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Os artistas e o subtil fio de luz

Não sei se o que faço se pode definir arte. Não o garantem nem o método nem os resultados. E não cabe a mim dizê-lo. Mas é graças àquilo que faço que pude encontrar Sua Santidade, Bento XVI, juntamente com outros homens acomunados pelo misterioso apelativo de artistas [incluindo o P. José Tolentino Mendonça]. Homens que, creio, convivem com a mesma dúvida. Porque a arte é procura. E a dúvida é o primeiro motor da procura. Dúvida que, portanto, não é negação. Mas, ao contrário, pressuposto, prelúdio, antecâmara da verdade. Antecâmara na qual transcorre a vida de cada ser humano. E, entre todos os seres humanos, creio que aqueles que são chamados de artistas estão entre aqueles que aguardam mais próximos da “porta”.

Com os sentidos da interioridade, apercebem-se dos silêncios, dos sons, as vozes e os rumores que provêm da «sala ao lado». Veem um fio de luz filtrar debaixo da porta. Entreveem sinais e reflexos a que procuram lançar fogo, decifrar, ordenar – não é por acaso que esta é uma das mil, fascinantes, raízes da palavra «arte – e tornar visíveis. Uma condição que é, ao mesmo tempo, exaltação e sofrimento. Porque o dom de uma sensibilidade não comum traz consigo o peso de uma não comum responsabilidade. Recordava-o Paulo VI, quando dizia que a missão dos artistas é «extrair do céu do espírito os seus tesouros e revesti-los de palavra, de cores, de formas de acessibilidade». Tornar visível o invisível, precisamente.

Ninguém sabe de onde vêm as notas de uma melodia, as palavras de um romance, os passos de uma coreografia; os traços e cores de uma tela, as líricas de uma poesia; as formas de uma escultura ou os volumes de uma arquitetura; as imagens de uma fotografia ou os enquadramentos de um filme. Nem sabemos quem ou que coisa as trazem dentro de nós. Todos, porém, sabemos que estas coisas nos trazem. Mudam. Erguem. Elevam. Não só nos permitem violar o limite horizontal desta nossa peregrinação na existência, mas sugerem um novo horizonte. Horizonte vertical. Do qual a alma é, evidentemente, chamada. E para o qual, por sua natureza, tende. Desde sempre. Para sempre.



A revelar a fronteira entre imperfeição e perfeição. Entre abismo e infinito. Não só mostrando as estradas a não frequentar, mas também iluminando aquelas a seguir. E, sobretudo, revelando, na rota destas últimas, o valor de uma perspetiva. Demonstrando que aquilo que se imagina ou teme impossível, impossível não é



«A história da humanidade – recordou o papa – é movimento e ascensão.» A arte é parte dessa história. Parte importante. Movimento e ascensão contêm, porém, o risco da queda do homem. Risco que cai sobre a humanidade «quando se deixa seduzir pelas forças do mal». Neste sentido, a arte tem a responsabilidade de ser, ao mesmo tempo, fruto e semente de beleza. Quem semeia beleza, colhe beleza.

Beleza autêntica, naturalmente. Profundidade, não superfície. Substância, não forma. Essa beleza que o ser humano, de quando em vez, identificou com verdade, virtude, bem. Beleza que é antídoto para o desespero. Como recordou Sua Santidade, quando sublinhou o «ligame profundo entre beleza e esperança». Ligame fundamental. Sobretudo hoje, num mundo que tem necessidade extrema de beleza.

Essa beleza que, como dizia Dostoiévski, será a única a salvar o mundo, e sem a qual a humanidade não poderia viver. Porque se a arte o é verdadeiramente, consegue preencher a distância, sempre excessivamente grande, entre o presente como é e como, em vez disso, poderia e deveria ser.

A revelar a fronteira entre imperfeição e perfeição. Entre abismo e infinito. Não só mostrando as estradas a não frequentar, mas também iluminando aquelas a seguir. E, sobretudo, revelando, na rota destas últimas, o valor de uma perspetiva. Demonstrando que aquilo que se imagina ou teme impossível, impossível não é.



Palavras que atordoam e fazem bater com mais intensidade o coração a todos nós, pequenas almas de fronteira, que estendemos o ouvido e esperamos colher e saber interpretar dignamente os frágeis sinais que nos manda aquele subtil fio de luz que passa debaixo da porta



Se o ser humano olha, vê. E à arte cabe – juntamente com outras «artes», naturalmente – a tarefa difícil, mas irrenunciável, de mostrar aquilo que não consegue ou, por vezes, se recusa a ver. Não só dar sentido e valor ao seu caminho horizontal – oferecendo, por exemplo, mais humanidade à humanidade –, mas demonstrando que a meta é fim, mas nem sempre é “o” fim. Muitas vezes, aliás, é início. Novo início.

E sugerindo ao homem, através do pequeno mistério da criatividade, a ideia de abrir-se a sondar o mistério, bem maior, da Criação. Para a música, a tarefa é ainda mais delicada. Não porque exista uma classificação de mérito entre as artes. Que, evidentemente, não há. Mas porque a imediatez da música, a sua universalidade, a facilidade, rapidez e vastidão da sua difusão, o facto de atravessar qualquer fronteira, de ser a única língua que todos são capazes de compreender e falar – inclusive quem dela ignora completamente vocabulário, gramática e sintaxe –, e de exercer um apelo particularmente forte sobre as gerações jovens, tornam-na uma entre as artes mais amadas e escutadas. O que impõe que cada um que lhe dá voz um suplemento de consciência, autenticidade e verdade.

Além da obrigação, que vale para todos os artistas, de nunca esquecer de ser, como escrevia Paulo VI, «os guardiães da beleza no mundo». Palavras que atordoam e fazem bater com mais intensidade o coração a todos nós, pequenas almas de fronteira, que estendemos o ouvido e esperamos colher e saber interpretar dignamente os frágeis sinais que nos manda aquele subtil fio de luz que passa debaixo da porta.


 

Claudio Baglioni
Compositor, cantor
In L'Osservatore Romano (publicado originalmente a 2.11.2009, dias depois do encontro de artistas com o papa Bento XVI)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: cherezoff/Bigstock.com
Publicado em 02.04.2019

 

 
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