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O cânone Steiner

Não existe só o cânone ocidental de Harold Bloom, há também aquele formulado por George Steiner, falecido a 3 de fevereiro, em Cambridge, aos 90 anos. O grande crítico, filósofo e ensaísta francês abraçou todo o saber da literatura: da tragédia grega a Heidegger, de Shakespeare aos romancistas russos, até ao horrível abismo do Holocausto. Recentemente tinha exprimido uma forte preocupação pelo inquietante recrudescimento do populismo e do antissemitismo na Europa, fenómenos destinados – sublinhara – a minar e a destruir os equilíbrios já precários sobre os quais se apoia o velho continente.

Nascido de uma família de judeus vienenses, para fugir às garras do nazismo refugiou-se, em 1940, nos EUA, para depois se tornar cidadão norte-americano. A carreira académica foi caracterizada por algumas das cátedras mais prestigiosas, em particular as de Princeton, Cambridge, Oxford e Genebra: os estudantes eram entusiastas das suas lições, ricas de doutrina, mas sempre facilmente fruíveis. Como são de fácil compreensão os artigos redigidos para as maiores publicações internacionais. Foi o crítico de ponta da revista “New Yorker”, onde, na realidade, publicou autênticos ensaios, obras-primas do género, nos quais soube conjugar o ato da recensão com a homenagem aos escritores em voga: um excelente misto de doutrina e humanidade.

Neste sentido era também equilibrada a crítica: podia ser severa e aguda, mas nunca irritante e ofensiva. Mesmo a palavra mais cáustica era envolvida por um véu de cortesia e elegância. E Steiner tinha uma veneração pela palavra. Sublinhava como nunca deixava de se espantar pelo uso que dela se pode fazer: «A palavra humana pode usar-se para amar, construir e perdoar, mas também para torturar, destruir e aniquilar», dizia.



Ele que, graças apenas a uma mesa de trabalho, se sentia cidadão do mundo perfeitamente à vontade, temia ao mesmo tempo que o homem de cultura não pudesse, num mundo marcado pela violência, pelos contrastes de classe e pela corrupção moral, encontrar a sua justa colocação



Entre as obras mais conhecidas (escreveu mais de quarenta) inclui-se “Depois de Babel”, uma iluminadora reflexão sobre a comunicação humana, entendida como ato contínuo de tradução, e “Nostalgia do absoluto”, na qual responde às perguntas da jornalista Laure Adler. Narrando-se a si mesmo e à sua parábola existencial, Steiner exprime neste livro uma convicção que pode emergir como manifesto do seu sentir e da sua singular, quanto intrigante, conceção do estar no mundo: «Pode estar-se na própria casa em todo o lado. Deem-me uma mesa de trabalho, e será a minha pátria». Mas a sua pátria não era só a das letras, antes uma pátria universal, que se liberta de todas as escórias supérfluas e poeirentas que podem derivar de uma cultura académica encerrada numa torre de marfim e fechada aos influxos e solicitações do mundo exterior. De resto, Steiner era um europeu poliglota: podia escrever e falar em inglês, alemão, francês e italiano.

De notável valor são igualmente os seus ensaios sobre o filósofo e historiador húngaro György Lukács, que, na reformulação em chave antidogmática e humanista da teoria marxista, tinha vincado o conceito – muito caro a Steiner – da alienação do homem moderno na moderna sociedade capitalista. Uma alienação que, segundo Steiner, se centrava no intelectual. Ele que, graças apenas a uma mesa de trabalho, se sentia cidadão do mundo perfeitamente à vontade, temia ao mesmo tempo que o homem de cultura não pudesse, num mundo marcado pela violência, pelos contrastes de classe e pela corrupção moral, encontrar a sua justa colocação. E isto porque, precisamente por causa desses males da sociedade, era muito difícil encontrar uma mesa de trabalho diante da qual se pudesse sentar e depois exprimir livremente, em papel, o seu pensamento.

Steiner nunca compilou classificações dos seus atores preferidos, que aos poucos estudava e examinava. Disto é indicativo o ensaio “Tolstoi ou Dostoiévski”, no qual o crítico não se coloca o objetivo de estabelecer uma supremacia entre ambos. O dado em que se apoia é a complementaridade. Tolstoi instila no género do romance a exemplaridade escultórica da épica homérica, enquanto Dostoiévski nele reproduz o dinamismo trágico de Shakespeare. Uma complementaridade que se torna paradigma sobre o qual mede a substância e o valor dos romances de todos os outros escritores.


 

Gabriele Nicoló
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: George Steiner | D.R.
Publicado em 04.02.2020

 

 
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