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Os magníficos 60 de Bono Vox, entre Bíblia, rock e ativismo

«Não podes tocar mas podes, podes cantar/ sobre os telhados/ cantar-me ao telefone/ cantar e prometer-me que não vais parar/ cantarás e nunca estarás só.» Deu a volta ao mundo “Let your love be known”, a comovente composição que Bono Voz escreveu e lançou nas redes sociais a 17 de março, dia de S. Patrício. A inspiração para o líder dos U2 chegou do povo italiano em quarentena, que quis exprimir a sua esperança ao cantar das varandas. Do “Rock and Roll Hall of Fame” ao debate com líderes globais, a vida de Bono Vox, que a 10 de maio festejou o 60.º aniversário, tem sido dedicada à música, ativismo e compromisso social.

Com 150 milhões de álbuns vendidos, 22 Grammy e três candidaturas ao prémio Nobel para a paz, Paul David Hewson doou, juntamente com a sua banda, 10 milhões de euros para apoiar os agentes de saúde de um dos hospitais de Dublin, cidade onde nasceu a 10 de maio de 1960, de uma família de trabalhadores.

«A minha mãe era protestante, e o meu pai católico: a sua relação era praticamente ilícita, ao tempo», recorda. «A minha mãe decidiu educar-me, e ao meu irmão, segundo os princípios da Igreja protestante, e o meu velho concordou. Ao domingo levava-nos a uma pequena capela da Igreja da Irlanda, e depois ia à missa, sozinho. E quando nós saíamos, estava à nossa espera. Foi verdadeiramente grande ao mostrar uma tolerância assim.»

Teve, no entanto, uma relação conflituosa com o pai áspero, apaixonado pela lírica e demasiado semelhante àquele rapazinho arrebatado que, aos 14 anos, é vítima de um trauma que o influenciará profundamente: perde a mãe, Iris Elizabeth Rankin, na sequência de um aneurisma cerebral ocorrido durante o funeral do avô, falecido dias antes. A dor pelo desaparecimento da mãe é evidente em muitas das suas canções, entre as quais “I will follow”, onde evoca a carta de S. Paulo aos romanos, segundo a qual «nada poderá nunca separar-nos do amor de Deus». A música, por isso, juntamente com a fé em Deus desde pequeno, tornam-se a salvação de Paul, renomeado Bono nos primeiros anos do liceu, a partir do nome de uma loja de equipamentos acústicos, Bonavox.



A fé cimentou a amizade do grupo. Larry Mullen, católico, The Edge, protestante, e Bono desde jovens frequentaram um grupo ligado ao cristianismo das origens de nome Shalom: «Era belíssimo passar algum tempo a ler a Bíblia e a descobrir o significado do cristianismo como sistema religioso»



Corre o ano de 1976 quando Bono, Adam Clayton e os irmãos Richard “Dick” Evans e David Evans (The Edge) respondem ao anúncio do baterista Larry Mullen para a formação de uma nova banda de rock, que se tornará o núcleo dos futuros U2. E enquanto os rapazes tocam, a Irlanda está em chamas: o próprio Bono, aos 14 anos, escapa por pouco a um atentado ocorrido a 17 de maio de 1974, que causou a morte de 33 pessoas: ao regressar da escola, de bicicleta, e por uma diferença de escassos minutos, não estava na loja de discos de Talbot Street, junto à qual rebentou uma das quatro bombas (facto reevocado 40 anos depois na música “Raised by wolves”).

O hino pacifista “Sunday bloody sunday” encontra aqui as suas raízes («tenho medo quando as pessoas começam a dizer que estão prontas a matar para afirmar onde deve estar uma fronteira», diz Bono), e conduzirá, anos depois, os U2 a ser protagonistas do processo de paz: a 23 de maio de 1998, na véspera do referendo para ratificar o acordo de Sexta-feira Santa assinado em Belfast, no palco diante dos U2 apertarão as mãos o líder unionista e protestante David Trimble e o católico moderado John Hume.

A fé, além disso, cimentou a amizade do grupo. Larry Mullen, católico, The Edge, protestante, e Bono desde jovens frequentaram um grupo ligado ao cristianismo das origens de nome Shalom: «Era belíssimo passar algum tempo a ler a Bíblia e a descobrir o significado do cristianismo como sistema religioso», conta Bono.



Continuando os concertos, ultrapassando alguns problemas de saúde, Bono encontra-se a 19 de setembro de 2018 com o papa Francisco, para exprimir apoio à missão educativa da Fundação Pontifícia Scholas Occurrentes, e fala com ele de sustentabilidade global: «Penso que é um homem extraordinário para tempos extraordinários»



Os U2 estiveram a um passo de renunciar ao rock and rol para não renunciar a ideais de vida mais altos; depois foi encontrado um compromisso através da firme decisão de erradicar os excessos do grupo e da sua entourage. Bono, considerado entre as melhores vozes do rock de todos os tempos, escreve a maior parte das músicas da banda, dos primeiros textos de inspiração religiosa em “Boy” e “October” aos políticos de “The Joshua Tree”, “War” e “Achtung baby”.

Com o passar do tempo, Bono torna-se cada vez mais ativista: está junto de Bob Geldof na organização do Live Aid e Live 8; recolheu fundos contra a SIDA em Ágrica, participou no Fórum de Davos em 2008. É inesquecível o dueto com Pavarotti em “Miss Saravejo”, no Pavarotti and Friends de 1995, a favor das crianças da cidade martirizada pela guerra. Nas suas iniciativas humanitárias, tem muitas vezes ao seu lado a mulher, Alison, companheira de escola com quem casou em 1982 e mãe dos seus quatro filhos.

«A coisa mais importante na Bíblia é assumir o cuidado pelos pobres», disse Bono ao aderir à coligação Jubilee 2000, que pedia a abolição da dívida dos 52 países mais pobres do mundo, por ocasião do grande Jubileu de 2000. A 23 de setembro do ano anterior, Bono guiou a delegação da iniciativa que foi recebida por João Paulo II, que, inesperadamente, pôs os óculos coloridos do vocalista e compositor. Criou a agência DATA (Debt, Aids & Trade for Africa), envolvendo Bill e Melissa Gates.

Continuando os concertos, ultrapassando alguns problemas de saúde, Bono encontra-se a 19 de setembro de 2018 com o papa Francisco, para exprimir apoio à missão educativa da Fundação Pontifícia Scholas Occurrentes, e fala com ele de sustentabilidade global: «Penso que é um homem extraordinário para tempos extraordinários».


 

Sobre texto de Angela Calvini
In Avvenire
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Imagem: Bono Vox e João Paulo II | D.R.
Publicado em 13.05.2020

 

 
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