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«O tempo da crise é um tempo do Espírito»: Papa convida a olhar para a Igreja com esperança e sem conflitos

Pandemia, fome, abusos sobre o ser humano e a natureza: no mundo e na Igreja não faltam motivos de grave preocupação quanto ao futuro, mas as crises não totalizam a realidade, e um olhar que apenas se centre nelas é parcial, estorva a ação do Espírito e impede que morra o que tem de morrer, para dar lugar à novidade: estas foram algumas das acentuações que o papa apresentou hoje, no discurso aos membros da cúria da Santa Sé, a quem ofereceu dois livros – um sobre a vida do Beato Charles de Foucauld –, alertou para as consequências dos conflitos que atravessam a Igreja (divisão, polarização e traição à sua natureza), e vincou a necessidade de rezar sempre e mais.

As «crises causadas pelos escândalos de ontem e de hoje», que têm constituído «uma grande ocasião» para a Igreja se converter e recuperar a sua «autenticidade», não podem ser o critério único para, «precipitadamente», a julgar.

«Quantas vezes (…) as nossas análises eclesiais parecem descrições sem esperança. Uma leitura da realidade sem esperança não se pode chamar realista. A esperança dá às nossas análises aquilo que muitas vezes o nosso olhar míope é incapaz de captar», apontou Francisco.

A par dos «problemas» coexiste «o testemunho vivo de que o Senhor não abandonou o seu povo, com a única diferença de que os problemas vão parar imediatamente aos jornais, enquanto os sinais de esperança fazem notícia só depois de muito tempo e… nem sempre».



«A novidade introduzida pela crise querida pelo Espírito nunca é uma novidade em contraposição ao antigo, mas uma novidade que germina do antigo e o torna sempre fecundo»



A avaliação da realidade implica que seja lida «à luz do Evangelho» - caso contrário, não é mais do que «a autópsia dum cadáver» -, até porque ele «é o primeiro» que coloca «em crise» quem o segue.

«Se reencontrarmos a coragem e a humildade de dizer em voz alta que o tempo da crise é um tempo do Espírito, então, mesmo no meio da experiência da escuridão, da fraqueza, da fragilidade, das contradições, da confusão, já não nos sentiremos esmagados, mas conservaremos sempre a confiança íntima de que as coisas estão prestes a assumir uma forma nova, nascida exclusivamente da experiência duma graça escondida na escuridão», frisou.

Crise, advertiu o papa, quer dizer conflito, que «cria sempre um contraste, uma competição, um antagonismo aparentemente sem solução, entre sujeitos que se dividem em amigos a amar e inimigos a combater, com a consequente vitória de uma das partes», e que arrasta comportamentos como «a murmuração, a maledicência», que fecha quem as ama «na mais triste, desagradável e sufocante autorreferencialidade».

«Lida com as categorias de conflito – direita e esquerda, progressista e tradicionalista –, a Igreja divide-se, polariza-se, perverte-se e atraiçoa a sua verdadeira natureza: é um Corpo perenemente em crise, precisamente porque está vivo, mas não deve tornar-se jamais um Corpo em conflito com vencedores e vencidos, pois deste modo semeará temor, tornar-se-á mais rígida, menos sinodal, e imporá uma lógica uniforme e uniformizadora, muito distante da riqueza e pluralidade que o Espírito deu à sua Igreja», declarou.



«Tudo aquilo que de mau, contraditório, fraco e frágil se manifesta abertamente, lembra-nos ainda mais intensamente a necessidade de morrer para um modo de ser, raciocinar e agir que não reflete o Evangelho»



Para Francisco, «a novidade introduzida pela crise querida pelo Espírito nunca é uma novidade em contraposição ao antigo, mas uma novidade que germina do antigo e o torna sempre fecundo».

Os católicos não podem «negar a evidência» de tudo o que neles e nas suas comunidades de fé «é afetado pela morte e precisa de conversão», para que se consolide «o dom da humildade do serviço», a fim de que Deus «cresça» e os crentes, «servos inúteis», diminuam.

«Tudo aquilo que de mau, contraditório, fraco e frágil se manifesta abertamente, lembra-nos ainda mais intensamente a necessidade de morrer para um modo de ser, raciocinar e agir que não reflete o Evangelho. Só morrendo para uma certa mentalidade é que conseguiremos também abrir espaço à novidade que o Espírito suscita constantemente no coração da Igreja», referiu.

Se a crise não é sinónimo de conflito, implica, todavia, «uma justa exigência de atualização», que, para se concretizar, requer «a coragem duma disponibilidade sem limites», porque «há que deixar de pensar na reforma da Igreja como remendo dum vestido velho ou mera redação duma nova constituição apostólica».



«Não podemos ver o rosto de Deus, mas podemos experimentá-lo ao olhar para nós quando honramos o rosto do próximo, do outro que nos ocupa com as suas necessidades»



Depois de salientar que «nenhuma modalidade histórica de viver o Evangelho esgota a sua compreensão», o papa questionou: «Como comportar-nos na crise?»: «Antes de mais nada, aceitá-la como um tempo de graça que nos foi dado para compreender a vontade de Deus sobre cada um de nós e a Igreja inteira».

«Não devemos cansar-nos de rezar sempre. Não conhecemos outra solução para os problemas que estamos a viver, senão a de rezar mais e, ao mesmo tempo, fazer tudo o que nos for possível com mais confiança. A oração permitir-nos-á ter esperança, para além do que se podia esperar», assinalou.

Após apelar a «uma grande paz e serenidade», Francisco recordou que «só conhece verdadeiramente a Deus quem acolhe o pobre que vem de baixo com a sua miséria e que, precisamente nessas vestes, é enviado do Alto».

«Não podemos ver o rosto de Deus, mas podemos experimentá-lo ao olhar para nós quando honramos o rosto do próximo, do outro que nos ocupa com as suas necessidades», afirmou.

Como presente natalício, o papa ofereceu aos membros da cúria um livro sobre a vida de «um mestre da crise», o Beato Charles de Foucauld, cuja canonização está decidida, com data a anunciar, e a obra “Olotropia: os verbos da familiaridade cristã”, de Gabriele Maria Corini.


 

Rui Jorge Martins
Fonte (texto e imagem): Sala de Imprensa da Santa Sé
Publicado em 21.12.2020

 

 
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