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O exílio do Evangelho das nossas igrejas

Estamos a viver e a assistir a uma mutação do ser cristão; mutação que deveria inquietar muitos daqueles que “amam Jesus Cristo” e aderem ao seu Evangelho. Procurarei, portanto, especificar a causa desta crise e de ler as graves consequências que dela derivam.

Refiro-me à marginalidade assumida, nestes últimos anos, da liturgia no interior da vida eclesial. Não faltam, é certo, comunidade nas quais a liturgia é vivida intensamente. Mas permanece a impressão de que hoje (…) a liturgia torna-se num cone de sombra relativamente a temas eclesiais considerados centrai, como a família, os jovens, a educação, os pobres. E, mais em geral, os temas morais e sociais. (…)

O que aconteceu? Porquê esta exaustão? Não é fácil dar uma resposta. Certamente, após o entusiasmo pela reforma litúrgica querida pelo concílio Vaticano II, registou-se uma “batalha litúrgica” que não favoreceu, antes cansou os crentes. É preciso, todavia, dizer também que ocorreu uma grande desconfiança relativamente a cada renovamento litúrgico. Ao ponto de impedir cada legítima e autêntica criatividade, requerida pela própria reforma.

Hoje, a liturgia (por outro lado reduzida à celebração eucarística) aparece “engessada” e pouco cuidada (…). Os presbíteros não têm muito tempo para lhe dedicar. E os fiéis deixaram de a sentir como essencial, deixaram de a considerar como a fonte do seu agir quotidiano no mundo.



Uma liturgia que é valorizada não tanto na sua capacidade de fazer abrasar o coração, mas na sua capacidade de aparecer solene e religiosa, proporciona o sentido de uma pertença segura mas superficial. Se a liturgia não é Evangelho celebrado, a existência cristã reduz-se a prática ritual



Seja dito com franqueza: a esterilidade da comunidade cristã em produzir e adotar músicas e cantos dignos da liturgia cristã, os abusos praticados para tornar a liturgia mundanamente atraente e espetacular, a negligência que não conhece a “ars celebrandi” e a necessária beleza dos ritos, tornam por vezes a liturgia já não Evangelho celebrado, mas um conjunto de palavras e gestos que não gera nem fé, nem esperança, nem caridade. E reconheça-se: os tradicionalistas que denunciam, com aspereza e polémicas, introduções excêntricas nas celebrações e no uso do espaço litúrgico fazem-no muitas vezes com razão.

Porque é que não se tem a coragem de dizer que algumas formulações litúrgicas resultam difíceis e, atualmente, incapazes de narrar o Deus de Jesus Cristo? E não é só questão de linguagem a adequar e atualizar (…), mas de orações e fórmulas que, hoje, são incapazes de fazer abrasar o coração de quem as escuta ou repete. Na vida eclesial registam-se distanciamentos e até reais contradições entre a linguagem teológico-pastoral da catequese, da pregação com a linguagem litúrgica dos textos que refletem modos antigos, na maior parte medievais, de sentir e viver a relação com Deus na fé e na oração.

Mas o que é que se faz para que a Eucaristia dominical seja algo de vital, de verdadeiramente comunitário, capaz de permitir o reconhecimento recíproco e uma autêntica fraternidade para quantos nela participam? Escuta, silêncio, palavra, canto, meditação são essenciais à liturgia cristã, mas é preciso que esta seja também sinal de fraternidade, gratuidade, partilha, antídoto para a solidão e para o isolamento dominantes na nossa sociedade.

Se por isso falta esta centralidade do Evangelho celebrado, se falta a fonte, o que é que daí deriva? Pelo menos duas consequências. A primeira é que a liturgia escapa cada vez mais da maior parte dos cristãos, especialmente os mais jovens. Enquanto que “pequenos rebanhos” a viverão de maneira a senti-la só como um património a conservar pela sua identidade. A necessidade pós-moderna de conservar e comemorar impele, infelizmente, a fazer da liturgia do passado um “património imaterial” que tem de ser conservado.



Estamos a dar-nos conta da deriva da espiritualidade dos cristãos? Já não é a espiritualidade que se alimentava das fontes das Sagradas Escrituras ou dos Padres da Igreja, mas uma espiritualidade teísta, com uma referência ao divino, não ao Deus de Jesus Cristo. Uma espiritualidade concebida como ética terapêutica, tendente ao bem-estar pessoal, ao estar bem consigo próprio e com os outros no quotidiano



É assim que se formam pequenos guetos religiosos e litúrgicos, que se sentem guardiães de um museu, não de uma tradição viva que, como uma fonte, pode dessedentar os homens e as mulheres de hoje. Uma liturgia que é valorizada não tanto na sua capacidade de fazer abrasar o coração, mas na sua capacidade de aparecer solene e religiosa, proporciona o sentido de uma pertença segura mas superficial. Se a liturgia não é Evangelho celebrado, a existência cristã reduz-se a prática ritual, que impele a viver sem uma verdadeira referência à própria liturgia, sem a fonte da comunhão com o Senhor.

Mas há também outra consequência. Se a liturgia se torna periférica na vida do cristão, então que espiritualidade se pode viver sem essa fonte? A este respeito, é significativo constatar que hoje os cristãos desertam das assembleias litúrgicas mas procuram viver cada vez mais “a espiritualidade”, fabricando-se itinerários feitos por eles próprios. Estamos a dar-nos conta da deriva da espiritualidade dos cristãos? Já não é a espiritualidade que se alimentava das fontes das Sagradas Escrituras ou dos Padres da Igreja, mas uma espiritualidade teísta, com uma referência ao divino, não ao Deus de Jesus Cristo. Uma espiritualidade concebida como ética terapêutica, tendente ao bem-estar pessoal, ao estar bem consigo próprio e com os outros no quotidiano. Uma espiritualidade que dá conforto, mas já não está sob o primado da graça e da salvação que só Deus pode dar. É uma espiritualidade em que se repetem as bem-aventuranças proclamadas por Jesus, declinando-as contudo apenas como instância moral, não como Evangelho, boa notícia…

Por isso, a falta de qualidade “fontal” da liturgia na vida dos cristãos provocará fraqueza da fé para muitos. E absorverá pertenças culturais para outros. Crescerá o número dos “católicos de campanário”. Católicos sem verdadeira pertença à Igreja eucarística, anestesiados em relação ao Evangelho. E, cada vez mais, outros percorrerão trilhos de espiritualidade que inspiram a autossalvação, sem o primado da graça e sem a dimensão escatológica [relativa ao fim dos tempos e à plenitude eterna em Deus].

Nestas duas possíveis derivas poderão compreender-se as denúncias que o papa Francisco repete contra o pelagianismo e o gnosticismo, que hoje reaparecem em formas inéditas, mas sempre inspiradas pela recusa do primado do Evangelho e do mistério eucarístico, memorial da vida, da morte, da ressurreição e da vinda gloriosa de Cristo, o Senhor. Por isso, é preciso mais que nunca uma comunidade cristã que na liturgia não permite o exílio do Evangelho da vida eclesial.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 19.02.2019

 

 
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