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O princípio da paz e o valor da guerra: O papel da Teologia

A proximidade física da guerra tem como efeito despertar a inteligência humana para o perigo que esta, sempre e independentemente de tal inteligência tem. A guerra interessa verdadeiramente apenas aqueles que a vivem, por mais que os outros, nela eruditos ou dela ignorantes, afirmem. O mundo nunca conheceu outra realidade senão a da guerra, variegadamente concretizada. Será vão procurar um único dia em que tal modo de vida não se tenha registado, imposto. Se não tiver sido aproximadamente mundial, foi geograficamente tópica tal presença; no mínimo, na relação de violência entre dois seres humanos em que um agride o outro. Neste ato, a guerra está presente.

Ora, a guerra é todo o ato de violência entre seres humanos, ato que retira possibilidades próprias ao agredido em benefício, efémero ou duradouro, do agressor. Não é preciso uma Segunda Grande Guerra para que a guerra impere, basta que Caim violente, aniquilando, Abel, no símbolo máximo do que é o acto de guerra.

Todavia, mesmo sem perceber esta essencial substância do ato de guerra, habitualmente repetindo acefalamente as posições do teórico da carne para canhão, General Carl von Clausewitz, muitos se pronunciam sobre a guerra, guerra que nunca conheceram, guerra que pensam através de paradigmas teóricos inapropriados e não experimentados na e pela sua carne.



Baseando-se a Teologia cristã em Cristo como seu paradigma, é Cristo quem constitui o princípio de possível análise antropológica, ética e política para a guerra. Não há outro, não pode haver outro



Em contracorrente de inabilidade, ouçamos dois breves pedaços de pensamento de um homem que conheceu intimamente a guerra, em que matou, em que salvou vidas, conhecimento que lhe outorgou uma capacidade invulgar para intuir estrategicamente possibilidades e finalidades, mesmo do inimigo. Inimigo, pois, na guerra não há, como estultamente se diz, «adversários», há inimigos, que são esses que desejam e querem a aniquilação dos que como, precisamente, «inimigos» elegem, mesmo que estes nunca queiram ser eleitos como tais.

Trata-se do velho Winston Churchill, o mesmo homem que comparou o pensamento e a vida do grande Soldado Sócrates de Atenas a «dinamite intelectual» (CHURCHILL Winston, My early life, London, Eland, 2000).

A primeira afirmação, que recolhemos da obra que sua neta Celia Sandys dedicou ao avô, reza assim, significativamente: «Ah, terrível guerra, espantosa mistura de glória e de imundície, de coisas miseráveis e sublimes, se os modernos líderes esclarecidos te conhecessem mais de perto, os homens simples dificilmente te voltariam a ver» (SANDYS Celia, Winston Churchill pela sua neta Celia Sandys, Lisboa, Aletheia Editores, 2006, p. 27).

O teor do que é afirmado dispensa comentário. Basta pensar nas imagens e sons que nos chegam da guerra de agressão da Rússia de Putin à Ucrânia para se perceber o quanto tal afirmação é profundamente correta. Falta-nos, ainda, o pestilento cheiro da guerra, sobretudo o do cheiro dos cadáveres em decomposição, dos cadáveres queimados. Quem disse que a guerra é bela?



A figura de Cristo surge não como um fraco com medo de agir com a força necessária e suficiente, mas, na fragilidade carnal de um contra muitos, a grandeza divina de quem sabe o que tem de ser feito para que a perversão não triunfe, a imundície não afogue o mundo



A segunda afirmação corresponde a um lema principial usado pelo Velho cão de guarda da democracia no frontispício das suas vastas memórias sobre a Segunda Guerra Mundial, lema que é todo um programa de paz construída sobre a morte das guerras que se é obrigado a travar. Reza assim: «In war: resolution; In defeat: defiance; In victory: magnanimity; In peace: goodwill».

Que relação há entre tudo isto e a Teologia e a guerra?

Princípios.

O lema da Teologia foi posto, definitivamente, por Santo Anselmo de Cantuária, como título de uma sua obra mais conhecida como Proslogion (ANSELME DE CANTORBÉRY, Monologion. Proslogion, introductions, traduction et notes par Michel Corbin, s. j., Paris, Les Éditions du Cerf, 1986, «Proémio» do Proslogion, p. 230 para a versão latina e p. 231 para a tradução francesa) : «fides quarens intellectum». A fé em busca da inteligência; leia-se a fé em busca do sentido profundo de isso em que se acredita: é esse sentido que é o fim quer da Teologia quer – pois esta última é apenas sua serva – da vida e do bem do crente.

Como é evidente, das quatro breves máximas de Churchill, a que marca o cerne lógico da visão de bem do mundo que implicam é a última: «na paz, boa vontade». Aliás, a expressão é redundante, pois, como resultado efetivo, concreto, não há como distinguir entre a boa vontade em ato e a paz que de tal ato resulta. Evidentemente, há outras Teologias, mas, em termos da Teologia cristã, o paradigma de boa vontade é o próprio Cristo, resultando da sua ação, sempre, paz.



Sendo antitética da paz, a guerra só permite a paz se ela própria for aniquilada. Assim sendo, para que haja paz, a guerra tem de ser totalmente eliminada



Ora, Cristo, não apenas a sua pessoa estaticamente entendida, como se fosse um intocável paradigma transcendente – Cristo era também de carne – mas, sobretudo, na sua pessoa em ato, como ato, constitui um princípio antropológico, ético, político de ação. Baseando-se a Teologia cristã em Cristo como seu paradigma, é Cristo quem constitui o princípio de possível análise antropológica, ética e política para a guerra. Não há outro, não pode haver outro. Nem Sun Tzu nem Clausewitz servem.

Ora, Cristo é o ato humano não apenas contrário, mas contraditório ao ato de guerra. Toda a sua ação, cujo relato chegou até nós, mostra um homem que nunca agiu senão como em boa-vontade. Nunca agiu com violência. Mesmo a famosa, mas incómoda, cena evangélica em que expulsa os vendilhões do Templo de Jerusalém, local sagrado em que nunca deveriam ter estado, não tem qualquer violência, apenas a força necessária para que algo que nunca deveria ter acontecido fosse anulado. Começa-se por um ato de procura de persuasão; termina-se com um ato de força, usando apenas a necessária para que o ato necessário se cumpra.

A figura de Cristo, cumprindo neste ato uma liturgia fundamental como mostração da necessidade de separação entre o sagrado-divino e o profanante, entre o bem e a sua perversão prostituinte, surge não como um fraco com medo de agir com a força necessária e suficiente, mas, na fragilidade carnal de um contra muitos, a grandeza divina de quem sabe o que tem de ser feito para que a perversão não triunfe, a imundície não afogue o mundo. Lembre-se que «imundo» é o antitético de «mundo», caos na vez de cosmos.

Cristo é o cosmos.



A Teologia deve sempre lembrar e relembrar incessantemente, não os valores pelos quais se faz a guerra, sempre relativos, dependentes de acidentalidades culturais, valores folcloricamente interessantes, todavia antropologicamente fomentadores de movimentos de agressão ao diferente, mas os princípios sobre os quais a humanidade se pode erguer como um todo, com tempo e lugar para todos



A guerra, por contraste, é, senão o caos, a sua precursora, o negativo monstro que abre o caminho ao absoluto da desordem. Não há como negar esta evidência: a guerra, deixada entregue a si própria, à sua dinâmica e cinéticas próprias, tem como fim a destruição de tudo. Se nunca se parar uma guerra, começada algures no tempo e no espaço, algures no mundo, aquela destruirá este.

Percebendo tal, pode perceber-se, então, que a guerra não pode ser solução para coisa alguma. A ilusória perspetiva psicológica de que começando uma guerra se vai resolver seja o que for pode bem acabar por se transformar na bem real angústia da expectativa de uma total aniquilação de tudo o que constitui o mundo como ordem.

A guerra funciona por princípios e apenas por princípios. Os princípios são realidades puramente objetivas, totalmente independentes da humana subjetividade. O primeiro e fundamental princípio consiste em que havendo guerra, a paz é posta totalmente em suspenso: é a lógica inexorável da guerra que impera. Não há e não pode haver, como estultamente se diz, ‘lugares de paz’ no meio de uma guerra: esta põe sempre em causa toda a realidade, toda a vida e, quando se pensa que se está efemeramente em paz, logo a guerra surpreende e aniquila tal ilusão, aniquilando os iludidos.

Segundo princípio: sendo antitética da paz, a guerra só permite a paz se ela própria for aniquilada. Assim sendo, para que haja paz, a guerra tem de ser totalmente eliminada.



A guerra é a suprema injustiça para com os justos, para com os inocentes, por maioria de razão, pelo que é a suprema fonte de todos os males



Ora, como começou por se afirmar no início desta reflexão, tal nunca sucedeu: a guerra nunca foi eliminada, o que implica que nunca tenha havido verdadeiramente paz. Esta triste evidência ajuda a perceber o que se pode entender como finalidade de algo de tão belo como a «cidade de Deus», de Santo Agostinho», único «topos», único lugar, único tempo, único acto de paz. Lugar e ato possível, mesmo no mundo do movimento, mas impossível sem que a guerra termine, sem que a aludida «boa-vontade» em acto indefectível triunfe.

Terceiro princípio fundamental: a guerra nasce sempre no seio da interioridade ética do ser humano (devemos este princípio a Platão, expresso na sua República) (PLATÃO, República, «Livro II», cota 373d-e). Não há e não pode haver qualquer ato de guerra se não houver vontade humana que o ponha, precisamente em ato. Quando avanço para violentar o outro e o violento, eis a origem e causa real do ato de guerra.

Todavia, a menos de postular um caso de esquizoidia em que, desdobrado interiormente, um ser humano se agrida como quem agride um outro – e, ainda assim, trata-se de um desdobramento político interno – o ato de guerra é sempre, também e necessariamente, um ato intrinsecamente político, pois tem de se dar na relação entre dois ou mais seres humanos, âmbito próprio da política.

Quarto princípio: este ato de agressão de origem ética e realização política, tem sempre como fim apoderar-se o agressor de um qualquer bem do agredido (quem estabelece este princípio é também Platão, na mesma obra e lugar). Não interessa que bem é; interessa que tal bem é ontologicamente próprio do agredido e não do agressor. Este, ao apropriar-se de tal bem – ou ao tentar, simplesmente –, está a literalmente roubar bem a esse a quem agride, assim lhe limitando as possibilidades próprias. No limite, esta limitação pode ser levada ao extremo de se roubar todas as possibilidades ao agredido, caso da sua aniquilação.



Em situação de guerra, a Teologia não deve apoiar a guerra, mas os que, nela, lutam pela paz, orientando-os no penoso e extremamente difícil caminho de lutar sem exercer violência



Quinto princípio: se os quatro princípios se não verificarem, não se está perante guerra. Todavia, se se verificarem, e, quando se verificam, verificam-se sempre em concomitância, está-se perante guerra, independentemente das designações que sejam a tal atribuídas.

Então, que responsabilidades tem a Teologia relativamente à guerra?

Muitas, não cabendo nesta breve reflexão pensar todas. Ainda assim, algumas linhas de orientação podem ser adiantadas, breve e superficialmente.

A Teologia nunca deve defender a guerra, pois, tal defesa significaria defender, no limite, a destruição da humanidade e, com ela, do mundo, pois o mundo, como unidade de sentido actual e possível, só se dá como ato de humana inteligência. Tal defesa revelar-se-ia, assim, blasfema, pois antitética da acção de Deus, que criou o mundo não para que se destrua, mas para que evolua, progrida, no sentido o mais próximo possível do que Agostinho intuiu como «cidade de Deus».

A Teologia deve sempre defender a paz, não como derrota dos justos ou submissão destes a tiranos e seus sequazes, mas como universal – em grego diz-se «católica» – ação humana segundo a boa-vontade. Em situação de guerra, não deve apoiar a guerra, mas os que, nela, lutam pela paz, orientando-os no penoso e extremamente difícil caminho de lutar sem exercer violência, como Cristo na cena dos vendilhões.



A Teologia tem como obrigação estar do lado de Deus, e dos Homens, contras as bestas. Sem violência



A Teologia deve sempre lembrar e relembrar incessantemente, não os valores pelos quais se faz a guerra, sempre relativos, dependentes de acidentalidades culturais, valores folcloricamente interessantes, todavia antropologicamente fomentadores de movimentos de agressão ao diferente, mas os princípios sobre os quais a humanidade se pode erguer como um todo, com tempo e lugar para todos, como se diz na Escritura: os Homens de boa vontade.

Por fim, relembre-se que, para lá dos sempre perversamente agradáveis pormenores psicológicos do foguetório mítico-ritualista do episódio-limite de Sodoma e Gomorra, estas cidades se auto-aniquilaram porque nelas não havia justos. Tal evidência mítica, mas com a leitura racional segundo a qual não há cidade sem justiça, é paradigma definitivo do que sucede a uma sociedade em que a boa-vontade foi aniquilada, não por Deus ou por um extraviado anjo qualquer, mas pelos próprios Homens.

A guerra é a suprema injustiça para com os justos, para com os inocentes, por maioria de razão, pelo que é a suprema fonte de todos os males. Começou simbolicamente com Caim. Terminará realmente com a aniquilação da humanidade.

O dever da Teologia é lutar contra os valores da guerra em nome dos princípios da paz, divino transcendental ignorado, mas único que nos permite viver como Homens e não como bestas. A Teologia tem como obrigação estar do lado de Deus, e dos Homens, contras as bestas. Sem violência.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Fonte:
Imagem: palinchak/Bigstock.com
Publicado em 14.09.2022

 

 
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