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O Cântico dos Cânticos por Roberto Benigni

Eu disse: não posso ir ao festival de Sanremo e apresentar uma canção qualquer. Quero apresentar a canção mais bela. Porque todos fazem canções belíssimas, maravilhosas [em Sanremo]. Perguntei-me, então, qual seria a canção, o presente mais belo que eu posso dar a Sanremo, ao público de Sanremo, ao público de Itália, ao público do mundo. Pus-me a procurar para encontar a canção mais bela e que nunca tenha sido interpretada. (...) E encontrei a canção mais bela do mundo. Qual é a canção das canções? Disse-o agora mesmo: a canção das canções. E há uma canção que se chama assim, que é o Cântico dos Cânticos, que está na Bíblia. Não vos atemorizeis! É um livro da Bíblia, sagrado, belíssimo, que se chama Cântico dos Cânticos. Folheai a Bíblia e é uma pérola, breve, breve, breve. É a canção mais bela que alguma vez foi escrita na história da humanidade. A primeira canção escrita na história da humanidade. Pensai um pouco, há 2400 anos. O Cântico dos Cânticos, que em inglês se diz "The Song of the Songs", a canção das canções.

Vede que é uma canção de amor, fala de amor físico, são dois jovens que se amam, e cantam, cada um, o amor pelo outro. É assim, simplesmente, não há canção mais ardente, sinuosa, quente que o Cântico dos Cânticos. É como se tivéssemos [a canção] “Yesterday” ou “Imagine”, e nunca ninguém a tivesse feito, ninguém a tivesse passado na televisão, o Cântico dos Cânticos. Vejam que eu estou emocionado, desculpem-me se uso superlativos, mas é porque estou emocionado, e o meu coração bate forte ao apresentar-vos esta maravilha da humanidade.

O Cântico dos Cânticos exalta o amor físico, são duas pessoas que se amam fisicamente, e é o mais simples entrançado de palavras que existe no mundo. É um livro denso de mistério, mas um livro simplicíssimo e o ápice da poesia de todos os tempos. É como se me apresentassem uma parte da capela Sistina, o último piso da torre de Pisa, uma maravilha da humanidade (…).

Pensai que um famoso rabino, porque o livro está na Bíblia, disse: todo o mundo, o mundo inteiro e toda a história do mundo não valem o dia em que o Cântico dos Cânticos foi doado à humanidade. Este é um elogio desmesurado, que, no entanto, nos dá a medida do dom. E é de tal maneira belo, em resumo, que se tornou sagrado. É como se nós, desde esta noite, em Sanremo, ou noutros serões, tivéssemos escutado uma canção de tal maneira bela, mas tão bela, que diríamos: ela é demasiado bela, temos de a meter no Evangelho.



No Cântico dos Cânticos há coisas que fazem muito mais medo do que a violência das guerras, dos assassinos: é o amor, a doçura, o amor físico, o erotismo, isto sim, faz medo, além das guerras. É um livro pleno de amor, o amor não só físico, mas também o amor visto como fragmento de infinito



Por este motivo puseram-na na Bíblia, porque era excessivamente bela, ainda que, tenho de dizer-vos, a sua presença na Bíblia é verdadeiramente estranha; deve ter sido um momento de distração dos teólogos dos rabinos, quando decidiam o que devia fazer parte da Bíblia, porque dentro do Cântico dos Cânticos há corpos nus frementes, tão sensuais, erotismo, beijos, tudo coisas muito, muito fortes, e por isso deve ter sido este momento que não se compreende. Para o ter na Bíblia, dado que o Cântico dos Cânticos embaraçou muitos, e ainda embaraça, foram inventadas justificações, ou, digamos, encontraram justificações do género «o autor era Salomão», mas não é verdade, é uma falsidade. Então começaram a dar todas as interpretações alegóricas, simbólicas, para manter oculta a mensagem de amor, a mensagem do amor físico.

Dou-vos um exemplo: há um momento dos dois protagonistas, depois de se terem abandonado ao amor, quando ele dorme entre os seios dela, e passa toda a noite entre os seios dela. Então, toda a escola alegórica, para manter oculta a mensagem, começou a dizer: certo, mas são só símbolos, não é que haja um homem e uma mulher nus que tenham feito amor; digamos que simbolizam, Ele, Deus, e a Igreja, e estão juntos. Deus ama a Igreja, e adormece sobre a Igreja, e os seios não são seios, são as cúpulas da igreja; se não compreendeis isto, então estamos mal.

E depois, havia outra coisa que embaraçava muito: é que o Cântico dos Cânticos é um poema dedicado à feminilidade. Todo o erotismo, o amor, é visto de um ponto de vista tipicamente feminino, que um homem não saberia descrever. A protagonista é uma mulher. Muitos reputados comentadores desta maravilha do Céu e da humanidade pensam até que a autoria seja de uma mulher. Há 2400 anos uma mulher a escrever é uma coisa escandalosa, inaudita, insuportável, como é possível há 2400 anos uma mulher poder ter escrito o livro mais santo, mais belo e mais importante da Bíblia, e o mais voluptuoso, sem dúvida. Pensai, dizemos que um livro erótico ousado, o Cântico dos Cânticos, é um erótico santíssimo. É uma coisa incrivelmente bela.



Agora, com brevidade, vou dizer uma canção; estou emocionado ao fazê-la porque espero que fiqueis impressionados pelo encanto, porque quando eu li a primeira vez, a sua beleza submeteu-me de tal maneira, que fiquei sem ar



Pensai no contentamento, após tantos anos de escuridão, mortificações, em que o amor físico era considerado como o mais grave dos pecados, descobrir que, ao contrário, a Sagrada Escritura ama o amor, ama os beijos da boca, abençoa o amor carnal e abençoa a felicidade e a alegria do sexo. Pensai na Bíblia, que é toda guerras, assassínios, está cheia de expressões de dor, de tragédias, de violência, e chega-se ao Cântico dos Cânticos e a violência, maravilhosamente, desaparece. Não há mais. (…)

No Cântico dos Cânticos há coisas que fazem muito mais medo do que a violência das guerras, dos assassinos: é o amor, a doçura, o amor físico, o erotismo, isto sim, faz medo, além das guerras. É um livro pleno de amor, o amor não só físico, mas também o amor visto como fragmento de infinito. (…) O amor é um pouco o infinito colocado ao alcance de cada um de nós. Não existe vida, vida humana, nenhum de nós, nenhuma vida que pelo menos por um momento não tenha sido imortal. Cada um de nós foi, pelo menos por um momento, imortal. Sabei-lo todos quando e como. Nós que tivemos em sorte o dom esta partida [brincadeira] grandiosa de estar no mundo, nascemos, é verdadeiramente uma partida gloriosa que nos fizeram, e não sabemos porquê. Agora sabemos porquê: por amor e para fazer o amor, que fazemos sempre pouco, digamos a verdade. Mesmo as novas gerações têm grandes conversas, e sexo, e filmes eróticos e erotismo aqui e ali, mas depois, no fim de contas, aperta, aperta, e não é que se faça muito o amor. Devemos fazer mais. Eu próprio vou verdadeiramente fazer mais, esta noite, aqui em Sanremo, em direto: vou despir-me e eu e toda a orquestra vamos fazer amor, dirigidos pelo maestro Beppe Vessicchio, será um serão belíssimo.

O Cântico dos Cânticos é um pouco o livro do desejo, que é diferente da necessidade de fazer amor: quero tudo e já, é posse, mas o amor não é posse, é conquista contínua. (…) Ele narra uma história, aliás, duas, um casal, ela e ele, que se amam e representam todos os casais em todas as partes do mundo, em cada época que repete o milagre do amor, todos os casais. A mulher com o seu homem, a mulher com a sua mulher, o homem com o seu homem, todos os casais que se amam, melhor, toda a pessoa humana que ama; amo por amar, amo porque amo, e descobrimos finalmente uma coisa com o amor: o amor não é um mistério, é antes o lugar onde o mistério se dissolve. Finalmente compreendemos, isto é o Cântico dos Cânticos.



A versão que escutareis esta noite do Cântico não a encontrareis na Bíblia, porque a versão que vou dizer é anterior, vem antes de todas as revisões rabínicas, confessionais. É, por assim dizer, o texto primitivo do Cântico



Agora, com brevidade, vou dizer uma canção; estou emocionado ao fazê-la porque espero que fiqueis impressionados pelo encanto, porque quando eu li a primeira vez, a sua beleza submeteu-me de tal maneira, que fiquei sem ar. Por isso tenho de partilhar com quem amo, com quem quer que seja, esta coisa tão bela que me aconteceu, uma coisa belíssima. Não posso dizer tudo porque não haveria tempo e modo. Extraí fragmentos do Cântico e juntei aqueles de que mais gostei. Se posso usar esta palavra, é como um “trailer”, e se fizer despertar verdadeiramente o desejo de o ler, seria uma coisa belíssima, e espero que realmente fiqueis impressionados pela sua beleza.

Fiz-me ajudar, naturalmente, porque não é fácil encontrar uma versão do Cântico dos Cânticos que agrade a todos. Por isso recorri à ajuda de grandíssimos comentadores, estudiosos, poetas, verdadeiramente grandes professores e poetas, entre os quais quero citar Cesare Angelini, Andrea Ponso, Giovanni Gardini, Guido Ceronetti, Gianfranco Ravasi, Luca Mazzinghi. A versão que escutareis esta noite do Cântico não a encontrareis na Bíblia, porque a versão que vou dizer é anterior, vem antes de todas as revisões rabínicas, confessionais. É, por assim dizer, o texto primitivo do Cântico. Nas versões seguintes foram, não digo eliminados, mas muito atenuados todos os termos relativos ao erotismo, ao sexo, e ao sexo masculino e feminino. Nesta versão foram restaurados (…).

«Beija-me
com os beijos da tua boca
que o teu amor me morde mais que o vinho
fragância suavíssima é o teu odor
e o teu nome é desejo que se expande

Oh, leva-me contigo
arrasta-me contigo
na tua câmara nos alegraremos
e rejubilaremos juntos
e saborearei o teu amor
porque delícia é amar-te

Eis-te, bela amiga minha
és toda esplendor
vem, que serão para ti
arrecadas dourados com incrustações de prata

Os teus lábios são púrpura
em que desagua a indizível flor do sorriso
e o teu odor vence todo o perfume
Se moves os olhos renovas a luz

Eu sou do meu amado
e o meu amado é meu

Oh, amor, tu que a minha alma ama
tu que tocas o meu respiro
como uma macieira entre as árvores selvagens és tu

Grande vontade tenho de aninhar-me na tua sombra
e o sexo teu sobre mim, amor
é o fruto seu doce na minha boca
leva-me para onde estás,
planta-me o teu estandarte, amor (…)
sustenta-me com bebidas de maçã,
ressuscita-me porque eu morro de amor

A sua esquerda está sob a minha cabeça
com a direita aperta-me no amplexo
um cacho de alfena ["cipro"] é para mim
o meu dileto na minha vinha sobre mim
um saquinho de mirra é para mim o meu dileto
que passa a noite entre os meus seios (…)

Conjuro-vos, não desperteis o meu amor
não o desperteis até que ele o deseje

Eis-me, pomba minha, és bela como uma graça
majestosa e terrível como exército organizado
tira de mim os teus olhos porque me perturbam
excitam-me, não resisto
os teus seios são como duas corças que pastam entre as rosas
as tuas coxas uma mão de artista as obteve (…)

O odor do sexo é o odor do mais suave dos bálsamos
inebria-me
um jardim fechado és tu, plenitude minha
um jardim fechado com frutos requintados

Eu durmo, mas o meu coração está acordado
ouço o meu dileto que bate
abre-me, amiga minha, pomba minha perfeita

Eu abri ao meu dileto
e o meu dileto prendia-me, apertava-me
o meu seio saltou àquele contacto
a alma minha perdia-se pela sua doçura

Quando o meu dileto impeliu o seu sexo dentro de mim
as minhas vísceras tiveram um frémito
o meu coração enlouqueceu por ele

Depois chamava-o e não me respondia
procurava-o e não o encontrava
Oh, conjuro-vos, se encontrares o meu dileto,
dizei-lhe que fiquei ferida de amor

O meu dileto é luminoso como labareda
reconhecê-lo-eis entre mil
os seus olhos são como pombas num espelho de água
o seu ventre é um disco de marfim ornado de safiras
os seus testículos são rosas que destilam mirra que sacia
o seu sexo é um estojo de ouro repleto de gemas
os seus flancos chamam ao amplexo
tudo nele é desejo, doçura a sorver

Ei-lo, vem meu dileto
vamos para os campos
passemos a noite entre as árvores de alfena ["cipro"]
lá te darei a minha doçura
e abrir-se-ão, requintados, todos os meus frutos

Penetra, meu dileto
e sê semelhante a um gamo
a uma jovem corça das colinas
Prende-me, meu dileto, prende-me
prende-me e mete-me como selo sobre o teu coração
como selo sobre o teu braço
porque forte mais que a morte é amor
paixão mais potente que os infernos

Os seus dardos são dardos de fogo
são labaredas de um deus
as águas do abismo não podem extinguir o amor
nem rios devastá-lo
Quem der toda a sua vida por amor, salvá-la-á
e não a perderá»








 

Roberto Benigni
Festival de Sanremo, Itália, 06.02.2020
Fonte: RAI
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Roberto Begnini | RAI | D.R.
Publicado em 07.02.2020 | Atualizado (novas ligações) em 08.02.2020 e "tweets" do cardeal Gianfranco Ravasi em 11.02.2020

 

 
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