Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Os livros de contabilidade dizem alguma coisa sobre o real, mas, porventura, não dizem o mais importante

A eleição de D. José Ornelas, bispo de Setúbal, para presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, é um dos temas abordados nas colunas de opinião publicadas nos principais meios de imprensa escrita desde sexta-feira até hoje, a par da série de animação “Destemidas”, a convergência entre católicos e muçulmanos, o olhar para pessoa doente, o novo Diretório para a Catequese e a renúncia «à ilusão de encontrar uma resposta rápida para as perguntas que nos estão a ser feitas».

O P. Anselmo Borges analisa a primeira longa entrevista do novo presidente do episcopado, sublinhando que «as esperanças não são defraudadas. Pelo contrário. As suas declarações têm duas vertentes: uma “ad intra”, para dentro da própria Igreja; a outra “ad extra”, para fora, para a sociedade em geral, como voz político-moral».

Na coluna do “Diário de Notícias”, o autor considera «que não será exagerado pensar que o bispo José Ornelas espera um clero com outra formação, também do ponto de vista intelectual, para este mundo novo que está aí. As homilias dos padres em geral falam de quê, para quem? Qual a responsabilidade da Faculdade de Teologia? Que futuro para os seminários?».

O texto, intitulado “Desconfinar a Igreja (I)”, menciona vários aspetos referidos pelo prelado ao “Público” quanto à presença da Igreja na sociedade, que podem ser sintetizados nesta atitude: «O país e o Estado podem esperar uma atitude leal, colaborante, mas que não exclui a crítica».



«Não sou daqueles que pensa que devamos avançar orgulhosamente sós, fechados nas nossas doutrinas imóveis, sem dar ouvidos aos gritos da humanidade», mas essa acentuação «desvia do essencial: ouvir os gritos da humanidade!»



Sobre a mesma entrevista se pronuncia o P. Edgar Clara, nomeadamente quanto à eventual possibilidade de casamento de padres: «É curioso que entre tantas coisas que foram ditas estes sejam os títulos das entrevistas e das notícias publicadas. Acha curioso, porque esta não é uma agenda da Igreja Católica e, se o fosse, não o deveria ser».

«Porque se preocupa tanto o mundo com o fim do celibato dos padres? Porque é que estamos tão preocupados com o casamento dos padres? Numa altura em que já ninguém quer casar, agora querem casar os padres…», questiona o presbítero no texto “Uma agenda que não é a nossa!».

«As agendas que são impostas à Igreja no mundo contemporâneo devem ser ouvidas e devem ser discernidas, sem dúvida. Não sou daqueles que pensa que devamos avançar orgulhosamente sós, fechados nas nossas doutrinas imóveis, sem dar ouvidos aos gritos da humanidade», mas essa acentuação «desvia do essencial: ouvir os gritos da humanidade!».

O Fr. Bento Domingues indaga a “Responsabilidade ética das religiões”, acentuando que «perante os desafios da fome, da injustiça, da guerra e da paz do nosso tempo, os católicos e os muçulmanos só podem dizer que não sabem o que fazer em conjunto, se continuarem a ser cegos».



«E justo que os pais, desanimados com este filme de animação, protestem e aproveitem esta oportunidade para explicar às suas filhas e filhos a beleza da vida humana e a grandeza da moral cristã»



O religioso lembra, no “Público”, a assinatura, a 4 de fevereiro de 2019, da “Declaração Fraternidade Humana em prol da paz e da convivência comum”, pelo papa e pelo grão imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, o «acontecimento mais significativo, de que há memória, entre o representante mais reconhecido da comunhão da Igreja Católica e a figura amplamente considerada como a autoridade máxima no mundo muçulmano sunita».

«O documento é longo e abrange as questões centrais do mundo dos nossos dias. Precisa de ser conhecido e estudado», como referem os signatários, ao pedirem que o texto «se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação». Por isso, conclui, «já é tempo de perguntar: o que está a ser feito, entre nós, desta recomendação, tanto no campo católico como no muçulmano?».

“‘Destemidas’: uma série de (des)animação” é o título da coluna do P. Gonçalo Portocarrero de Almada no “Observador”, centrado no episódio que «conta a vida de Thérèse Clerc, pioneira do aborto livre e do movimento feminista em França».

«Sem ânimo de polemizar com a RTP, a Radiotelevisão de Todos os Portugueses (exceto os católicos que, segundo dados oficiais, são apenas 80%), sugiro uma leitura alternativa desta obra-prima da sétima arte», aponta.



«Muitos pais só inscrevem os filhos na catequese para receberem a primeira comunhão. E muitos jovens fazem a catequese para o crisma, não porque estejam interessados em aprofundar a fé, mas para poderem ser padrinhos»



O autor considera que «é justo que os pais, desanimados com este filme de animação, protestem e aproveitem esta oportunidade para explicar às suas filhas e filhos a beleza da vida humana e a grandeza da moral cristã», porque «há que ensinar a nova geração a ser destemida na luta contra a ideologia que o nosso nacional socialismo, através do Ministério da Educação e da RTP, lhes quer impingir».

«Um voto, que é também um pedido a todos os pais, sobretudo os cristãos: que as vossas filhas não sejam outras Thérèse Clerc, mas outras Teresas santas, como a de Ávila, a de Lisieux, a de Auschwitz e a de Calcutá! Que estejam sempre prontas a dar razão da sua esperança, proclamando a dignidade de toda a vida humana – “all human lives matter!” – desde a conceção e até à morte natural! Que sejam destemidas na luta contra o aborto, vivam na liberdade gloriosa dos filhos de Deus e se animem a praticar a caridade cristã, que é a experiência revolucionária do verdadeiro amor», assinala.

O P. Fernando Calado Rodrigues  escreve, no “Jornal de Notícias”, sobre o novo “Diretório para a Catequese”, que procura «acabar com “a mentalidade segundo a qual a catequese é feita em vista à receção de um sacramento”».

Com efeito, «muitos pais só inscrevem os filhos na catequese para receberem a primeira comunhão. E muitos jovens fazem a catequese para o crisma, não porque estejam interessados em aprofundar a fé, mas para poderem ser padrinhos».



«Novalis escreveu que “quanto mais poético mais verdadeiro”, uma sentença que conserva ainda muito para aprofundar. Sim, os livros de contabilidade dizem alguma coisa sobre o real, mas não dizem tudo e, porventura, não dizem o mais importante»



O Cón. António Rego fala da doença e do cuidar: «Abate-nos a perplexidade quando sabemos que um amigo que ainda ontem encontramos cheio de vigor, com quem partilhamos notícias, alegrias e dúvidas, hoje vemos de olhos meio cerrados, estendido numa cama de hospital».

«Um doente é mais que pessoa. Na sua fragilidade transporta um vivo olhar sobre o mundo. E trás, escondida, a esperança. Cuidado com as palavras e olhares dirigidos a um doente. É o momento em que melhor interpreta a nossa presença e lê a verdade da nossa alma em tom compadecido», adverte, no “Correio da Manhã”.

O cardeal José Tolentino Mendonça lembra que «ao romantismo devemos a abertura da nossa sensibilidade a critérios não puramente empíricos, procurando uma síntese mais polifónica e integradora do humano, onde, por exemplo, a imaginação e o sentimento, a arte ou a religião não fossem enxotados para um estatuto epistemológico de menoridade, como se não tivessem nada a dizer sobre a existência. Novalis escreveu que “quanto mais poético mais verdadeiro”, uma sentença que conserva ainda muito para aprofundar. Sim, os livros de contabilidade dizem alguma coisa sobre o real, mas não dizem tudo e, porventura, não dizem o mais importante».

Na crónica publicada no “Expresso”, o arquivista e bibliotecário do Vaticano sugere a renúncia «à ilusão de encontrar uma resposta rápida para as perguntas que nos estão a ser feitas e que se calhar não ouvimos ainda por inteiro. Há momentos, ensina o poeta [John Keats], em que a modalidade mais próxima da sabedoria é essa difícil passividade, sem a qual não experimentaremos a recetividade mais verdadeira».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Diário de Notícias, Sol, Público, Observador, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Expresso
Imagem: Elle Aon/Bigstock.com
Publicado em 29.06.2020

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos