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Pré-publicação: "O mapa do tesouro"

Imagem Capa (det.) | D.R.

Pré-publicação: "O mapa do tesouro"

«Velejando pela memória cristã da cultura do Ocidente, o autor propõe, neste ensaio, um itinerário pelo oceano espiritual de cada leitor»: é com estas palavras que a Paulinas Editora apresenta o livro "O mapa do tesouro", de Gabriel Magalhães.

O autor dos romances "Não tenhas medo do escuro" (Prémio de Revelação da Associação Portuguesa de Escritores, na categoria de Ficção), "Planícies de espelhos", "Madrugada na tua alma" e "Restaurante canibal", e do ensaio "Como sobreviver a Portugal - Continuando a ser português", já tinha publicado outro volume de espiritualidade cristã, "Espelho meu", também na Paulinas Editora.

Gabriel Magalhães (Luanda, 1965) é professor de Literatura Espanhola, na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e de Filosofia Hispânica e Portuguesa, em Salamanca.

"O mapa do tesouro" estará nas livrarias na próxima segunda-feira, mas os leitores da página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura podem desde já ler alguns excertos, seguidos pelo vídeo de apresentação do livro.

 

O mapa do tesouro
Gabriel Magalhães

«Existem alturas na vida, momentos muito felizes, em que sentimos uma moeda de ouro a brilhar-nos na alma. Essa moeda somos nós, e, nessas horas, os sorrisos acontecem-nos na cara sem darmos por isso. Quem não experimentou uma emoção deste género na noite de Natal? Também o amor, quando surge, transforma-nos num baú de riquezas. Se estamos apaixonados, dir-se-ia que nos tornamos milionários. E as horas alegres com a nossa família, com os nossos amigos também têm por dentro um diamante a cintilar.
Então uma pessoa pensa: quem me dera que o Natal fosse para sempre; oxalá o amor não acabasse nunca; que maravilha se a amizade não tivesse fim. A maioria de nós, porém, com os anos vai aprendendo a tristeza. Onde havia Natal, ficamos a saber da morte: onde estava o amor, surge a desilusão; e a própria amizade dá lugar à desconfiança. A vida, que ao princípio era um conto de fadas, torna-se um filme de terror.
Devo dizer ao leitor o seguinte: na nossa existência, há um conto de fadas que é verdade. Todos são mentira, menos um. Existe uma história de encantar que se confunde com a realidade – que é, de facto, a realidade. E se conseguirmos entrar nesse sonho concreto, um sonho em que se pode tocar como se fosse a maçaneta de uma porta, seremos mais felizes do que as personagens dos contos infantis.»

 

«Estamos perante um volume de ensaios espirituais que se dirigem a dois tipos de pessoas: aos descrentes, para que reaprendam a acreditar; e aos crentes, para que acreditem a sério. Porque hoje há dois tipos de solidão: a daqueles que já não confiam em nada; e a daqueles que confiam sem confiar, que acreditam sem acreditar. A ideia é desenhar um mapa do tesouro que permita a cada um descobrir a riqueza de si próprio.»

 

«Esta é uma obra de inspiração cristã, mas aberta à espiritualidade universal. Escreve-se pelo simples facto de que, hoje em dia, se ensinam muitas coisas, mas ao mesmo tempo, cada vez se fala menos da alma. O homem contemporâneo tem-se tornado um bom gestor do seu corpo, que é para ele como uma conta bancária de calorias, que dá juros quando se fazem análises clínicas. Mas esse mesmo homem contemporâneo derrapa, e de que maneira, nas veredas interiores! A tal ponto que existe muita gente que já nem sabe em que lugar de si mesmo se apanha a autoestrada da alma que nos leva à alegria e à felicidade. Surgiu algo a que poderíamos chamar analfabetismo espiritual. Aqui fica, pois, esta rosa-dos-ventos, com um dos caminhos, dos muitos que há, para reaprendermos o abecedário do nosso íntimo. Lembre-se dessa moeda de ouro das noites de Natal. Isso que então sentiu é como uma casa onde poderá ficar a viver para sempre.»

 

«Quando eu próprio iniciei o caminho que o leitor estará porventura a encetar, cada passo custou-me, e vi-me rodeado por todo o tipo de dúvidas. Qualquer coisa por dentro nos diz: Não estarás a ser parvo ao acreditares no amor? Nos tempos da ciência e do conhecimento, como podes tu crer numa coisa dessas? Não vês que voltas para trás na história da humanidade, regressando à Idade Média?
Estas perguntas ecoam em nós, e o mais impressionante é que, num determinado momento, percebemos que elas visam acima de tudo fazer-nos regressar às emoções negativas e às falsas miragens que nos envenenavam os dias. Elas, simplesmente, tentam que o medo, a amargura ou o ressentimento permaneçam no nosso interior. Querem que nos mantenhamos egoístas, hipócritas, doentiamente afirmativos.»

 

«No momento em que dizemos «sim» ao amor, a nossa vida muda, e sobretudo os nossos olhos transformam-se. Porque quem observa o mundo amando lê na pauta da realidade a música de estarmos a ser amados. Antes de descobrirmos o amor, os nossos dias são um desenho por pintar; depois de nos afirmarmos como parte de um projeto amante, esse mesmo desenho de viver fica todo colorido.
Contudo, atenção: se não tivermos dito que amamos o amor, também somos amados. Acontece que, simplesmente, não vemos isso que nos quer bem. Deus ama todos os homens, mesmo aqueles que nada sabem, ou nada querem saber disso. O sol nasce cada dia sobre os justos e os injustos, e, quando a chuva cai, ela fertiliza tanto as vidas que acreditam no amor como aquelas que não acreditam.
A vida lembra um livro com imagens e texto. Quem não crê no amor, vai passando as páginas, entretendo-se com os desenhos. Mas quem acredita no amor, esse vê as gravuras, mas também é capaz de ler o que lá está. E acreditem que a vida se vive muito mais quando conseguimos decifrar o que nela está escrito, não nos limitando a olhar para ela como se fosse um filme sem legendas, falado numa língua estranha.»

 

«As flores de Deus passam a acontecer-nos nas jarras do quotidiano. Estamos a realizar o nosso trabalho e, de repente, temos diante de nós as camélias da alegria. Diante de nós ou na nossa alma: é como quiserem. Ou, então, encontramo-nos com a nossa família e, de súbito, toda a gente tem uma rosa na mão, uma rosa que não se vê mas está lá. Nessas alturas, devemos agradecer silenciosamente tais dádivas.
Por fim, chega um momento em que as margaridas de Deus alastram pela nossa vida toda, como se em nós tudo fosse primavera. De facto, com os anos, os sinais tornam-se mais pequenos, mas também mais amantes. Até os raios de Sol conversam connosco. Os dias, em vez de se erguerem como um muro contra o qual batemos, transformam-se numa varanda que dá para um diálogo.
Certamente, voltaremos a enganar-nos no caminho. Mas agora os regressos à via certa acontecerão de forma mais rápida do que no início. Um erro emendado pela segunda vez é mais simples de retificar do que quando pela primeira vez foi corrigido. De facto, as nossas falhas, contrariadas muitas vezes, vão-se tornando menos ásperas de combater. Pouco a pouco, aumentará a nossa constância no percorrer da vereda da nossa verdade.»

 

«Se é difícil e, ao mesmo tempo, maravilhosa a libertação por fora, mais difícil e fascinante se torna a libertação por dentro. De facto, somos escravizados pelas realidades exteriores, mas ainda o somos mais pelos labirintos do nosso íntimo. E as asas que abrimos no mundo só serão capazes de voar se tivermos abertas também as asas da nossa alma. Quem voa no seu âmago voa no seu entorno.
A primeira libertação interior é a da lixeira de todas as emoções que nos fazem mal e que são como serpentes a rastejar nos nossos azulejos íntimos: as víboras do medo; a cascavel do ódio e da raiva; a cobra píton da inveja, que estrangula a felicidade. Até as enguias da insegurança, que não são serpentes, nos fazem mal. Tudo isso nos ata porque os sentimentos negativos funcionam como cordas que nos amarram.
Na verdade, toda essa tralha emocional tem de ser varrida com a vassoura da nossa adesão ao amor. Quanto mais o amor nos invade, mais estas sombras interiores se esbatem.»

 

«No fundo, o amor ensina-nos que não é preciso pensar muito para pensar bem. Pelo contrário, aquilo de que precisamos é apenas de meditar limpamente, com reflexões feitas em paz, acontecidas no cristal da serenidade. Estar sempre a cismar acaba por destruir o pensamento. Transforma-o num estúpido jogo de cartas, em que o trunfo é o medo, ou outra qualquer emoção negativa que faz as nossas ideias rodopiarem sem parar.
Se é bom imaginarmo-nos livres das escravidões sociais, ainda melhor será sabermo-nos libertados destes tormentos íntimos. Destas aranhas interiores que vão de um lado para o outro no nosso espírito, tecendo as suas teias, em que ficamos presos. Termos emoções que sejam iguais ao curso de um rio e ao soprar da brisa numa tarde de verão; pensarmos com a imensa serenidade com que meditam as paisagens: haverá melhor do que isto?»

 

«Que bom não nos compararmos com os outros. Que delícia, também, não ardermos nas emoções negativas da nossa alma. Que maravilha ter o pensamento limpo como um cristal. Toda esta libertação íntima tem de ser feita com base na convicção do amor, na confiança no amor. É ele que varre do nosso interior o lixo emotivo e intelectual e nos possibilita a contemplação lúcida do mundo.
De resto, o amor também nos liberta do tempo. Livra-nos desse vespeiro de preocupações que costuma ser o futuro. De facto, para muitos de nós, o porvir funciona como um cenário de tempestades em permanente formação. Olhamos para o horizonte e vemos nuvens negras, umas sobre as outras.
Também o passado pode constituir para o nosso espírito uma obsessão: aquilo que aconteceu, e aquilo que podia ter acontecido. O que conseguimos, e tudo o que não se obteve. Há quem faça do que ficou para trás uma grande enciclopédia de tristezas. E o presente consiste em folhear esse calhamaço de melancolias.
Ora, o amor faz cicatrizar as feridas de outrora e ajuda a abrir em paz as portas de cada novo dia. E eis que o presente se torna uma pura maravilha. Os momentos que passam são como um copo de água fresca que se bebe numa tarde de verão. Pairamos, então, nessa ausência de tempo, que é própria da infância. E se quisermos que um minuto fique quase eterno, basta respirarmos de uma certa maneira. Todas estas liberdades são dadas pelo amor que nos ama, pelo amor que nós amamos.»

 

«Atravessar a dor, a dor de estudar, a dor dos exames, a dor das responsabilidades, faz-nos chegar a um país de pura paz. É esse o engano dos hedonistas contemporâneos: eles tentam fanaticamente permanecer no aquém do sofrimento de viver, quando a verdadeira solução consiste em passar para lá das nossas mágoas, atingindo assim um além que nos proporcionará, de facto, uma límpida felicidade.
A dor é, assim, como um cão que ladra: se fugirmos dele, o animal corre atrás de nós e acaba por nos morder a vida toda. Pelo contrário, se lhe fizermos frente, passamos para a outra margem, abandonando o mundo dos seus ladridos e encontrando uma rua de paz, por onde a nossa vida pode ser caminhada. Feliz daquele que consegue atravessar as suas mágoas porque, a seguir, vem a liberdade. Coitado daquele que não lhes faz frente.
Nesta ideia das coisas, que é a cristã, o sofrimento já não constitui um puro absurdo, como na visão da pessoa banal desta nossa atualidade. Pelo contrário, a dor serve para nos aperfeiçoar: abre-nos a porta do melhor que havia no nosso destino. E tudo isto acontece com a garantia de que o nosso sofrer será transitório: de que a mágoa acontece nos momentos, mas a alegria é que reina na eternidade.»

 

«Tal como há pessoas que costumam ir tomar café, do mesmo modo natural nós devemos ir ter com o amor que nos ama. Podemos fazê-lo ao meio-dia, enchendo de luz esse momento. Podemos também proceder assim logo de manhã, depois de acordarmos, e a nossa jornada principiará com um íntimo amanhecer. Se rezarmos ao cair da noite, tudo em nós se torna gratidão, perante esse dia vivido. Cada uma destas orações não constitui um imposto que se paga, mas sim um beijo que se dá.
Pouco a pouco, a oração vai aumentando a nossa têmpera. E o próprio ato de rezar se torna mais leve, mais respirado, mais dito ao ritmo do nosso coração. A partir de um certo ponto, se não fizermos as nossas preces quotidianas, sentimos que a nossa alma se turva, e qualquer coisa começa a escurecer dentro de nós. Voltamos então os nossos olhos de orar para o amor, e tudo o que somos de novo se ilumina.»

 

«É uma pena que muitos cristãos assistam à Missa num estado de sonolência, sem perceberem que toda a sua alma devia despertar ao longo da cerimónia. (…)
Chegamos agora ao grande momento. No altar, que recorda a mesa da ceia pascal, vai voltar a acontecer aquilo que se passou há cerca de dois mil anos. Jesus virá ter connosco, dentro de momentos. (…)
Todos os crentes, mesmo os mais sonolentos, sentem o prodígio deste instante, que ocorre durante a consagração. E, no momento em que se comunga, o milagre que se deu fica gravado na nossa alma. Esculpido no que somos. E cada participante é como um espelho onde se pode ver um lampejo divino. Se formos com regularidade à Eucaristia, a luz que nos habita cresce. Como se fôssemos uma vela que arde cada vez mais e melhor.
Quem estiver na Missa por mera convenção social, talvez seja preferível lá não ir. Porque é por amor, e só por amor e mais amor, que devemos frequentar a igreja. No entanto, em certas alturas da vida, pode ser que a Eucaristia aconteça em nós de um modo mais apagado. Não nos preocupemos, quando a nossa chama vacila: ponhamos a mão da paciência a protegê-la, e ela acabará por readquirir a sua vivacidade.»

 

«Sei perfeitamente que um dos sacramentos mais desprestigiados entre os católicos é a Confissão. Mas, se a prece pessoal e a Eucaristia constituem importantes ferramentas da alma, atividades que nos fortalecem, a reconciliação com o amor também o é. E a primeira coisa que devemos saber consiste no seguinte: ninguém deve ir confessar-se como quem se apresenta numa esquadra de polícia para se entregar às autoridades depois de ter cometido um crime. Isto representa uma maneira errada de percebermos o sacramento de Reconciliação.»

 

«A maior beleza do amor entre duas pessoas não é somente a meiguice em que se fundem, mas sim a emoção mais profunda de se sentirem amadas pelo universo inteiro. É bom o amor do outro, é bom também o movimento amante que a esse outro me liga, mas tudo isso vive embrulhado num imenso amor que está por todo o lado, a toda a volta desse nós nos amarmos. (…)
Quem casa por convenção social agradece às pessoas erradas: escreve ao mundo dos homens uma carta que só ao amor, só a Deus, devia ser remetida. E este desacerto inicial tem tendência a prolongar-se em mais equívocos ao longo da relação, até que esta acaba por derivar para o absurdo de si mesma. Pelo contrário, se alguém casa sabendo o papel que um amor maior desempenha na meiguice que o homem sente pela mulher, que a mulher sente pelo homem, vê a ternura do casal a que pertence fortalecer-se com o tempo.
De resto, o par que se formou transforma-se, ele próprio, numa pequena igreja de tantos afetos: um sítio onde o amor acontece cada dia, como uma missa privada. Não é obrigatório que toda a sociedade siga este modelo de encontro com o outro, que é também encontro com o absoluto. No entanto, interessa que saibam da felicidade desta vivência, mil vezes maior do que a do consumismo erótico. (…)
Vive, pois, as tuas relações como se fossem preces, como se fossem missas, pois elas funcionam como um complemento fundamental da tua vida espiritual. Todos os dias, o abraço que damos ao nosso cônjuge, antes de irmos trabalhar, reveste-nos de uma armadura que completa as orações quotidianas. E um beijo da nossa filha, do nosso filho, põe na nossa cabeça um elmo absolutamente indestrutível.»

 

«A nossa espiritualidade deve ser sempre mais milagre do que mágoa, mais ressuscitar do que morrer. Sem este estado de paz por dentro, algo está mal: provavelmente começamos a mergulhar nas tais patologias da alma. Assim, irradiando felicidade, convidamos quem connosco lida a sentir alegria, sossego, confiança. Não espalhemos, portanto, à nossa volta uma sombra progressiva, mas sim tudo acendamos com a luz mais clara.
O segundo critério que nos permite saber se erramos o caminho dos nossos percursos espirituais é a humildade. Porque quase todos os infernos da fé surgem quando uma alma se torna o orgulho de si própria. Quem esmaga os outros com base em preceitos religiosos está orgulhosíssimo das suas convicções. Quem pretende impedir as rotas mais irisadas do conhecimento, argumentando com a sua devoção fanática, revela ser igualmente um megalómano espiritual. E o mesmo se passa com aqueles que praticam a violência e a exclusão.»

 

«O leitor que se decidiu pelo amor não voltou para trás. Pelo contrário, readquiriu o único futuro que se nos depara. O único porvir que o Ocidente sempre teve. Podemos, pois, afirmar que a sua decisão não o coloca num outrora, numa espécie de museu de ideias antigas, mas posiciona-o naquilo que de melhor ainda virá a acontecer. Quem acredita no amor tem mais uma vida de futuros, do que de passados. (…)
Quem regressar ao amor, quem voltar à espiritualidade vivida livremente, própria do mundo ocidental, estará no lugar certo para batalhar pelo futuro de todos nós. De resto, aqueles que se decidirem por este retorno à sua alma têm muitas coisas que podem reviver: uma arte que seja a beleza de si própria, e não puro êxito comercial; uma ciência que seja busca da verdade, e não emprego ou carreira académica; uma ação política que seja demanda da justiça, e não cinismo individual alimentando-se do cinismo coletivo.»

 




 

Publicado em 06.10.2015

 

 

 
Imagem Capa | D.R.
Estamos perante um volume de ensaios espirituais que se dirigem a dois tipos de pessoas: aos descrentes, para que reaprendam a acreditar; e aos crentes, para que acreditem a sério. Porque hoje há dois tipos de solidão: a daqueles que já não confiam em nada; e a daqueles que confiam sem confiar, que acreditam sem acreditar. A ideia é desenhar um mapa do tesouro que permita a cada um descobrir a riqueza de si próprio
No momento em que dizemos «sim» ao amor, a nossa vida muda, e sobretudo os nossos olhos transformam-se. Porque quem observa o mundo amando lê na pauta da realidade a música de estarmos a ser amados. Antes de descobrirmos o amor, os nossos dias são um desenho por pintar; depois de nos afirmarmos como parte de um projeto amante, esse mesmo desenho de viver fica todo colorido
Se é difícil e, ao mesmo tempo, maravilhosa a libertação por fora, mais difícil e fascinante se torna a libertação por dentro. De facto, somos escravizados pelas realidades exteriores, mas ainda o somos mais pelos labirintos do nosso íntimo. E as asas que abrimos no mundo só serão capazes de voar se tivermos abertas também as asas da nossa alma. Quem voa no seu âmago voa no seu entorno
Que bom não nos compararmos com os outros. Que delícia, também, não ardermos nas emoções negativas da nossa alma. Que maravilha ter o pensamento limpo como um cristal. Toda esta libertação íntima tem de ser feita com base na convicção do amor, na confiança no amor. É ele que varre do nosso interior o lixo emotivo e intelectual e nos possibilita a contemplação lúcida do mundo
Atravessar a dor, a dor de estudar, a dor dos exames, a dor das responsabilidades, faz-nos chegar a um país de pura paz. É esse o engano dos hedonistas contemporâneos: eles tentam fanaticamente permanecer no aquém do sofrimento de viver, quando a verdadeira solução consiste em passar para lá das nossas mágoas, atingindo assim um além que nos proporcionará, de facto, uma límpida felicidade
Pouco a pouco, a oração vai aumentando a nossa têmpera. E o próprio ato de rezar se torna mais leve, mais respirado, mais dito ao ritmo do nosso coração. A partir de um certo ponto, se não fizermos as nossas preces quotidianas, sentimos que a nossa alma se turva, e qualquer coisa começa a escurecer dentro de nós. Voltamos então os nossos olhos de orar para o amor, e tudo o que somos de novo se ilumina
Sei perfeitamente que um dos sacramentos mais desprestigiados entre os católicos é a Confissão. Mas, se a prece pessoal e a Eucaristia constituem importantes ferramentas da alma, atividades que nos fortalecem, a reconciliação com o amor também o é. E a primeira coisa que devemos saber consiste no seguinte: ninguém deve ir confessar-se como quem se apresenta numa esquadra de polícia para se entregar às autoridades depois de ter cometido um crime
Vive as tuas relações como se fossem preces, como se fossem missas, pois elas funcionam como um complemento fundamental da tua vida espiritual. Todos os dias, o abraço que damos ao nosso cônjuge, antes de irmos trabalhar, reveste-nos de uma armadura que completa as orações quotidianas. E um beijo da nossa filha, do nosso filho, põe na nossa cabeça um elmo absolutamente indestrutível
A nossa espiritualidade deve ser sempre mais milagre do que mágoa, mais ressuscitar do que morrer. Sem este estado de paz por dentro, algo está mal: provavelmente começamos a mergulhar nas patologias da alma. Assim, irradiando felicidade, convidamos quem connosco lida a sentir alegria, sossego, confiança
O segundo critério que nos permite saber se erramos o caminho dos nossos percursos espirituais é a humildade. Porque quase todos os infernos da fé surgem quando uma alma se torna o orgulho de si própria
Quem regressar ao amor, quem voltar à espiritualidade vivida livremente, própria do mundo ocidental, estará no lugar certo para batalhar pelo futuro de todos nós. De resto, aqueles que se decidirem por este retorno à sua alma têm muitas coisas que podem reviver
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