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O hábito perfeito: Estilistas Dolce e Gabbana imaginam S. Francisco a partir da sua veste

No início dos anos noventa, de regresso de umas férias em Istambul, trouxemos alguns tecidos, todos diferentes. Havia brocados dourados, passamanarias, estampados florais, tules, simples garças de algodão, restos matizados. Alguns conseguimo-los de verdadeiros nómadas. Pusemo-los juntamente com o nosso stock, costurando retalhos uns aos outros em ordem esparsa e ao mesmo tempo muitíssimo estudada, e usámo-los para realizar a coleção para o verão de 1993.

Cerca de trinta anos depois, quase inconscientemente, regressou a nós a necessidade de explorar aquela técnica, o “patchwork”, que nos parece o símbolo perfeito do estar bem juntos num momento tão complicado como aquele que estamos a viver: o “patchwork” como ato de unir, não desperdiçar, partilhar, respeitar, num tempo que, pelo contrário, poderia impelir para a desagrageção.

Recolocar em conjunto as peças, voltar a dar vida àquilo que foi abandonado, e fazê-lo com amor. É este o primeiro pensamento que nos vem à mente ao ver os remendos da veste de S. Francisco, o cuidado particular com que foram costurados, a harmonia do resultado e as várias tramas, que narram vidas e experiências pertencentes a sabe-se lá quantas pessoas.

Não é curioso que a palavra “trama” é a mesmo que se fala para tecidos ou histórias? Se pensarmos que é provável que tenha sido Santa Clara a costurar algumas daquelas vestes, extraindo-as do seu manto, a ideia de amor que une e remenda adquire um significado ainda mais profundo, de amizade e respeito sem igual.



Francisco (que na juventude comercializava fazendas preciosíssimas com o pai!) desenhou para si um hábito tão humilde e no entanto tão poderoso e evocativo, de fazer inveja às mais importantes passarelas, porque consegue narrar num relance e de maneira autêntica toda a vida de quem o reveste



A simplicidade dos materiais, a cor intensa da terra, a silhueta limpa, mas ampla e cómoda: as características que a túnica de Francisco partilha com a de Santo António fazem-nos pensar nas de um conjunto de trabalho, um uniforme. Algo que, pela sua natureza, deve ser prático, sem fanfreluches, que não estorve nem distraia, adaptado à vida dos campos como à da oficina: não são talvez estes os traços distintivos do vestuário de um artesão, que veste de maneira humilde e modesta enquanto realiza incríveis maravilhas?

É outra afortunada coincidência para nós, que nos remete para um mundo que amamos, muito simples e todavia capaz de gerar beleza a partir do talento manual do ser humano.

Um uniforme, dizíamos, mas escolhido voluntariamente. Uma veste que te torne reconhecível e ao mesmo tempo orgulhoso de pertencer a algo, a um códice de ideais. Que exprima a tua personalidade, as tuas paixões, as de uma vida ou as passageiras: porque o vestuário perfeito é aquele que te faz estar bem, quer seja um vestido de sonho em chiffon, uma t-shirt branca e uns jeans ou uma túnica de tela crua.

O nosso trabalho, como estilistas, é colocar as pessoas à vontade e criar algo que lhes presenteie um sonho e lhes valorize a beleza, não tanto entendida como qualidade física, mas sobretudo como um verdadeiro estado de alma: aquela energia que vem de dentro e que nos torna radiosos, se apenas o permitirmos.

Francisco (que na juventude comercializava fazendas preciosíssimas com o pai!) desenhou para si um hábito tão humilde e no entanto tão poderoso e evocativo, de fazer inveja às mais importantes passarelas, porque consegue narrar num relance e de maneira autêntica toda a vida de quem o reveste.

Os seus seguidores, como António, depressa procuraram um semelhante, porque se identificam com coragem com a sua mesma visão do mundo, aclamam-no e querem ser como ele. No fundo, o Francisco de hoje seria uma estrela de rock, um influenciador com uma belíssima história a narrar aos jovens e um hábito ecologicamente sustentável e incrivelmente especial.


Imagem Vestes de S. Francisco (esquerda) e Santo António | D.R.

 

Domenico Dolce, Stefano Gabbana
In Messaggero di Sant'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagens: © Messaggero di Sant'Antonio
Publicado em 26.05.2021

 

 
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