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Televisão: “O nosso planeta”

A natureza, com o seu miraculoso espetáculo, é a protagonista absoluta de “O nosso planeta”, série de oito documentários realizada em colaboração com o World Wild Fund e disponível na Netflix. Uma natureza que ainda respira, mesmo ferida e sofredora, e ainda encanta, sustêm a respiração e fala-nos, gritando indefesa o esplendor da flora e da fauna do planeta, a sua fértil relação, a sua importância para nós, humanos distraídos, no melhor dos casos, facilmente encadeados por modelos de desenvolvimento e de felicidade indiferentes às antigas e preciosas leis da natureza.

Talvez a beleza da criação mostrada nesta série narrada pelo naturalista e divulgador científico inglês David Attenborough não chegue para alterar o deplorável e louco agir do nosso tempo, mas certamente ver tão de perto, tão nitidamente, a perfeita maravilha que nos foi dada, toca o coração e desarma, pelo menos momentaneamente, o instinto bárbaro e pecaminoso de trair o belo ao qual desde sempre pertencemos, e que nos será sempre indispensável, quer o queiramos quer não.

Os primeiros planos sobre o ambiente de “Our planet” colhem os fragmentos de uma natureza ainda intacta, e a visão desta pureza educa o saudável desejo de proteger um tesouro fundamental para a nossa existência e para o nosso futuro. Ainda que o nosso planeta não estivesse em perigo, como ao contrário a voz narradora sublinha muitas vezes, descrevendo oceanos e desertos, florestas e pradarias, rios, lagos e glaciares, com tudo o que vive no seu interior, teríamos sempre o dever de proteger o lugar que nos hospeda, a nossa «casa comum», como a definiu o papa Francisco na encíclica “Laudato si’”, na qual reitera a necessidade de uma relação de reciprocidade responsável entre ser humano e natureza.



A par do rangido entre beleza e ameaça, entre harmonia e risco de destruição, é recordado o quanto a natureza é frágil mas também forte, quanto é resiliente e quão pouco tempo precisa, se ajudada, se sustentada, se amada e considerada amiga e aliada, a reencontrar vigor e fertilidade



«A casa comum e os seu inquilinos», refere na entrevista para o documentário “Papa Francisco – Um homem de palavra”, de Wim Wenders, «a mãe e os seus filhos, as duas coisas seguem juntas, a par», explica o pontífice, para uma relação da qual brota o nosso bem e que é também palavra-chave de “O nosso planeta”, cujas imagens, muitas vezes esplêndidas e algumas vezes dramáticas – obtidas em 50 países, com um trabalho que durou quatro anos –, mostram o contínuo estender de mão entre animais e plantas, entre vida e ambiente, e é uma troca de favores virtuosa e fecunda que diz respeito e põe em causa também o ser humano, porque a ele fornece benefícios vitais, como a água das cascatas do Iguaçu, por exemplo, na fronteira entre Brasil e Argentina, cuja extraordinária abundância depende da floresta húmida amazónica. Se desaparecesse, perder-se-ia um recurso hídrico fundamental para a humanidade. Por isso, somos instados a ser totalmente responsáveis quanto ao planeta, por isso somos chamados a uma cultura da natureza que nos falhou, e então as maravilhas filmadas em “O nosso planeta” por um lado emocionam e surpreendem, por outro são acompanhadas por um ensinamento vocal que fala das crises da biodiversidade e «explica aquilo que temos de fazer para preservar e garantir prosperidade à natureza e à humanidade».



É precisamente a natureza, com a sua energia recreativa, a dar-nos parte do otimismo perdido, a explicar-nos que ainda é possível mudar de trajetória, voltar a unir essa relação negligenciada, para dizer pouco, entre ela e nós



Di-lo a introdução que antecede cada capítulo desta viagem aos pontos mais extremos do planeta, ao longo do qual a harmonia dos cenários naturais é contrastada por um boletim médico alarmante: sobre a lírica da natureza, sobre as baleias e os baobás, sobre os corais e os elefantes, as sequóias, os narvais e as anchovas, sobre a areia, as águias e as rochas, sobre os cormorões, os orangotangos e os cães selvagens, sobre os animais de todos conhecidos e sobre os minúsculos e desconhecidos – mas igualmente importantíssimos – sopra um vento de angústia e de perigo que atravessa as florestas cada vez mais frágeis, as barreiras de coral e os seus preciosos ecossistemas ameaçados pelo aumento da temperatura nos nossos mares, os glaciares que se derretem, com efeitos letais para a vida a eles subordinada.

O exemplo mais dramático, aponta a espetacular série, são as muitíssimas morsas na costa norte oriental da Rússia, que durante o período estival, por falta de gelo, amontoam-se excessivamente uns sobre os outros, e alguns, em busca de espaço, sobem paredes rochosas de 80 metros de altura, de onde caem e morrem, por causa da sua escassa visão fora de água, quando, esfomeadas, querem voltar ao mar.

A par do rangido entre beleza e ameaça, entre harmonia e risco de destruição, é recordado o quanto a natureza é frágil mas também forte, quanto é resiliente e quão pouco tempo precisa, se ajudada, se sustentada, se amada e considerada amiga e aliada, a reencontrar vigor e fertilidade. E isto vale quer para o mar, com as reservas naturais, quer para a terra firme. “O nosso planeta” traz o exemplo de um lugar de todos conhecido por causa de um gravísismo desastre ecológico: Chernobyl, espaço declarado inabitável para os próximos 20 mil anos, e no entanto, obrigatoriamente desabitado pelo homem, voltou a ser, apenas 30 anos depois, território dominado pela natureza e habitado por uma comunidade selvagem florescente.

É precisamente a natureza, com a sua energia recreativa, a dar-nos parte do otimismo perdido, a explicar-nos que ainda é possível mudar de trajetória, voltar a unir essa relação negligenciada, para dizer pouco, entre ela e nós. É a própria natureza, com a sua capacidade de regenerar-se, a recordar-nos que «a humanidade – como escreve Francisco na “Laudato si’” – tem ainda a capacidade de colaborar para construir a nossa casa comum».








 

Edoardo Zaccagnini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Netflix | D.R.
Publicado em 23.05.2019

 

 

 
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