia é um outro sinal que a saúde – outra designação de salvação – não é divisível de acordo o que a humanidade faça da sua unidade, com as suas fronteiras ou o seu quinhão de injustiças que dividem.



A nossa sociedade fez desta esperança a base da sua justiça. Não é o que subjaz à abolição da pena de morte ou de uma pena perpétua? Não é o que subjaz à finalidade mais importante de uma pena: o regresso a uma vida digna para o delinquente, que se tornou indigno?



A minha oração aproxima-se, portanto, dos quatro acusados que comparecerão no tribunal humano daqui a seis meses, dos quais três estão detidos há quase cinco anos. A justiça humana deve passar por eles, segundo as leis do nosso país e segundo os grandes princípios que subtendem a vida humana. Esta justiça dirá se são inocentes, se são culpados e, neste caso, que pena devem viver.

A justiça humana detém-se aí. A minha oração tenta unir-se à justiça de Deus, que, sem possibilidade de erro, sabe o que é bem, o que é mal. Mas a justiça de Deus não se resume a declarar o bem e o mal, ela esforça-se por tornar justo aquele que o não é. Isto é verdade para mim, e é o que me ajuda a reconhecer as minhas faltas. É verdade para a nossa Igreja, e é o que nos ajuda a reconhecer as nossas faltas, que são por vezes grandes faltas. É a minha esperança, é a esperança dos cristãos: pela graça de Deus, todos podem tornar-se melhores, incluindo os cúmplices de assassinato.

A nossa sociedade fez desta esperança a base da sua justiça. Não é o que subjaz à abolição da pena de morte ou de uma pena perpétua? Não é o que subjaz à finalidade mais importante de uma pena: o regresso a uma vida digna para o delinquente, que se tornou indigno? Nunca devemos pensar que a vida de um delinquente é a prisão. Ela é feita para se sair dela.



Já não é a lei que nos obriga a respeitar a vida do seu início ao seu termo natural; não é a lei que nos manda ajudar o nosso próximo que vem procurar refúgio no nosso solo ou que chega por sonhar um eldorado; já não é a lei que nos impõe respeitar os mandamentos de Deus na vida familiar; já não é a lei que nos inspira a trabalhar pelo viver em conjunto e de tomar o perdão como horizonte. Assim, já não sendo mais a lei, há um imperativo muito maior



Todos temos de participar nesta finalidade, dando as condições para este regresso. Como cristãos, acreditamos que o amor universal de Jesus, a sua misericórdia e a graça de Deus fazem parte, se não condições, deste belo caminho. Não é preciso que o nosso país se afaste da sua base: toda a vida humana vale ser vivida e tem um belo caminho a viver até ao fim. É nossa responsabilidade comum: mais uma vez, só há uma humanidade.

Janine Coponet foi até ao fim do seu caminho na Terra, há algumas semanas. Participou na esperança dos cristãos. As suas últimas palavras são tão exemplares como as do P. Jacques Hamel, talvez também, para alguns, incompreensíveis: «Morro feliz». Ela agradecia a Deus pela sua vida, apesar das provações, ou por causa delas, incluindo esta terrível provação que assinalamos hoje.

Como não sublinhar a feliz e providencial opção do papa Francisco de nos dispensar do prazo de cinco anos antes de abrir o processo com vista à beatificação que poderá, um dia, reconhecer oficialmente o martírio do P. Jacques Hamel? O papa permitiu assim que sejam recolhidos os depoimentos de todas as testemunhas oculares. Como sabeis, o inquérito diocesano está concluído, foi deposto em Roma, e recebemos o reconhecimento da validade deste inquérito. O que se segue já não nos pertence, quero dizer, o seguimento deste processo.



Se as nossas comunidades podem, e devem, ser contestestárias da vida em sociedade tal como que vive, em particular nas suas violências e injustiças, elas não têm qualquer intenção de se separar dela, bem pelo contrário



O que se segue ao martírio, isso, já nos pertence. A palavra “mártir” significa “testemunha”, num sentido que vai bem além do testemunho indispensável que Janine e outros (...) prestaram à justiça francesa, ao procedimento com vista à beatificação, testemunhando o que viram. Ser testemunha, como sabeis, significa ir até ao fim do amor recebido, ao fundo de se ser fiel. Obrigado à Janine por ter ido, à sua maneira, até ao fim, em fidelidade ao amor recebido e reconhecido.

Obrigado a todos vós, queridos amigos, por serdes fiéis ao que recebestes por este acontecimento terrível, que, graças a cada um de nós e a todos, pode tornar-se cada vez mais um caminho de esperança e de fidelidade a uma humanidade indivisível. Para os cristãos, é este o sentido profundo de ser testemunha a que nos convidam o P. Jacques Hamel e, paradoxalmente, senhoras e senhores deputados do parlamento, as leis do nosso país, que, é preciso dizê-lo, se afastam dos dez Mandamentos.

Senhor ministro [do Interior/Administração Interna, Gérald Darmanin], já não é a lei que nos obriga a respeitar a vida do seu início ao seu termo natural; não é a lei que nos manda ajudar o nosso próximo que vem procurar refúgio no nosso solo ou que chega por sonhar um eldorado; já não é a lei que nos impõe respeitar os mandamentos de Deus na vida familiar; já não é a lei que nos inspira a trabalhar pelo viver em conjunto e de tomar o perdão como horizonte. Assim, já não sendo mais a lei, há um imperativo muito maior: é o amor, o amor recebido, o amor doado. Foi o amor que fez viver o P. Jacques Hamel, aqui, em Saint-Etienne-du-Rouvray, e que o faz viver hoje nos nossos corações e junto de Deus.

Permiti-me concluir agradecendo-lhe, senhor ministro, pela sua presença renovada que marca a sua atenção às comunidades religiosas. Permiti-me também agradecer calorosamente à cidade de Saint-Etienne-du-Rouvray pela sua atenção à comunidade católica ferida, e à vida das comunidades crentes. Se as nossas comunidades podem, e devem, ser contestestárias da vida em sociedade tal como que vive, em particular nas suas violências e injustiças, elas não têm qualquer intenção de se separar dela, bem pelo contrário. Como o P. Jacques Hamel, desejamos ser fermento de amizade numa vida comum, simplesmente e fielmente.


 

D. Dominique Lebrun
Arcebispo de Rouen
26.7.2021
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: P. Jacques Hamel | D.R.
Publicado em 28.07.2021

 

 
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