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O Evangelho "dentro": As Escrituras lidas e comentadas por reclusos

É uma redação para todos os efeitos aquela que se constituiu pela primeira vez o ano passado na prisão de Rebibbia, em Roma. Com um único objetivo: ler o Evangelho e comentá-lo ao microfone da Rádio Vaticana. Um pouco para o reencontro pessoal, um pouco para que cada um se possa contar a si próprio, mas sobretudo para vincar que qualquer homem a contas com a justiça, não está acabado. Fácil de dizer, difícil de fazer acreditar, sobretudo porque se depara com uma instituição que resiste à mudança e com uma cultura que identifica a pessoa que temos à frente com o erro que cometeu.

Mas para eles isso interessa pouco, porque investiram tudo na fé: «Esse “algo” que ajuda especialmente quem vive uma situação como esta a não sentir-se preso, a ter a coragem de seguir em frente e acreditar num futuro melhor», explica-me Pedro, que na prisão recomeçou a pegar nos livros, chegando até a obter o diploma superior em jurisprudência. «Dei assim um sentido a este percurso», sublinha, orgulhoso pelo objetivo alcançado. E acrescenta: «Quem crê e partilha esta condição consegue compreender que é preciso viver de presente e de futuro, não de passado. Durante o meu período de detenção tive de enfrentar momentos difíceis. Sobretudo a perda da minha mãe, mas o conforto da fé deu-me a possibilidade de olhar em frente».

Pedro é o mais preparado, e as suas “catequeses” são propostas com linguagem eficaz, de experimentado exegeta: «Vivo a experiência da detenção como peregrino. Só espero não ser visto, quando sair, como eterno recluso». Pedro sabe bem que a sociedade tende a considerar o detido um marginal. Para ele, e para aqueles como ele, a prisão começa muito antes da detenção e não acaba seguramente no momento em que se readquire o estado de liberdade.



«A prisão é um pouco como o caminho do povo de Deus na Bíblia: parte-se de Caim e Abel, o coração de pedra, e chegamos até Jesus, que nos ama até ao fim com um coração de carne». E conclui: «A prisão permite precisamente isto: colocar-se à altura do coração do outro»



Um papel determinante é assumido pelo voluntário, o sinal de um testemunho. A pessoa investida de um papel social, uma força capaz de reativar os valores da pessoa. Aquele ou aquela que entende a prisão não como um lugar que guarda, mas que educa, um valor e não uma medida extrema.

«Passei por vários estabelecimentos penais e em todos tive a sorte de encontrar pessoas que me escutaram. O seu serviço é extraordinário e devia ser mais apoiado.» Quem o salienta é António, que durante as provas de som, nos fala do seu regresso à leitura das Sagradas Escrituras: «Aqui a solidão aflige-te, e a fé é um bálsamo que alivia as feridas deste tormento». Depois, o seu maior desejo: «Poder continuar o meu percurso de reeducação total, de tal maneira que possa estar pronto no momento em que serei chamado à reinserção na sociedade. Processo, este, muito difícil e repleto de obstáculos, mas é bom apresentar-se na ocasião com os requisitos certos».

Marco observa-nos e procura pôr em ordem os pensamentos, enquanto espera a sua vez. Tem a atitude do filósofo e pede insistentemente a Rosalba Menes, a biblista da Universidade Gregoriana que os coordenou, a ler o que tem para ler. Longe do microfone, enquanto que o “colega” Paulo (nomeado técnico de estúdio) prepara as espessas mantas cinzentas para insonorizar a sala que a administração pôs à disposição, Marco reflete sobre a sua condição: «Parece incrível, mas a prisão é um lugar onde é possível passar de um coração de pedra a um coração de carne». Escuto-o com atenção porque nunca é banal, mas dá-se conta de que alguma coisa me deve ter escapado, e acrescenta: «Veja, a prisão é um pouco como o caminho do povo de Deus na Bíblia: parte-se de Caim e Abel, o coração de pedra, e chegamos até Jesus, que nos ama até ao fim com um coração de carne». E conclui: «A prisão permite precisamente isto: colocar-se à altura do coração do outro. Talvez seja precisamente esta a reeducação». Convenço-me de que por trás das barras há um espaço extraordinário que permite conhecer o ser humano, no seu mistério de bem e de mal.



«Encontro satisfação perdoando quem me faz mal, porque ponho-o em dificuldade quando ofereço uma resposta inesperada à ofensa recebida. Encontro a cada dia muita força a escrever versos e a orar. Já não sou atraído pela violência».



Pino, o mais “radiofónico”, tem características poéticas raras. Tem uma voz rouca e profunda. Os estúdios de dobragem concorreriam para o fazer trabalhar para eles, mas ele gosta de escrever, e sonha prestar serviço no serviço de acolhimento do santuário romano do Divino Amor. Fala-nos de uma traição, ao ler os versículos 27-31 do capítulo 14 do Evangelho de Marcos: «São frequentes os episódios na prisão em que o companheiro te volta as costas e te trai. E não só três vezes, como aconteceu a Pedro. Muitas vezes dás-te conta de que são as pessoas a que queres bem, os teus amigos». Noutros tempos, perante as “afrontas dos Judas”, teria reagido à sua maneira. Hoje tem no bolso uma solução, que no seu dizer é sempre vencedora: «Encontro satisfação perdoando quem me faz mal, porque ponho-o em dificuldade quando ofereço uma resposta inesperada à ofensa recebida. Encontro a cada dia muita força a escrever versos e a orar. Já não sou atraído pela violência».

As luzes da noite avisam-nos de que o nosso estúdio está prestes a fechar. Os agentes da polícia penitenciária convidam-nos a deixar a sala e a recolher a nossas casas. Mas antes de nos despedirmos, chegam, pontuais, as perguntas habituais: «Quando vai para o ar? Tenho de avisar os meus familiares, assim ouvem-me». Entrego-lhes um pequeno calendário das transmissões, fixo-lhes outro encontro e saúdo-os afetuosamente. Desta vez, porém, é diferente, porque Pedro hesita, deixa por um instante o longo corredor que conduz às celas, corre ao meu encontro e diz-me: «Sabes porque é que venho ler o Evangelho contigo? Porque esta experiência me faz sentir menos último».


 

Davide Dionisi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Koloj/Bigstock.com
Publicado em 10.05.2019

 

 
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