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O filme sobre Santo Inácio que Bresson não fez mas que marcou o início do “seu” cinema

Na capa da “Revista do Cinematógrafo” de janeiro de 1948 uma fotografia de “Roberto (sic) Bresson” anuncia que o cineasta francês se encontra em Itália para realizar o filme biográfico “Inácio de Loyola”. Estão previstas gravações em Roma, que prosseguirão em França e em Espanha, fruto de um esforço de produção da Universalia Film.

Em poucos meses, apesar dos anúncios e do imenso trabalho preparatório, as circunstâncias favoráveis não se concretizam, e o filme nunca verá a luz. Bresson recordava-o muitas vezes: «Passei um ano em Itália para este filme que não rodei. Ano que, de resto, não lamento». O realizador, com efeito, levou consigo para França uma bagagem de reflexões que tiveram uma importância fundacional sobre toda a sua obra.

Dois anos antes, no final de 1946, no seguimento do acordo para favorecer as coproduções cinematográficas entre França e Itália, o produtor Salvo D’Angelo tinha chegado a Paris com a intenção de realizar filmes de dimensão internacional. Em particular, com a sua Universalia Film – que já tinha produzido obras dos maiores autores italianos, coo De Sica, Rossellini e Visconti –, tinha em preparação dois filmes de carácter religioso: “Fabíola”, sobre os primeiros mártires cristãos, que teria como protagonista Michèle Morgan, diva do cinema francês.

“Inácio de Loyola” obtém a participação de Gérard Philipe no papel do fundador da Companhia de Jesus, enquanto a realização é confiada ao mais intelectual dos realizadores franceses, Robert Bresson.



Os documentos revelam que Bresson tinha a intenção de utilizar a voz narradora de Inácio «na primeira pessoa», como se o espetador pudesse entrar nos pensamentos do santo, selando uma dimensão humana para além do introspetivo, que se desenvolve em torno ao fluxo interior do protagonista



Quando D’Angelo o encontra, Bresson está a viver uma fase crucial da sua carreira: tem 46 anos e duas longas-metragens de sucesso no ativo – “Os anjos do pecado” (1943) e “Les dames du Bois de Boulogne” (1945) –, que realizou respeitando os cânones do classicismo formal, mas sente que deve recusar esta conceção do cinema para chegar a uma mais pessoal.

Em 1947, Bresson chega a Roma, para o estudo dos ambientes e da encenação. A base de partida é a biografia sobre o santo redigida em 1939 pelo historiador jesuíta Pedro de Leturia, fundador da Faculdade de História Eclesiástica na Universidade Pontifícia Gregoriana.

Com “El gentilhombre Iñigo López de Loyola”, saudada como a biografia “definitiva”, Leturia tinha completado, e em parte corrigido, a hagiografia anterior sobre Inácio, acabando por virar a imagem que se tinha do santo. Ao explorar os anos da infância, Leturia colocava o acento na sua relação com a natureza, acantonando o aspeto de guerreiro, até então prevalente, para ajudar a compreender a dimensão contemplativa de Inácio através do influxo do espírito franciscano que tinha marcado a sua primeiríssima formação.

Inicialmente, o P. Leturia tinha desenvolvido uma atividade de consultadoria para a Universalia Film, elaborando um argumento que era mais uma declaração de intenções, através do qual o filme devia fazer emergir a qualidade da mensagem de Santo Inácio no mundo contemporâneo, realçando a função educativa da Ordem Jesuíta. Após uma discussão com a produtora, que estava à procura do patrocínio dos Jesuítas, o P. Leturia assumiu uma posição de observador e nunca chegou a avalizar a operação.



«Penso na vida de Santo Inácio, sobre quem, em determinado momento, acreditei que iria fazer um filme (que não farei). Ao estudar a vida curiosa deste homem, que fundou a maior ordem religiosa (em todo o caso a mais numerosa, que se espalhou por todo o mundo), ao estudar a sua vida sente-se que ele foi feito para esta existência, mas tudo, no seu caminho rumo à fundação desta Ordem, foi feito de acaso, de encontros»



Bresson conservou sempre uma bela recordação dos meses que passou em Roma: «Tinha um motorista, passava o tempo a passear, a visitar museus…». É fácil imaginar os itinerários que percorreu nos lugares inacianos, a começar pela Santa Maria della Strada, a primeira igreja dos Jesuítas, ou pela grande casa vizinha à igreja de Jesus, aos quartos onde viveu Santo Inácio, com a sacada da qual, nas noites romanas, se detinha a contemplar longamente o céu estrelado.

Este período marca o encontro de Bresson com “O relato do peregrino”, a autobiografia do santo que se torna a base sobre a qual constrói o personagem de Inácio. Encontramos a chave desta escolha num diálogo com Jean Guitton a propósito do filme “O processo de Joana D’Arc”, que Bresson dirigirá em 1962.

Detendo-se na consciência que Joana tinha da sua santidade, o cineasta passa à comparação com Inácio de Loyola: «Aquilo que Santo Inácio vai pedir, um século mais tarde, esta familiaridade com um sobrenatural palpável, o génio de Joana obtém-no sem sombra de dificuldade. Santo Inácio, ao contrário, não sabia que era um santo, morreu sem o saber».

Os documentos revelam que Bresson tinha a intenção de utilizar a voz narradora de Inácio «na primeira pessoa», como se o espetador pudesse entrar nos pensamentos do santo, selando uma dimensão humana para além do introspetivo, que se desenvolve em torno ao fluxo interior do protagonista.



“Diário de um pároco de aldeia” é considerado o início do “estilo Bresson”, que, graças à definição de Paul Schrader, se denomina “estilo transcendental”. Na sua conceção como no seu desenvolvimento narrativo confluíram todas aquelas reflexões sobre o estilo que no filme italiano sobre Inácio tinham ficado anotadas em papel



O produtor D’Angelo não tinha, porém, confiança nas qualidades do texto de Bresson, e de maneira totalmente autónoma encomenda outra encenação ao escritor franco-americano Julien Green, mais dúctil a acolher a ideia do dramaturgo Diego Fabbri (homem de confiança de D’Angelo) de estruturar a encenação sobre um duplo plano, alternando a parte histórica, que evoca a vida de Inácio, com a moderna, que mostra a intervenção dos Jesuítas na sociedade. Bresson é totalmente contrário, considerando a solução excessivamente artificial.

Numa reflexão sobre o filme “Au hasard Balthazar”, o mais cristológico dos seus filmes, Bresson narra, indiretamente, como se aproximou da personalidade de Santo Inácio. Entrevistado por Jean-Luc Godard (nos “Cahiers du cinéma”, maio de 1966), Bresson comenta a rima do título no termo “hasard” falando da sua convicção de que as vidas de todos são compostas da mesma maneira, isto é, «feitas de predestinação e acaso».

E acrescenta: «Quando se estuda a vida das pessoas, dos grandes homens, por exemplo, há uma coisa que se distingue muito bem. Penso na vida de Santo Inácio, sobre quem, em determinado momento, acreditei que iria fazer um filme (que não farei). Ao estudar a vida curiosa deste homem, que fundou a maior ordem religiosa (em todo o caso a mais numerosa, que se espalhou por todo o mundo), ao estudar a sua vida sente-se que ele foi feito para esta existência, mas tudo, no seu caminho rumo à fundação desta Ordem, foi feito de acaso, de encontros, através dos quais se sente que ele chega, pouco a pouco, àquilo que devia fazer».



«Aproximei-me de Inácio na sua interioridade. No quanto foi possível conservei dele somente a parte “espiritual”»



O período em Itália corresponde, por isso, a uma tomada de consciência para Bresson, que, perante a necessidade de defender as suas posições “teóricas” diante dos produtores, encontra finalmente a medida do seu estilo pessoal. A viúva de Bresson, Mylène, confirma que todos os seus esforços para preparar “Inácio” serviram como prelúdio para o filme seguinte, “Diário de um pároco de aldeia”, a começar pelas potencialidades da voz narradora.

O filme, extraído do romance de Georges Bernanos, é considerado o início do “estilo Bresson”, que, graças à definição de Paul Schrader, se denomina “estilo transcendental”. Na sua conceção como no seu desenvolvimento narrativo confluíram todas aquelas reflexões sobre o estilo que no filme italiano sobre Inácio tinham ficado anotadas em papel.

Em 1951, quatro anos após o seu período italiano, em entrevista Bresson comparava o trabalho para “Inácio” ao de “Pároco de aldeia”: «São duas comissões. Se as aceitei era porque estavam ambas no meu comprimento de onda. Aproximei-me de Inácio na sua interioridade. No quanto foi possível conservei dele somente a parte “espiritual”».

O que teria sido o filme sobre Inácio poderemos agora vislumbrá-lo em contraluz nas imagens e nos sons (voz narradora incluída) de “Diário de um pároco de aldeia”, que revela como uma obra de arte pode documentar uma busca interior de verdade, sem a mínima concessão ao efeito. Foi necessária a coragem de Bresson para nos presentear um filme de uma pureza tão rigorosa.


 

Antonio Farisi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Robert Bresson | D.R.
Publicado em 03.08.2021

 

 
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