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Orar e agir para uma economia que cuide, tenha regras e seja corajosa

Este Dia Mundial de Oração e reflexão contra o tráfico de pessoas [que hoje, 8 de fevereiro, se assinala pela sétima vez] é importante porque nos ajuda a todos a recordar este drama, e encoraja-nos a não cessar de rezar e lutar juntos. Que a reflexão e a tomada de consciência possam ser sempre acompanhadas por gestos concretos, que abram também caminhos de emancipação social. O objetivo, com efeito, é que cada pessoa escravizada volte a ser livre protagonista da sua vida e parte ativa da construção do bem comum.

Este é um Dia de oração. Sim, é preciso orar para apoiar as vítimas do tráfico e as pessoas que acompanham os processos de integração e de reinserção social. É preciso orar para que aprendamos a aproximar-nos com humanidade e coragem de quem está marcado por muita dor e desespero, mantendo a esperança viva. Orar para se ser sentinelas capazes de discernir e fazer opções orientadas para o bem. A oração toca o coração e impele a ações concretas, a ações inovadoras, corajosas, que sabem assumir o risco, confiando no poder de Deus.

A memória litúrgica de Santa Bakhita é um apelo forte a esta dimensão da fé e da oração: o seu testemunho ecoa sempre vivo e atual. E é um apelo a colocar no centro as pessoas traficadas, as suas famílias, as suas comunidades. São elas o centro da nossa oração. Santa Bakhita recorda-nos que elas são as protagonistas desde Dia, e que todos nós estamos ao serviço.

E agora gostaria de partilhar alguns pontos de reflexão e de ação (…). Uma economia sem tráfico é:

1. Uma economia do cuidado. O cuidado pode ser entendido como cuidar das pessoas e da natureza, oferecendo produtos e serviços para o crescimento do bem comum. Uma economia que cuida do trabalho, criando oportunidades de emprego que não exploram o trabalhador através de condições de trabalho degradantes e horários extenuantes. A pandemia do Covid exacerbou e agravou as condições de exploração laboral; a perda de postos de trabalho penalizou muitas pessoas vítimas do tráfico em processo de reabilitação e reinserção social. «Nestes momentos, nos quais tudo parece dissolver-se e perder consistência, faz-nos bem apelar à solidariedade que deriva do saber-nos responsáveis pela fragilidade dos outros, procurando um destino comum» (“Fratelli tutti”). Portanto, economia do cuidado significa economia solidária: trabalhemos para uma solidez que se conjuga com a solidariedade. Estamos convencidos que a solidariedade, bem administrada, dá lugar a uma construção social mais segura e mais firme.

2. Uma economia sem tráfico é uma economia com regras de mercado que promovem a justiça, e não exclusivos interesses particulares. O tráfico de pessoas encontra terreno fértil na elaboração do capitalismo neoliberal, na desregulamentação dos mercados que visa maximizar os lucros sem limites éticos, sem limites sociais, sem limites ambientais. Se se segue esta lógica, existe apenas o cálculo de vantagens e desvantagens. As opções não se fazem com base nos critérios éticos, mas secundando os interesses dominantes, muitas vezes habilmente revestidos com uma aparência humanitária ou ecológica. As opções não se fazem olhando para as pessoas: as pessoas são um dos números, também a explorar.

3. Por tudo isto, uma economia sem tráfico é uma economia corajosa – requer coragem. Não no sentido da ausência de escrúpulos, das operações temerárias em busca de lucros fáceis. Não, nesse sentido não; naturalmente, não é a coragem que isto nos exige. Pelo contrário, é a audácia da construção paciente, da programação que não olha sempre e só para a vantagem a curtíssimo prazo, mas para os frutos a médio e longo prazo, e, sobretudo, às pessoas. A coragem de conjugar o legítimo lucro com a promoção do emprego e de condições dignas de trabalho. Em tempos de forte crise, como a atual, esta coragem é ainda mais necessária. Na crise o tráfico prolifera, todos o sabemos: vemo-lo todos os dias. Na crise o tráfico prolifera; por isso é preciso reforçar uma economia que responda à crise de maneira não míope, de maneira durável, de maneira sólida.


 

Papa Francisco
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: oleksandr.zaiats/Bigstock.com
Publicado em 08.02.2021

 

 
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