Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Descontraia e mergulhe na arte: O “Slow Art Day” está a chegar

Onde um protesto contra o McDonald's gerou o movimento “Slow Food”, uma grande exposição inspirou a resistência “Slow Art”. Qualquer pessoa que tenha visitado uma exposição “única na vida” estará familiarizada com a rotina esgotante: filas na entrada, empurrões entre as multidões diante das obras-primas, combate contra os níveis de energia que decrescem, precisamente no sentido inverso da frustração. Se no museu é permitido fotografar, acrescentem-se os bastões para as “selfies” e as poses para o Instagram.

A iniciativa global de museus denominada “Slow Art Day” pretende ser uma ação «contracultural em relação ao “smartphone” e o seu crescente domínio na cultura, mas também face a exposições com obras-primas e o foco nos números dos visitantes», explica Phil Terry, empresário norte-americano de comércio eletrónico que fundou o evento anual em 2009.

A ideia germinou durante a visita de Terry à exposição “Action/Abstraction” no Museu Judaico de Nova Iorque, no ano anterior, quando decidiu passar uma hora inteira com a pintura Fantasia (1943), de Hans Hofmann. «No final da hora, eu estava energizado, recorda. «Essas microexperiências podem ser transformadoras e vão muito, muito mais fundo do que uma olhadela rápida.»

Os encontros dos visitantes dos museus com a arte são geralmente breves - um tempo médio de visualização de 28,6 segundos por obra, de acordo com um estudo de 2017 de Jeffrey e Lisa Smith e Pablo Tinio no Instituto de Arte de Chicago. Esse período inclui a leitura da descrição e, para «uma grande percentagem de visitantes», tirar “selfies”, notaram.



O processo focaliza a atenção no momento, e não em ideias ou pensamentos externos, aliviando, potencialmente, a ansiedade. Além dos eventuais benefícios para a saúde, o formato permite que aqueles sem conhecimento histórico de arte construam a sua «confiança e interesse na observação»



O formato do “Slow Art Day” desenvolvido por Terry e a sua equipa de voluntários convida o público a contemplar cinco obras de arte – escolhidas pelos museus participantes no projeto – durante dez minutos cada, e reunir depois para discutir a experiência. São 94 as instituições que integram a iniciativa deste ano, marcada para o próximo sábado, 6 de abril.

Na última década, a “comunidade” do “Slow Art Day” organizou mais de 1500 eventos em todos os continentes (incluindo a Antártida), além de promover atividades de paralelas que envolvem dança, música e meditação. A iniciativa anual é «uma ideia “open source"», que eventualmente «pode ​​simplesmente desaparecer por termos cumprido os nossos objetivos de apoiar e provocar museus a fazer isso por conta própria», refere Phil Terry.

O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, por exemplo, tem acolhido mensalmente, desde 2016, as “manhãs tranquilas”, em que as pessoas podem explorar as galerias à vontade, seguindo-se por uma sessão de meditação orientada.

Incentivada pela «resposta positiva» ao seu dia da arte lenta do ano passado, a Tate Modern, de Londres, introduziu percursos “slow looking” da atual exposição de Pierre Bonnard (patente até 6 de maio), diz uma porta-voz, acrescentando que «as complexas paletas de cores e o incomum sentido de composição» do artista «recompensa um escrutínio próximo e extensivo».



O museu e parque de esculturas de Glenstone, nos EUA, reflete o princípio de que um «ambiente calmo, sem pressa e espaçoso» produz «experiências mais significativas com a arte»



Para Rebecca Chamberlain, professora de psicologia da universidade Goldsmiths, que guiou o primeiro percurso, esgotado, do museu londrino, o mês passado, a lentidão no olhar «cruza-se com conceitos em torno do mindfulness [treino mental que ensina as pessoas a lidarem com os seus pensamentos e emoções] e do bem-estar». O processo focaliza a atenção no momento, e não em ideias ou pensamentos externos, aliviando, potencialmente, a ansiedade. Além dos eventuais benefícios para a saúde, Terry argumenta que o formato, em última análise, permite que aqueles sem conhecimento histórico de arte construam a sua «confiança e interesse na observação».

Os roteiros do museu Tate, realizados após o horário normal de funcionamento, estão atualmente disponíveis para um máximo de 45 pessoas. Essas condições contemplativas são naturalmente incompatíveis com a maioria das prioridades dos museus para gerar rendimento.

O museu e parque de esculturas de Glenstone, perto de Washington, capital dos EUA, reflete o princípio de que um «ambiente calmo, sem pressa e espaçoso» produz «experiências mais significativas com a arte», afirma a sua diretora e co-fundadora, Emily Rales. Estão disponíveis 400 bilhetes por dia na internet, e as fotografias nos espaços fechados não são permitidas. Até agora, «a procura superou em muito as expectativas», assinala a responsável.

Em Florença, as galerias Uffizi introduziram medidas para melhorar - e prolongar - a experiência do visitante. Reduzir as filas, com horas de duração, para a entrada e evitar os estrangulamentos em torno das pinturas mais significativas têm sido prioridades «fundamentais», aponta Eike Schmidt, diretor do museu desde 2015. Uma melhor disposição das salas Botticelli e Leonardo «significa que as pessoas automaticamente dispersam melhor», acrescenta.

Bilhetes mais baratos no inverno, bem como uma nova sobretaxa de 70 € para grandes grupos, visam desencorajar as visitas rápidas que ocorrem na temporada alta, «que normalmente ficam por meia hora».


 

Hannah Mcgivern
In The Art Newspaper
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 01.04.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos