Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

O ministério da poesia

«Suporta, coração meu» (“Odisseia”). Assim Ulisses inicia um extraordinário monólogo consigo próprio. Após imensas peripécias, conseguiu regressar a casa, mas sente dentro de si o frémito da vingança, do massacre dos responsáveis, de todos aqueles que viveram durante anos agarrados à sua tragédia.

Homero coloca em cena algo de extraordinário, um diálogo interior: Ulisses (razão) fala a Ulisses (coração). A interioridade é a grande capacidade de saber entretecer um discurso consigo próprio. Já não são ajuda suficiente os simples raciocínios, é preciso algo que dê forma àquilo que trazemos dentro de nós.

A poesia torna-se assim o grito que sai do profundo da nossa experiência. Sem um alfabeto próprio, este grito permaneceria sufocado e tornar-se-ia angústia, violência, desejo de morte.

É por isso que os poetas são benfeitores, porque não estão no mundo para entreter com melíficas palavras, mas estão no mundo para emprestar as palavras certas a quem essas palavras não encontra e está condenado ao silêncio. A poesia é um ministério de humanização, é a voz que Ulisses encontra dentro de si para cantar o inapreensível da sua experiência.

Também nos nossos dias tristes e cansativos, da pandemia, aconteceu este milagre. Estávamos todos em apneia, assustados pelas mortes, as distâncias, o silêncio, a dor surda e incontrolável, compassados por boletins de guerra constantemente repetidos pela comunicação social.

Neste nosso tempo difícil só os poetas nos fizeram respirar porque deram a cada um o direito de chorar e pensar simultaneamente.

Foi o que aconteceu com uma poetisa italiana, Mariangela Gualteri, que nos meses mais escuros escreveu uma poesia, “9 de março de 2020”, realçando a dor e a lição que dela brotava. Uma espécie de profecia que sabia intuir a luz, o ouro, precisamente quando tudo era mais negro e mais absurdo:

«É portentoso o que acontece./ E há ouro, acredito, neste tempo estranho./ Talvez haja dons/ Pepitas de ouro para nós./ Se nos ajudarmos».

Em poucos dias as suas palavras deram a volta à internet com um passa-palavra que se tornava bálsamo para muitos. A poesia tornou-se assim a voz da interioridade, a voz de Ulisses que fala a Ulisses, e neste diálogo a possibilidade de escancarar o céu diante de um muro:

«Aquele aperto de uma palma com a palma de alguém/ aquele simples ato que nos é interdito agora/ - nós voltaremos com uma compreensão dilatada./ Estaremos aqui, mais atentos, acredito. Mais delicada/ a nossa mão estará dentro do fazer da vida./ Agora sabemos o quanto é triste/ estar distante um metro».


 

Luigi Maria Epicoco
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: CEW/Bigstock.com
Publicado em 23.07.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos