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O imaginário Átrio dos Gentios com um ateu inquieto e um filósofo inspirado pelo cristianismo

Há mais de uma década que está em ação o Átrio dos Gentios, enquadrado no Conselho Pontifício da Cultura (um dicastério do Vaticano que, quando foi fundado por Paulo VI, era denominado “Para os Não Crentes”), dedicado ao diálogo entre pessoas que têm uma fé religiosa e outras que vivem sem referências transcendentes, mas com uma referência a valores humanos fundamentais. O nome, pretendido pelo papa Bento XVI, infere-se do espaço presente no templo de Jerusalém ao qual podiam aceder os “gentes”, os povos diferentes do judeu, por estes considerados idólatras, na prática ateus, apesar da óbvia pertença a uma outra fé.

Nesta página abrimos agora um imaginário “Átrio” cruzando duas figuras muito conhecidas e já por nós evocadas. A primeira é Emil Cioran, romeno que emigrou aos 26 anos, em 1937, para Paris, onde permanecerá até á morte, em 1995. Autodeclarando-se da «raça dos ateus», confessava todavia «ter sempre andado à volta de Deus como um delator: incapaz de o invocar, espiei-o». Precisamente por isso, por vezes era surpreendido: «Quando se escuta Bach, vê-se nascer Deus. Depois de uma oratória ou de uma sua cantata ou uma Paixão, Deus deve existir».

Compreende-se, então, porque é que o escritor esteve repetidamente em diálogo epistolar com teólogos da sua terra de origem. É o caso de George Bălan, que era também musicólogo, com quem trocou 53 missivas entre 1967 e 1992. Está também publicada a correspondência com Petre Ṭuṭea (1902-1994), intelectual que conheceu quando ambos viviam em Bucareste, o «único verdadeiro génio que conheci… Um misto de D. Quixote e de Deus». Diferentemente de Cioran, ele é vigorosamente crente, ao ponto de escrever: «Sem Deus, o homem permanece um pobre animal racional e falante, que provém do nada e para o nada vai».

Autêntico monge laico, Ṭuṭea, perseguido na sua pátria pelo regime comunista, manterá sempre elevado o estandarte da sua fé, e este diálogo epistolar, que compreende nove cartas de Cioran e quatro do seu amigo, mesmo nas divagações biográficas, revela em filigrana os frémitos espirituais profundos que os unem, mesmo na distância abissal dos percursos. O trilho de Cioran transita pela sinuosidade do nadir tenebroso do pessimismo cético, ininterruptamente exposto à voragem do niilismo; o do seu interlocutor desenvolve-se, ao contrário, sob o zénite solar do divino. Contudo, entre eles circulava «uma afetividade pura, entendida como simpatia, empatia, sinergia», escreve Antonio di Gennaro, sob a insígnia da inquietação comum mas de traços antitéticos. Como afirmava Ṭuṭea, Cioran no seu lirismo poderia encontrar o meu misticismo».

O fascínio deste diálogo à distância, tão delicado e até de crónica, revela disrupções surpreendentes que capturam o leitor, a quem sugerimos em particular o último escrito, datado de 3 de março de 1991, de Bucareste. Seria sugestivo imaginar a reação de Cioran perante estas linhas tão radicalmente “cristãs”, tão absolutas no olhar para além da fronteira da morte então iminente («estou velho, doente e triste, preocupado com a proximidade da morte»), tão serenas porque «o que me consola não é a glória, forma ilusória de imortalidade, mas a imortalidade religiosa».

A isto que é, na realidade, há um “Átrio dos Gentios” com duas vozes altas, nobres, dissonantes e no entanto harmoniosas como um dueto entre um baixo e um soprano, junto agora – num novo debate imaginário – a segunda figura, “rochosamente” crente, o filósofo francês Jean Guitton, falecido há duas décadas, aos 98 anos, amigo e correspondente de Paulo VI. O que propomos agora é um ensaio de Paolo Poli sobre o seu pensamento, colhido na tríade homem-tempo-Deus. São três eixos capitais de uma visão que tem a sua interseção na figura de Cristo. Ele consegue entretecer em si em contraponto tempo e eternidade, precisamente pela duplicidade da sua natureza humana e divina (não é por acaso que na sua vasta produção, de quase 160 volumes, o filósofo publicou “Jesus”, “O Cristo da minha vida” e um discutido e atormentado “Cristo dilacerado”.

Poli, que é de formação filosófica e teológica, conduz o leitor pela mão no interior do horizonte de um pensamento que é nítido, mas também marcado por saltos, ligados quer á própria personalidade de Guitton, quer ao desenvolvimento da situação eclesial após o Concílio. São duas as trajetórias unificadoras. Por um lado, a antropologia, cuja análise é conduzida do alto, na consciência de que a ontologia concreta do ser humano precisa de um olhar transcendente. É assim que se ligam entre eles tempo e eternidade. É interessante, neste contexto, aprofundar a sua estrutura do ser segundo as categorias de envolvimento e estratificação, a que se contrapõem a dissociação e a contaminação.

Por outro lado, de modo consequente, e não segundo uma mera justaposição, a cristologia, tratada em etapas diversas e perfis diferenciados. Se, com efeito, o homem une em si imanência e transcendência, Jesus Cristo torna-se o paradigma interpretativo perfeito na já sublinhada divindade e humanidade. Como sintetiza Poli, «é um percurso paralelo onde a constante pergunta sobre a estrutura enigmática da temporalidade humana, na qual se anuncia a realidade do eterno, revela ocasiões de recíproca iluminação» entre antropologia e cristologia.

O mérito deste ensaio está também no inicial grandioso retrato da vida e do pensamento de Guitton (130 páginas), que revelam a complexidade de uma personagem, capaz, entre outras facetas, de ser um pintor notável. Para selar este nosso “Átrio dos Gentios” mínimo, evocamos um curioso diálogo de 1983 entre o filósofo e o presidente Mitterand: «Em cinco minutos, diga-me a substância da sua experiência de filósofo.» «É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério. O meu colega Sartre escolheu o absurdo, eu o mistério.» «Mas qual é a diferença. Também o mistério parece absurdo!». «Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o qual alguém se esmaga num suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau para a luz, esperando.»


 

Card. Gianfranco Ravasi
In Cortile dei Gentili
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Emil Cioran | D.R.
Publicado em 17.06.2019

 

 
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