

«O homem não se contenta em ser o animal mais estúpido da criação; ainda para mais permite-se ser o único ridículo.»
Augusto Monterroso foi um escritor hondurenho que nasceu em 1921, viveu na Guatemala e no México e morreu em 2003. Do pouco que li dele fiquei conquistado não só pela ironia cortante e incisividade, mas também pelo profundo espírito moralista que é típico dos verdadeiros escritores humoristas.
Escolhi uma frase forte do seu livro “O resto é silêncio”, um título inspirado em Shakespeare. Este aforismo permite-nos uma consideração óbvia mas que é sempre frutuosa: nunca é demais, seja para quem for, a vigilância ou a autocrítica ou o controlo para não cair no ridículo, condição que ronda sempre o nosso agir.
Na raiz desta atitude devastadora há uma mistura explosiva que muitas vezes manipulamos alegremente, convencidos de que ela não é uma das nossas características, e assim trocamo-la por outro produto: a soberba misturada com a estupidez, que é irresistível para gerar o ridículo.
O italiano Giacomo Leopardi (1798-18379, nos seus “Pensamentos”, observava, mais pacatamente, que «as pessoas não são ridículas a não ser quando querem parecer ou ser aquilo que não são».
Infelizmente, a tentação do pavonear-se, alimentada pelo orgulho e exaltada pela idiotice, torna a pessoa ingénua, a tal ponto que a expõe aos resultados mais patéticos (comiseração e irrisão entretecem-se diante de tais atitudes).
Devemos, então, renovar a cada dia o nosso pequeno arsenal de autocrítica, de domínio de si, de reflexão, conscientes também de um outro dito de Monterroso: «É verdade que a carne é fraca; mas não sejamos hipócritas: o espírito é-o muito mais».