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Pré-publicação: "O grande encontro entre Deus e a sua criatura"

Imagem Card. Gianfranco Ravasi | D.R.

Pré-publicação: "O grande encontro entre Deus e a sua criatura"

"O grande encontro entre Deus e a sua criatura" é o novo livro do presidente do Pontifício Conselho da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi, que a Paulinas Editora vai lançar aquando da visita do prelado italiano a Lisboa, durante a próxima semana.

O volume será apresentado por ocasião da conferência que o biblista vai proferir na Universidade Católica Portuguesa (UCP), intitulada "Parábolas mediáticas e parábolas evangélicas - Comunicar a fé no tempo da internet”.

A intervenção decorre a 29 de janeiro, às 18h00, no auditório Cardeal Medeiros. A partir das 16h30 do dia seguinte, no mesmo local, Ravasi recebe o doutoramento "Honoris Causa", tendo como padrinho o padre José Tolentino Mendonça, vice-reitor da UCP, e também especialista em estudos bíblicos.

O novo livro, de que oferecemos a introdução, está dividido em duas partes: "O rosto de Deus" e "O rosto do homem".

 

O grande encontro entre Deus e a sua criatura
Card. Giafranco Ravasi

«Dentro de mim há uma nascente muito profunda. E nessa nascente está Deus. Às vezes consigo alcançá-la, a maior parte das vezes está coberta de pedras e de areia: nesse momento, Deus está sepultado, precisando, então, de ser novamente desenterrado.» Era o dia 30 de novembro de 1943 e, em Auschwitz, numa câmara de gás, acaba de ser dissolvida a vida terrena de apenas vinte e nove anos de uma jovem mulher holandesa, Etty Hillesum. Poucos meses antes, no seu "Diário", tinha escrito as linhas que citámos acima e que podem ser livremente assumidas como uma representação simbólica dos exercícios espirituais. Elas são como que uma libertação da alma do terriço das coisas, da lama do pecado, da areia da banalidade, das urtigas e das ervas daninhas dos mexericos.

São muitos os caminhos possíveis para desenterrar a voz de Deus que talvez se tenha tornado inaudível dentro de nós. Pensámos escolher um percurso privilegiado para reencontrar a pureza da fé, escolhendo um lema clássico: "lex orandi, lex credendi"; a diretiva, a norma para a crença genuína é o caminho da oração em todas as suas múltiplas iridescências. Ou antes, quisemos acrescentar uma nova variação: "ars orandi, ars credendi". Rezar também é uma arte, um exercício de beleza, de canto, de libertação interior. É ascese e ascensão, é empenho rigoroso, mas também voo leve e livre da alma para Deus. Para usar uma definição sugestiva da liturgia, na sua estrutura íntima, proposta pelo filósofo Jean Guitton, é "numen"e "lumen", é mistério, transcendência, realidade objetiva, palavra divina que em nós se revela, mas também contemplação humana, jubilosa adesão, canto dos lábios e do coração.

A estrela polar para viver esta experiência é, então, o Saltério bíblico, fulgurante representação do aspeto dialógico da Revelação. As orações sálmicas são, de facto, palavras humanas; contudo, elas trazem em si o selo da inspiração divina e, por isso, nelas, Deus também fala. Como escrevia o teólogo eliminado pela barbárie nazista, Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), no seu livrinho "Orando com os Salmos": «Se a Bíblia contém um livro de orações, devemos deduzir que a Palavra de Deus não é apenas aquela que Ele nos quer dirigir, mas também aquela que Ele quer ouvir-nos a dirigir-lhe.» Não foi por acaso que a tradição judaica, dividindo os cento e cinquenta salmos em cinco livros, quis aproximar idealmente da Torá divina uma Torá orante, resposta de fé e de amor à primeira.

Precisamente por essa dupla dimensão que o Saltério e a própria oração revelam, duplo será também o percurso que seguiremos juntos. Primeiro, porém, uma paragem inicial tentará delinear a essência íntima da oração, um termo de raiz latina particularmente sugestivo por estar associado ao "orar", o "rezar", mas também o "proclamar" (a oração comemorativa pública): em ação está, portanto, a "os"(em lat., "boca"), os lábios, que invocam e que, ao adorar, também se podem referir à mão levada à boca para um beijo dirigido à divindade amada. Mas, como veremos, precisamente por ser a boca que canta, inevitavelmente também entra em ação a respiração, sinal de vida física e interior.

A partir deste limiar inicial, o nosso itinerário orante seguirá, como dizíamos, dois movimentos necessários. O primeiro é ascendente: conduzir-nos-á às alturas da transcendência, ao mistério, precisamente ao "numen", ou seja, a Deus, do qual a oração nos manifestará vários perfis que a fé consegue definir nos seus diversos significados. Do alto, o percurso tornar-se-á descendente: a luz resplandecente do rosto de Deus (cf. Nm 6,25; Sl 31,17: «Sobre o teu servo faz brilhar a tua face!») ilumina, com efeito, os múltiplos traços do rosto humano. Deus e criatura humana, teologia e antropologia encontram-se, portanto, na encruzilhada da oração; uma ligação necessária, como sugeria o conhecido escritor-aviador francês, autor do "Principezinho", Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), num seu poema: aos homens de hoje «nada falta/ a não ser o nó de ouro/ que mantém unidas todas as coisas./ Por isso lhes falta tudo.»

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.02.2015

 

 
Imagem Card. Gianfranco Ravasi | D.R.
Rezar também é uma arte, um exercício de beleza, de canto, de libertação interior. É ascese e ascensão, é empenho rigoroso, mas também voo leve e livre da alma para Deus
Deus e criatura humana, teologia e antropologia encontram-se, portanto, na encruzilhada da oração
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