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Leitura: "Óscar Romero - O amor deve triunfar"

Imagem Óscar Romero | D.R.

Leitura: "Óscar Romero - O amor deve triunfar"

Lançada pela Paulinas Editora por ocasião da beatificação do arcebispo Óscar Romero, a 23 de maio, esta biografia do prelado salvadorenho assassinado em 1980, quando celebrava missa, baseia-se numa «sólida investigação» de Kevin Clarke.

 

Amor, a vingança dos cristãos
Kevin Clarke
In "Óscar Romero - O amor deve triunfar"

O confronto com a violência crescente da sociedade salvadorenha viria a tornar-se uma função regular e dolorosa para o arcebispo Romero.

«Oh, se ao menos tivéssemos homens de oração entre aqueles que guiam o destino da nação e da economia! – disse ele durante uma homilia, em julho de 1977. – Se, em vez de se apoiarem em preceitos humanos, as pessoas confiassem em Deus e nos seus preceitos, teríamos um mundo como aquele com que a Igreja sonha, um mundo sem injustiças, um mundo com respeito pelos direitos [humanos], um mundo com a generosa participação de todos, um mundo sem repressão, um mundo sem tortura».

Embora os ataques dos esquadrões da morte e a repressão geral comandada pela Guarda Nacional fossem os alvos habituais das suas denúncias, as fações revolucionárias de El Salvador, por seu lado, eram igualmente capazes de violência, sendo também fortemente censuradas por Romero. Em abril de 1977, um grupo, que tentava a libertação de prisioneiros políticos detidos pelo Governo, raptou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Maurício Borgonovo, membro de uma das Catorce – ou seja, das catorze famílias [poderosas]. O Governo de Molina recusou-se a entrar em quaisquer negociações com os raptores. A família Borgonovo pediu a Romero que interviesse, e o arcebispo apelou pu blicamente às FPL (Forças Populares de Libertação) para que libertassem o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Numa homilia de 8 de maio de 1977, Romero deu início àquilo que viria a ser o grande ato de equilibrismo que seria chamado a realizar como arcebispo de San Salvador.

«Estamos solidários com a angústia e a esperança do povo do nosso tempo, sobretudo com os pobres e sofredores, [e] não estamos a ser políticos quando falamos desta forma. O Concílio afirmou [...]: “A Igreja tem o direito de fazer juízos morais, até mesmo sobre questões que dizem respeito à ordem política, sempre que os direitos pessoais básicos ou a salvação das almas tornam tais juízos necessários.” Quando eu era estudante em Roma, senti-me tocado pelas palavras do papa Pio XI: “A Igreja não está envolvida na política, mas quando a política toca no altar, a Igreja defende o altar.”

Um lado acusa a Igreja de ser marxista e subversiva. Outro grupo de pessoas quer reduzir a Igreja a uma espiritualidade separada das realidades do mundo, a um tipo de pregação que permanece nas nuvens, que canta os salmos e reza, sem se preocupar com os assuntos terrenos.

Eis o que nós pregamos: Não à vingança! Não à luta de classes! Não à violência! Só um cego acreditaria que, em períodos de violência e perseguição, a Igreja não tem sido solidária dos que sofrem, quer se trate de pessoas ricas ou pobres. Nós defendemos a vida do chanceler Borgonovo Pohl, e estamos felizes por isso. Não queremos que ele se torne vítima de violência. Por isso, juntamente com a mãe de Borgonovo, que sofre, a Igreja está solidária com todas aquelas mães cujos filhos foram feitos prisioneiros, com todos aqueles que sofrem.»

A 11 de maio, o corpo de Borgonovo foi encontrado à beira de uma estrada, à saída de San Salvador. Romero fez a homilia durante a Missa de corpo presente de Borgonovo, e, quando garantiu à família e aos amigos enlutados que a Igreja rejeitava a violência e que os seus ministros não pregavam a violência, suscitou um escárnio furioso. A assembleia chegou quase ao ponto de o vaiar e apupar. Para a classe governante, Romero tornara-se pouco mais do que um revolucionário de sotaina, apesar das suas tentativas de se aproximar deles e das suas chamadas à conver são. Lá fora, a rua da igreja estava coberta por panfletos que incitavam o povo: «Sê patriota. Mata um sacerdote».

Nessa tarde, um esquadrão da morte da União dos Guerreiros Brancos aceitou a sugestão. Poucos meses após o assassínio de Rutílio, o padre Alfonso Navarro Oviedo foi abatido a tiro no seu complexo paroquial. Era bem conhecido do povo de El Salvador e dos seus militares por ter celebrado a Missa na Plaza Libertad, algumas horas antes do fim implacável da manifestação que aí houvera depois da «eleição» do general Romero. Como jovem sa cerdote de trinta e cinco anos, o padre Alfonso fora pastor da Igreja da Ressurreição, servindo um bairro da classe média de San Salvador. As suas opiniões eram bem conhecidas e o seu ensino catequético revelara-se controverso; Navarro fora ameaçado em várias ocasiões. Em fevereiro, a garagem da casa paroquial e o automóvel de Navarro tinham sido destruídos.

Segundo o relatório oficial apresentado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos [OEA]:

«Na tarde do assassínio, [Navarro] estivera na residência presidencial, tendo sido chamado devido a informações contra ele, relativas a aulas que estava a dar numa escola secundária da capital. Em seguida, foi ter com o arcebispo, para lhe relatar o sucedido, e depois regressou a casa. Poucos minutos depois da sua chegada, cerca de quatro homens bateram à porta da residência. Um jovem [Luís Torres] abriu a porta e eles abateram-no a tiro. O padre Navarro correu para o pátio, tentando saltar o muro. Foi detido por sete balas. Apesar disso, continuava vivo, quando foi encontrado, mas viria a morrer num Posto de Socorro, às 3.30 horas.»

Segundo aqueles que tentaram salvar-lhe a vida, o padre Navarro ainda conseguiu declarar, antes de morrer, que perdoava aos seus assassinos.

Mais uma vez, Romero foi obrigado a fazer a homilia numa Missa de exéquias por um dos seus sacerdotes.

«Há uma história acerca de uma caravana que viajava através do deserto, guiada por um beduíno – começou ele, falando às pessoas reunidas na paróquia da Ressurreição, do padre Navarro, e às que o escutavam através da rádio, por todo o país. – Estavam desesperados e cheios de sede, procurando água nas miragens do deserto. O seu guia dizia-lhes: “Aí não, ali.” Já proferira essas palavras tantas vezes, que os membros da caravana se sentiram frustrados, pegaram numa arma e abateram o guia. Quando este estava a morrer, estendeu a mão e disse por uma última vez: “Aí não, ali.” Morreu apontando o caminho.

Esta lenda torna-se realidade no meio de nós: um sacerdote... morre perdoando e rezando pelos seus assassinos... o padre Navarro partilha connosco a sua mensagem. Acolhamos essa mensagem. Nós, como sacerdotes, vivemos com uma esperança. Não podemos ser comunistas, por que eles mutilaram essa esperança numa vida futura. Nós acreditamos em Deus; pregamos a esperança nesse mesmo Deus e morremos convencidos dessa esperança. É esta, portanto, a segunda parte da mensagem do padre Alfonso Navarro: a esperança é um ideal que nunca morre. É como o guia do deserto que estende a mão e diz: “Aí não, não sigais essas miragens de ódio, não sigais essa filosofia de olho por olho e dente por dente; não, isso é criminoso. Ali: amai-vos uns aos outros.”

Não sigais essas estradas de pecado e de violência – disse ainda Romero, ao concluir o seu sermão –, se quereis construir um novo mundo, caminhai pela estrada do amor.»

O seu primeiro e sangrento mês de maio, como arcebispo, ainda não tinha terminado. Pouco mais de uma semana após a execução de Borgonovo, a Guarda Nacional, numa presunçosa tentativa, intitulada em código «Operação Rutílio», foi chamada à comunidade do falecido padre Grande, a Aguilares, para expulsar vários membros de um grupo de defesa dos direitos dos camponeses que ocupara terrenos baldios. Os membros da organização de camponeses fugiram do local, quando as ruidosas tropas de dois mil homens se aproximaram. Frustrados por terem falhado o alvo preferido, os soldados voltaram-se contra a própria comunidade de Aguilares. Depois de vários camponeses terem disparado contra os soldados que avançavam, matando dois, a Guarda deu início a uma matança, assassinando imediatamente cerca de cinquenta, violando as mulheres da comunidade e pilhando as suas humildes casas.

Os soldados invadiram a igreja paroquial onde o corpo de Grande estivera exposto, fazendo explodir o sacrário com tiros de espingarda, e espalhando ao pontapé as hóstias consagradas no meio da rua. A Guarda Nacional ocupou o povoado. Levaram duzentos dos seus habitantes para serem interrogados, maltratando aqueles que ainda restavam. Os que tinham fotografias de Grande ou crucifixos em suas casas eram especialmente maltratados, e os soldados transformaram a igreja numa caserna. Os três jesuítas que ainda restavam em Aguilares foram detidos, algemados e deportados.

Quando Romero tentou visitar a povoação devastada, foi-lhe impedida a entrada pela Guarda Nacional. Ele queixou-se de tal tratamento numa carta dirigida ao Presidente demissionário Molina, começando por referir que lhe custava muito compreender como é que uma pessoa que se dizia católica podia «permitir os abusos ultrajantes que eram cometidos pelas forças da segurança nacionais». Escreveu ainda: «Não compreendo, Senhor Presidente, por que razão as autoridades militares não me deixaram entrar pessoalmente na igreja de Aguilares, para ver com os meus próprios olhos o que estava a acontecer... Será que a própria pessoa do arcebispo é vista como uma ameaça para a segurança nacional?».

Aguilares continuou ocupada pelos militares durante várias semanas. Quando Romero foi finalmente autorizado a entrar aí, celebrou a Missa para uma comunidade traumatizada. Como arcebispo, afirmou ele, «recolher os corpos daqueles que foram maltratados, das vítimas desta perseguição contra a Igreja», tinha-se tornado uma dolorosa parte dos seus deveres.

«Hoje, vim congregar esta igreja e este convento que foram profanados, este sacrário que foi destruído e, acima de tudo, estas pessoas que foram humilhadas e desnecessariamente sacrificadas... Trago-vos a palavra que Jesus me manda partilhar convosco: uma palavra de solidariedade, uma palavra de ânimo, uma palavra de orientação e, por fim, uma palavra de conversão.»

Depois da Missa, Romero, transportando o Santíssimo, conduziu uma procissão para re-santificar a comunidade, depois da sua profanação. A certa altura, a procissão foi detida por um muro de tropas da Guarda Nacional, com espingardas apontadas à multidão. Situado no fim da procissão, Romero apercebeu-se da presença dos guardas à frente da mesma. «Adelante» – «Em frente» –, disse ele ao povo. Os soldados foram-se dispersando gradualmente, diante do avanço das pessoas unidas. Aquele momento encarnou a esperança e a coragem com que Romero alimentou o seu povo cercado e a confiança que este tinha rapidamente aprendido a colocar no seu arcebispo. Também era um pequeno sinal para aqueles homens tão perigosos de quanto mudara o tímido arcebispo, em tão poucos meses. A sua nova autoridade não passou despercebida.

O homicídio do padre Navarro fora cruel, mas empalideceu em comparação com a violência cometida contra outro sacerdote assassinado pelas forças de segurança no ano seguinte. A perda do padre Octavio Ortiz [Luna] foi especialmente dolorosa para Romero. Conhecia Ortiz desde a sua adolescência, no seminário; era um rapaz muito parecido consigo, de família modesta, determinado a subir acima do nível que supostamente lhe estaria destinado, tornando-se sacerdote. Ortiz foi o primeiro sacerdote que Romero ordenou como bispo.

Regista Romero no seu diário:

«Dia muito trágico. Amanheceu com a notícia de que tinha havido uma operação militar em El Despertar, na paróquia de Santo Antão Abade. Foi numa casa frequentemente utilizada para retiros destinados a aprofundar a fé cristã dos participantes. O padre Octavio Ortiz... estava à frente de um programa de iniciação à vida cristã para cerca de quarenta rapazes.

Hoje de madrugada, porém, a Guarda Nacional, com um esquadrão arruaceiro, arrombaram a porta com uma bomba e, depois, entraram à força, aos tiros e com carros blindados. Quando percebeu o que estava a acontecer, o padre Octavio levantou-se, indo ao encontro da sua própria morte, com mais quatro rapazes... o rosto do padre Octavio ficou muito desfigurado; parecia ter sido esmagado e achatado por qualquer coisa muito pesada.»

O Governo tentou afirmar que os adolescentes e os jovens em retiro tinham aberto fogo, do telhado do edifício, contra a Guarda Nacional; chegaram mesmo a dispor os seus corpos aí, para poderem ser fotografados pela imprensa pró-Governo de San Salvador. Foi tudo uma farsa inventada para encobrir a desumanidade dos militares e denunciada como tal, através das ondas rádio pelo arcebispo. Na morgue, Romero chorou sobre o corpo do padre Ortiz, embalando a sua cabeça esmagada e rezando sobre o seu cadáver, utilizando as palavras de 2Timóteo 4,7: «Octávio, meu filho, terminaste a tua missão, guardaste a fé».

Se era este o tratamento que a Guarda Nacional não hesitava em aplicar aos sacerdotes de El Salvador, durante aqueles meses, podemos imaginar o sofrimento atroz das pessoas da província, onde, longe dos olhares dos meios de comunicação internacionais, os camponeses de El Salvador sofriam muito mais ainda. Essa preocupação nunca abandonava o pensamento de Romero. Em campanhas destinadas a acabar com grupos revolucionários armados, os militares devastavam as aldeias; famílias inteiras seriam liquidadas, e várias comunidades fugiriam para as montanhas.

A participação num estudo da Bíblia, uma conversa com algum jornalista estrangeiro ou o ingresso numa organização de agricultores eram apenas alguns dos agravos que poderiam custar a vida a um homem e a toda a sua família. Se os membros da ORDEN – Organização Democrática Nacionalista –, uma organização paramilitar de unidades de reserva do exército e de camponeses recrutados ou forçados a agir como informadores e atacantes do povo das suas próprias comunidades, não conduzia as suas próprias operações de execução brutal, estavam ligados a pessoas que podiam fazê-lo. Ninguém sabia quando é que um comentário imprudente suscitaria uma visita noturna dos membros à paisana da Guarda Nacional. Alguns homens optavam por dormir nas montanhas, longe das suas famílias e de suas casas, esperando assim não «desaparecer» durante a noite. (...)

Os esquadrões da morte focaram-se nas organizações de camponeses ainda ilegais, que tinham florescido na sequência do estudo da Escritura e da instrução dada pelos sacerdotes e cate quistas paroquiais, que os militares consideravam um sustentáculo dos revolucionários. Nas cidades, corpos, que apresentavam sinais de terríveis atos de tortura e mutilação, a ponto de os familiares e amigos não os reconhecerem, eram atirados para as ruelas e para as lixeiras: eram os homens e as mulheres tidos por subversivos ou aparentados com gente subversiva pelos chefes fantoches desconhecidos dos esquadrões da morte. Muitas dessas vítimas estavam associadas a grupos de resistência política, mas muitas outras eram simples organizadores comunitários, e até catequistas da Igreja.

O sofrimento e a perseguição da Igreja também continuariam. A União clandestina direitista dos Guerreiros Brancos emitiu um ultimato dirigido aos quarenta e sete jesuítas de El Salvador, ordenando-lhes que deixassem o país dentro de trinta dias, e garantindo-lhes que, depois disso, planeava perseguir e matar todos os que restassem. Depois de consultar a comunidade jesuíta de El Salvador, o superior-geral jesuíta Pedro Arrupe replicou: «Os meus sacerdotes podem acabar como mártires, mas não deixarão o país, porque estão com o povo.» Num dos poucos casos em que o Governo interveio para proteger os sacerdotes de El Salvador, o presidente Romero ordenou que fossem colocados soldados de sentinela à entrada das escolas e residências dos jesuítas. Dessa vez os jesuítas saíram ilesos, depois de o prazo referido ter terminado, revelando inadvertidamente, porém, até que ponto os poderosos do Governo estavam ligados aos esquadrões da morte, como os Guerreiros Brancos.

Depois de ter recebido pessoalmente algumas ameaças de morte da parte da União dos Guerreiros Brancos, o padre Rafael Palacios [Campo] dirigiu-se por duas vezes a Romero para manifestar as suas preocupações acerca da sua segurança em Santa Tecla, onde trabalhava com comunidades eclesiais de base, e onde o principal organizador dos esquadrões da morte, Roberto D’Aubuisson, conspirava na fazenda da sua família. Romero escutou o preocupado sacerdote, mas, talvez mostrando como tais ameaças se tinham tornado comuns, pensou que os medos de Palacios eram um pouco exagerados. A 20 de junho, Palacios foi abatido a tiro na rua de Santa Tecla, como retaliação pelo homicídio de um agente da Guarda Nacional.

«Podemos apresentar, a par do sangue de professores, trabalhadores e camponeses, o sangue dos nossos sacerdotes», disse Romero durante a Missa de exéquias de Palácios. «Esta é uma comunhão de amor. Que triste seria se, num país onde estão a ser cometidos crimes tão horrendos, não encontrássemos sacerdotes entre as vítimas. Eles são o testemunho de uma Igreja encarnada nos problemas do seu povo.»

Romero foi um dos primeiros bispos chamados a trazer à vida os documentos do Vaticano II, de Medellín e de Puebla. A teoria teológica e a retórica espiritual, situando a Igreja junto dos oprimidos, dos pobres e dos vulneráveis. Quando o fez, até aqueles que tinham formulado os documentos do magistério, subjacentes à necessidade de aproximação contemporânea da Igreja do mundo moderno, sentiram-se pouco à vontade com os resultados. Para Romero, porém, um testemunho radical ao lado dos pobres era o único resultado lógico e inevitável do ensino contemporâneo. Quantos bispos se postaram de forma tão memorável – e tão vulnerável – diante de forças tão desapiedadas da opressão material, psicológica e física? Quantos deles manifestaram tanta disponibilidade e alegria na defesa dos pobres? Romero, em breve, ultrapassou os documentos do magistério da Igreja, porém, aprendendo com a vida real, em tempo real, que o verdadeiro profeta, a verdadeira manifestação da Igreja nos tempos modernos, o Corpo de Cristo no mundo, se situava entre os mais vulneráveis e os mais oprimidos.

«O mundo não diz: bem-aventurados os pobres – disse Romero durante uma homilia, a 29 de janeiro de 1978. – O mundo diz: bem-aventurados os ricos. As pessoas valem segundo aquilo que têm. Cristo, porém, diz: isso está errado. Bem-aventurados os pobres, pois deles é o Reino dos Céus, porque eles não depositam a sua confiança naquilo que é tão transitório.»

Na Universidade de Lovaina, na Bélgica, onde recebeu um doutoramento "honoris causa", Romero falou ao número crescente dos seus admiradores da Europa. Num discurso que viria a ser uma apologia da sua vida e da sua visão da Igreja, disse:

«O mundo dos pobres, com as suas características sociais e políticas, ensina-nos onde é que a Igreja deve encarnar para evitar aquela falsa universalização que acaba sempre numa conivência com os poderosos. O mundo dos pobres ensina-nos como deve ser o amor cristão... O mundo dos pobres ensina-nos que a magnanimidade do amor cristão deve responder à necessidade de justiça das maiorias e não fugir da luta honesta. O mundo dos pobres ensina-nos que a libertação ocorrerá não só quando os pobres se tornarem recetores dos benefícios do Governo ou da Igreja, mas quando eles próprios se tornarem autores e protagonistas da sua luta e da sua libertação, desmascarando assim a raiz última dos falsos paternalismos – até mesmo eclesiais.»

Em Lovaina, Romero fez uma verdadeira sinopse do sofrimento de El Salvador, um grito de socorro dirigido à Europa e ao Ocidente, um resumo do caso contra os opressores de El Salvador, um boletim informativo para os habitantes do Primeiro Mundo ou para os membros da hierarquia que se tinham mostrado tão determinadamente cegos frente àquilo que transpirava de El Salvador, e uma defesa desafiante e apaixonada da sua missão de ser uma Igreja dos pobres e com os pobres. Assemelha-se a uma alegação final bem estruturada de um advogado de defesa, embora seja Romero a falar e o réu seja ele próprio.

«Apesar de ser claro que a nossa Igreja tem sido vítima de perseguição, nos últimos três anos, é ainda mais importante analisar a razão dessa perseguição. Não se trata apenas de que qualquer sacerdote ou qualquer instituição tenham sido perseguidos. Trata-se de que o segmento da Igreja perseguido e atacado tem sido aquele que está do lado dos pobres e que tem acorrido em sua defesa. A perseguição tem lugar devido à defesa dos pobres por parte da Igreja, por esta assumir o destino dos pobres.

Ali onde os pobres começam a viver, onde os pobres começam a libertar-se, onde os homens e as mulheres são capazes de se sentar à volta de uma mesa comum e de partilhar, aí está o Deus da vida... Essa fé no Deus da vida é o que explica a profundidade do mistério cristão. Para dar a vida aos pobres, tem de se dar da própria vida, tem de se dar até a própria vida. O maior sinal de fé num Deus da vida é o testemunho de uma pessoa disposta a entregar a sua própria vida. “Não existe maior amor do que dar a vida pelos amigos” (João 15,13).»

Romero começava a ver os pobres como os principais instrutores da fé contemporânea, tanto pelo testemunho das condições da sociedade refletidas na sua luta diária como pela sabedoria das Escrituras que partilhavam pessoalmente. E, através dessa sabedoria, começava a entender a necessidade de a Igreja se empenhar na sua época, e não se ausentar dos bastidores da história, refugiando-se em considerações espirituais piedosamente sussurradas. Obviamente, diria ele, a Igreja não tem outra alternativa senão dar a cara por aqueles que estão a ser oprimidos e que precisam de ser libertados dos seus opressores. A Igreja está em conflito com o Governo, afirmou ele, em dezembro de 1978, porque «nós tomamos o partido do povo». E isso significava partilhar os riscos que corriam os indefesos.

«Uma Igreja que não provoca crises, um Evangelho que não incomoda, uma Palavra de Deus que não sacode ninguém, uma Palavra de Deus que não toca no pecado real da sociedade em que é proclamado: que Evangelho é esse?», perguntou ele. (...)

Romero, porém, compreendia que a sua missão pastoral não se limitava apenas a ver as vítimas e a «recolher os corpos». A sua função era muito mais complicada. Ele desafiava-se repetidas vezes a si próprio a converter pessoas que tinham chegado a idolatrar aquilo a que ele chamava «o misticismo da violência», de ambos os lados da luta. «Que não haja ressentimento no vosso coração», exortaria ele as pessoas da comunidade de Aguilares, pela segunda vez brutalizada. «Que esta Eucaristia, que é uma chamada a reconciliarmo-nos com Deus e com as nossas irmãs e irmãos, satisfaça o nosso coração com o conhecimento de que somos cristãos. Que ela afaste do nosso coração qualquer vestígio de ódio e de rancor.»

Até mesmo quando os céus que cobriam os campos e as cidades de El Salvador se tingiam de vermelho com o sangue das novas vítimas da violência, quase suprimindo as expectativas crescentes dos sem-terra e dos abandonados, Romero nunca deixou de esperar a conversão dos poderosos, que, em seu entender, poderia estabelecer a justiça e a paz em El Salvador. Em janeiro de 1980, dois meses antes do seu assassínio, disse:

«À oligarquia, repito o que disse antes: não me olheis como um juiz ou como um inimigo. Sou apenas o pastor, o irmão, o amigo do seu povo, aquele que conhece o seu sofrimento, a sua fome e a sua aflição.

Em nome das suas vozes, levanto a minha, para dizer: não façais ídolos das vossas riquezas; não as reserveis para vós de uma forma que deixe os outros a morrer de fome. Para sermos felizes, devemos partilhar.»

As suas apreensões frente à teologia da libertação, e as suas anteriores dificuldades em aceitar as implicações práticas e espirituais de Medellín, eram bem conhecidas. Como arcebispo, Romero rapidamente percebeu que o viam cada vez mais como a encarnação dos elementos «progressistas» do clero da América Central, até mesmo quando ele protestava que estava apenas a posicionar a Igreja onde esta devia estar, onde esta precisava de estar, servindo os pobres e os indefesos. Essa perceção tanto suscitava aclamações como escárnio. A edição completa de um semanário foi dedicada a invenções e ataques contra o arcebispo, alcunhando-o de «Óscar Marxnulfo Romero».

Na Missa, em Aguilares, disse: «Sejamos firmes na defesa dos nossos direitos, mas façamo-lo com amor no coração. De facto, se agirmos com amor, mostraremos que estamos à procura da conversão dos pecadores. O amor é a vingança dos cristãos.» Estas breves palavras captam a essência da luta «política» de Romero pela paz, uma confiança crescente de que a Igreja só seria fiel ao Evangelho e aos seus novos compromissos teológicos, mantendo uma voz forte e sincera no meio do conflito crescente da nação. Não seria a voz de uma libertação temporal ou social radical, mas uma voz de libertação espiritual e misericordiosa para todos.

O advogado da Arquidiocese e o diretor do seu gabinete de apoio jurídico, Roberto Cuéllar, num documentário recente, recorda monsenhor Romero como «não sendo um dos grandes pensadores ou defensores da teologia da libertação. Romero era um teólogo das bem-aventuranças», diz Cuéllar. «Dai de comer a quem tem fome; dai de beber a quem tem sede. Visitai os perseguidos na prisão; fortalecei os fracos. O que me impressionava nele era a sua capacidade de tornar as bem-aventuranças reais – defendendo os direitos dos pobres e, mais tarde, também os direitos humanos.»

Em novembro 1977, Romero defendeu o seu ministério pastoral diante dos muitos e poderosos inimigos que tinham cercado – em termos retóricos e, em grande parte, físicos – o seu gabinete, desde que ele se tornara a voz dos sem-voz de El Salvador: «Nunca pregámos a violência, a não ser a violência do amor que deixou Cristo pregado numa cruz. Nós nunca pregámos a violência, a não ser a violência que cada um de nós deve fazer a si próprio para ultrapassar o egoísmo e desigualdades tão cruéis entre nós. A violência que nós pregamos não é a violência da espada, a violência do ódio. É a violência do amor, da fraternidade, a violência que escolhe transformar as armas em foices para o trabalho.»

Sim, disse ele aos seus colegas sacerdotes e ao resto do povo de Deus, a Igreja ouve o grito dos pobres e a Igreja compreende as estruturas sociais de pecado de El Salvador; ela compreende as necessidades materiais que esmagam os pobres, os politicamente marginalizados e os oprimidos. Mas também compreende que tal como estas deficiências sociais precisam de ser abordadas, a salvação dos «pecadores» da classe militar e dos proprietários de terras de El Salvador, irmãos e irmãs dos que sofrem, e a restauração da comunidade salvadorenha, também continuavam a ser uma responsabilidade pastoral da arquidiocese.

«Rezemos pela conversão daqueles que nos têm espancado e por aqueles que tiveram a audácia de profanar sacrilegamente o sacrário – disse Romero em Aguilares. – Rezemos pela conversão e pelo arrependimento daqueles que transformaram este lugar numa prisão e numa câmara de tortura. Que o Senhor toque nos seus corações, antes de ouvirem a sentença do Senhor: todos os que tomam a espada, à espada perecerão. Que eles se arrependam verdadeiramente e ponham os olhos naqueles cujos direitos violaram. Que uma nascente de misericórdia e bondade brote sobre todos nós, permitindo-nos perceber que todos nós somos irmãs e irmãos.»

É nesta encruzilhada, frequentemente referida pelo arcebispo, que a sua visão de libertação e a de alguns adeptos da emergente teologia da libertação talvez sigam caminhos diferentes. Romero não estava interessado na promoção de um choque de classes e de estratos sociais, na reordenação violenta da má distribuição de riquezas ou dos crimes relacionados com a propriedade hereditária. Estava preocupado em salvar os corpos e as almas dos seus irmãos das comunidades mais pobres e mais vulneráveis, mas também das classes dirigentes, intocadas pela violência da pobreza e voluntariamente cegas, quanto à sua própria cumplicidade em relação a ela. As suas denúncias e súplicas não tinham por objetivo dividir e castigar, mas restaurar a fé – e a comunidade dos fiéis –, oferecendo esperança aos oprimidos e chamando e acolhendo os cristãos extraviados na comunidade do povo de Deus.

Romero explicava:

«Quando me dizem que eu sou um subversivo e que me meto na política, eu respondo que não é verdade. Tento apenas definir a missão da Igreja, que é um prolongamento da de Cristo. A Igreja tem de salvar as pessoas e estar com elas na sua busca de justiça. Além disso, não as deve deixar seguir caminhos de ódio, de vingança ou de violência injusta. Nesse sentido, acompanhamos as pessoas, as pessoas que sofrem muitíssimo. Naturalmente, quem espezinha as pessoas tem de estar em conflito com a Igreja.»

Contudo, tal como o pai amoroso, que espera, rezando, pelo regresso do filho pródigo, Romero mantinha-se atento a todos os membros do seu rebanho que participavam ou beneficiavam da opressão dos pobres, na esperança orante de que um dia os seus olhos e os seus corações fossem abertos, a reconciliação alcançada e a comunidade restaurada.

«Não nos cansemos de pregar o amor – disse Romero durante a sua homilia de 25 de setembro de 1977. – Mesmo que vejamos as ondas da violência conseguir afogar o fogo do amor cristão, o amor deve vencer; é o único capaz de vencer.»

É essa esperança encarnada pelo arcebispo que ainda hoje continua à espera do seu cumprimento em El Salvador. Parte do legado de Romero é que, se nos unirmos ao Deus da história, ao Deus da justiça e da misericórdia, a confiança nessa esperança pode continuar para lá da vida, se necessário for, desde que morramos com fé, como ele próprio morreu.

 

Publicado em 17.06.2015

 

Título: Óscar Romero - O amor deve vencer
Autor: Kevin Clarke
Editora: Paulinas
Páginas: 160
Preço: 12,00 €
ISBN: 978-989-673-450-3

 

 
Imagem Capa | D.R.
Eis o que nós pregamos: Não à vingança! Não à luta de classes! Não à violência! Só um cego acreditaria que, em períodos de violência e perseguição, a Igreja não tem sido solidária dos que sofrem, quer se trate de pessoas ricas ou pobres
Para a classe governante, Romero tornara-se pouco mais do que um revolucionário de sotaina, apesar das suas tentativas de se aproximar deles e das suas chamadas à conver são. Lá fora, a rua da igreja estava coberta por panfletos que incitavam o povo: «Sê patriota. Mata um sacerdote»
Quando Romero tentou visitar a povoação devastada, foi-lhe impedida a entrada pela Guarda Nacional. Ele queixou-se de tal tratamento numa carta dirigida ao Presidente demissionário Molina, começando por referir que lhe custava muito compreender como é que uma pessoa que se dizia católica podia «permitir os abusos ultrajantes que eram cometidos pelas forças da segurança nacionais»
Depois da Missa, Romero, transportando o Santíssimo, conduziu uma procissão para re-santificar a comunidade, depois da sua profanação. A certa altura, a procissão foi detida por um muro de tropas da Guarda Nacional, com espingardas apontadas à multidão. Situado no fim da procissão, Romero apercebeu-se da presença dos guardas à frente da mesma. «Adelante» – «Em frente» –, disse ele ao povo
Se era este o tratamento que a Guarda Nacional não hesitava em aplicar aos sacerdotes de El Salvador, durante aqueles meses, podemos imaginar o sofrimento atroz das pessoas da província, onde, longe dos olhares dos meios de comunicação internacionais, os camponeses de El Salvador sofriam muito mais ainda
A participação num estudo da Bíblia, uma conversa com algum jornalista estrangeiro ou o ingresso numa organização de agricultores eram apenas alguns dos agravos que poderiam custar a vida a um homem e a toda a sua família
Quantos bispos se postaram de forma tão memorável – e tão vulnerável – diante de forças tão desapiedadas da opressão material, psicológica e física? Quantos deles manifestaram tanta disponibilidade e alegria na defesa dos pobres? Romero, em breve, ultrapassou os documentos do magistério da Igreja
Ali onde os pobres começam a viver, onde os pobres começam a libertar-se, onde os homens e as mulheres são capazes de se sentar à volta de uma mesa comum e de partilhar, aí está o Deus da vida... Essa fé no Deus da vida é o que explica a profundidade do mistério cristão. Para dar a vida aos pobres, tem de se dar da própria vida, tem de se dar até a própria vida
Romero compreendia que a sua missão pastoral não se limitava apenas a ver as vítimas e a «recolher os corpos». A sua função era muito mais complicada. Ele desafiava-se repetidas vezes a si próprio a converter pessoas que tinham chegado a idolatrar aquilo a que ele chamava «o misticismo da violência», de ambos os lados da luta
Uma Igreja que não provoca crises, um Evangelho que não incomoda, uma Palavra de Deus que não sacode ninguém, uma Palavra de Deus que não toca no pecado real da sociedade em que é proclamado: que Evangelho é esse?
Como arcebispo, Romero rapidamente percebeu que o viam cada vez mais como a encarnação dos elementos «progressistas» do clero da América Central. Essa perceção tanto suscitava aclamações como escárnio. A edição completa de um semanário foi dedicada a invenções e ataques contra o arcebispo, alcunhando-o de «Óscar Marxnulfo Romero»
«Sejamos firmes na defesa dos nossos direitos, mas façamo-lo com amor no coração. De facto, se agirmos com amor, mostraremos que estamos à procura da conversão dos pecadores. O amor é a vingança dos cristãos.» Estas breves palavras captam a essência da luta «política» de Romero pela paz
Nunca pregámos a violência, a não ser a violência do amor que deixou Cristo pregado numa cruz. Nós nunca pregámos a violência, a não ser a violência que cada um de nós deve fazer a si próprio para ultrapassar o egoísmo e desigualdades tão cruéis entre nós. A violência que nós pregamos não é a violência da espada, a violência do ódio. É a violência do amor
Que eles se arrependam verdadeiramente e ponham os olhos naqueles cujos direitos violaram. Que uma nascente de misericórdia e bondade brote sobre todos nós, permitindo-nos perceber que todos nós somos irmãs e irmãos
Quando me dizem que eu sou um subversivo e que me meto na política, eu respondo que não é verdade. Tento apenas definir a missão da Igreja, que é um prolongamento da de Cristo. A Igreja tem de salvar as pessoas e estar com elas na sua busca de justiça. Além disso, não as deve deixar seguir caminhos de ódio, de vingança ou de violência injusta
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