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O que fazer de abril

Abril é um mês repleto de promessas. Rompe com a longa solidão a que o inverno votou a paisagem. O mês de abril desmente a terra morta, infundindo energia às raízes agonizantes, nutrindo os tubérculos ressequidos, tornando-os cúmplices da grande insurreição que a natureza, em pleno reflorescimento, celebra.

O inverno tinha tornado a paisagem seca e monocolor como uma canção atonal. O gelo impôs por todo o lado a mesma e circunspeta área uniforme.

É verdade: o inverno não é um pintor meticuloso, não se perde nas variações, não anota a singularidade, mas ocupa-se dos pequenos detalhes, não parece deixar-se iluminar pelo intenso brilho de certas casualidades de que o mundo natural é pródigo. O estilo do inverno são as pinceladas amplas e contínuas, propositadamente do mesmo tom.

Por isso, quando vem abril, que traz o maravilhamento à terra, encantando-a com ondas de cores que os trinares dos pássaros festejam sonoramente, damo-nos conta de que está a começar alguma coisa de novo.

Mas nem sempre é assim. É este o motivo da famosa advertência que nos é feita pelo verso de Thomas S. Eliot quando recorda que «abril é o mais cruel dos meses». Os bolbos deixam-se enganar pelo sol e florescem antes do tempo, ignorando toda a chuva que ainda está para chegar. Abril será o mês mais cruel, se não for o lugar em que os sonhos se tornam realidade.


 

D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Kotenko/Bigstock.com
Publicado em 03.04.2019

 

 
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