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«O humor também converte»: D. Tolentino Mendonça escreve sobre novo livro do cardeal Seán O’Malley

Penso que, se numa sondagem sobre a vida espiritual, for perguntado a que se associa o arrependimento e a conversão, a resposta esmagadoramente maioritária será: à tristeza pelo mal praticado, ao remorso e às lágrimas. A tradição está cheia de exemplos importantes nessa linha e todos sabemos, até por experiência pessoal, que esse caminho tem uma eficácia certeira no processo de transformação interior. A Sagrada Escritura confirma-o amplamente, como se pode ler no incisivo capítulo do livro do Profeta Joel, que lemos no início da Quaresma: «Eis o que diz o Senhor, “convertei-vos a mim de todo o vosso coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos... Entre o pórtico e o altar chorem os sacerdotes”» (Jl 2,12.17). Ou como ressoa na bem-aventurança proferida por Jesus: «Bem-aventurados os que agora chorais» (Lucas 6,21). A importância do pranto transmitiu-se, por isso, naturalmente à espiritualidade cristã, e as lágrimas tornaram-se a expressão dessa «tristeza segundo Deus», que não é, como primeiro explicou Orígenes, uma qualquer tristeza voluntária, mas «uma dor permanente provocada pela dor do pecado». A liturgia manteve durante séculos um conjunto de orações como esta, que suplicavam de forma explícita o dom das lágrimas: «Ó Deus concede-nos chorar longamente os males que fizemos, de modo a merecermos a graça da tua consolação.» E as práticas de compunção foram (e são) vistas como um ordálio precioso para a alma, um itinerário que nos reconcilia com o desejo de Deus.

O filósofo Emil Cioran escreveu um dia que a maior dádiva da religião só pode ser esta: ensinar-nos a chorar. E explicava: «As lágrimas são aquilo que nos pode tornar santos, depois de termos sido humanos.» O que é verdade, mas não de forma exclusiva. O que falhou precisamente numa certa apresentação da espiritualidade cristã foi apresentar a «tristeza segundo Deus» não como um meio, mas como uma finalidade, perdendo quase de vista a experiência da Graça, da Misericórdia e da Redenção.



Outro traço relevante na elaboração do seu discurso é a presença da primeira pessoa do singular, pois nunca a palavra do atual Arcebispo de Boston avança por abstrações, mas fundamenta-se num cristianismo testemunhal. Ele expõe-se, fala de si e da sua biografia crente, narra encontros, reinterpreta a história, lê os sinais de Cristo no tempo



Ora, quando contactamos com a pregação do cardeal Seán O’Malley – que este maravilhoso livro que o leitor tem entre mãos testemunha bem – há um elemento que chama a atenção: a sua aposta é também ajudar-nos a converter, mas o instrumento escolhido é o humor. E isso mostra a dimensão, a originalidade e a finura da sua sabedoria. Não se trata daquele humor inofensivo e singelo que se repete pacatamente como um cliché. Basta recordar o primeiro gag que nos é aqui contado para perceber a natureza do cómico que se põe em jogo: Um bispo, quando saía da catedral, deparava-se invariavelmente com um homem, chamado Santiago, deitado num banco, sujo, com a barba por fazer, coberto com jornais velhos. O pobre tresandava a álcool e tinha os olhos raiados de sangue. Mas levantava-se de maneira educada e cumprimentava o bispo com afeto. Um dia, ao atravessar a praça, o bispo não viu Santiago. Passaram-se semanas até que, com surpresa, o bispo encontrou-o a descer a rua, e quase não o reconheceu. Trazia a barba feita, um fato limpo, sapatos novos e uma Bíblia debaixo do braço. Perguntou-lhe o bispo: «Que te aconteceu, homem?» Respondeu Santiago: «Fui salvo.» O bispo felicitou-o e despediu-se. Um mês depois, sai o bispo da catedral e vê de novo Santiago no banco, num estado deplorável. Interroga-o o bispo: «Que te aconteceu, Santiago?» «Monsenhor, voltei para a única Igreja verdadeira.» É um humor que diverte, sim, mas que dá vertigens, perfurando o timbre acomodado das nossas certezas; questionando as nossas injunções sonâmbulas; abalando a nossa boa consciência; removendo os chavões a que reduzimos tantas vezes a experiência religiosa. O humor que o cardeal Seán O’Malley emprega não é feito para ser delicioso. Pode até sê-lo, mas o seu objetivo é outro: é escancarar-nos, mostrar-nos como somos, levar-nos a renunciar à tentação gnóstica ou maniqueia que separa a ação sobrenatural da nossa realidade como ela é, com as suas rugosidades, infâmias e estilhaços. O pior de tudo seria viver apenas num regime de aparências, sem com isso permitir que a Graça de Deus tocasse a nossa verdade.

Nos escritos, tal como na pregação do cardeal O’Malley, há três traços identificativos, que são como que a sua marca. Um deles é este que primeiro apontámos: o recurso à ferramenta sapiencial do humor, onde podemos ver tanto a expressão da simplicidade e bonomia típicas de um frade capuchinho, como uma operação de desmontagem crítica do discurso autojustificativo que muitas vezes é o dos crentes, na peugada de importantes autores norte-americanos, dos quais a romancista católica Flannery O’Connor é, certamente, um emblema. Flannery dizia que «quanto mais um escritor deseja tornar manifesto o sobrenatural, mais deve tornar real o mundo natural, pois se os leitores não aceitam o mundo natural, certamente não aceitarão nenhum outro». Mas, no caso do Cardeal, acrescentaria ainda um elemento: a tradição humorística do chamado risus paschalis, recuperando o antigo costume segundo o qual, na homilia do dia de Páscoa, o pregador devia divertir os fiéis e fazê-los rir com anedotas ou histórias para que a alegria pascal chegasse a todos. Há, de facto, um sopro pascal que atravessa nitidamente a obra de Seán O’Malley. Ele insiste em que a dinâmica pascal opera uma radical inversão no nosso modo de celebrar a fé, como o exprime aquele pequeno diálogo místico: Um homem perguntou: «Cometi muitos pecados; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?»; o místico respondeu: «Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar.»



Como ele nos recorda, Deus fala-nos através da sua Palavra. Somos chamados a viver sondando as Escrituras, em busca da voz e da face de Deus. Como tal, o aprofundamento quotidiano da Palavra de Deus é a primeira tarefa, o «primum officium» que temos de assumir



Outro traço relevante na elaboração do seu discurso é a presença da primeira pessoa do singular, pois nunca a palavra do atual Arcebispo de Boston avança por abstrações, mas fundamenta-se num cristianismo testemunhal. Ele expõe-se, fala de si e da sua biografia crente, narra encontros, reinterpreta a história, lê os sinais de Cristo no tempo, à maneira do que vem descrito na Primeira Carta de João: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida... isso vos transmitimos» (1Jo 1,1.3). É assim um discurso existencialmente implicado e que solicita o mesmo ao leitor. As palavras não são para O’Malley uma veste onde se oculta, mas um exercício franco, uma prática dialógica, o respirar da vida. A sensação que temos é a de estar sentados a seu lado, a conversar. Este seu jeito faz que, qualquer que seja o tema exposto, ele ganha uma utilidade para todos. Neste livro, por exemplo, reflete-se sobre o ministério dos bispos e da sua vocação e missão na Igreja, mas claramente este é um livro que se destina a todos.

A abertura para falar a partir da própria experiência, permite-nos também escutar a singularidade da figura do cardeal Seán O’Malley, fascinar-nos com a amplidão da sua experiência pastoral e a beleza do património de relações humanas que ele foi construindo; apercebermo-nos do mundo imenso de cultura e de leituras que ele despretensiosamente transporta, mas que nos revelam o seu alto grau de erudição; saborearmos a sua liberdade de coração e a pulsante sabedoria evangélica que através dele ressoa.

Mas, porventura, a razão principal – e é o terceiro traço identificador do seu discurso – é o seu amor à Palavra de Deus. Como ele nos recorda, Deus fala-nos através da sua Palavra. Somos chamados a viver sondando as Escrituras, em busca da voz e da face de Deus. Como tal, o aprofundamento quotidiano da Palavra de Deus é a primeira tarefa, o «primum officium» que temos de assumir. É da Palavra que tudo parte. Ela é a fonte incessante do conhecimento de Cristo. Por isso, propõe o cardeal Seán O’Malley, «temos de nos pôr de joelhos para sentir a Palavra de Deus», e a nossa teologia deve ser uma «teologia de joelhos». Creio que é esse o segredo que faz dele um dos grandes mestres do nosso tempo.

Quem ler este livro, não o vai esquecer!


 

José Tolentino Mendonça
Prefácio do livro "Procura-se amigos e lavadores de pés", ed. Paulinas
Imagem: D.R.
Publicado em 14.03.2019

 

 

 
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