Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

O amor continua vivo mesmo quando parece que ela não está

É belo ser-se convidado para uma festa para os cinquenta anos de casamento, mais não seja porque é um acontecimento cada vez mais raro. Aconteceu num terraço, numa quente noite de lua cheia, com poucas pessoas: eles – que chamaremos Pedro e Maria –, os quatro filhos os netos e poucos amigos. Uma coisa simples: cada um cozinhou alguma coisa, cada um ofereceu uma memória que se entrelaçou com as outras. Todavia não estão à vontade. Porque, apesar de ser a festa das suas bodas de ouro, ela não está.

Ou melhor, há uma pessoa sentada numa cadeira de rodas, diáfana e imóvel, com os olhos que permanecem semicerrados mesmo quanto as crianças correm para a frente e para trás, a gritar na brincadeira; quando alguém se aproxima para lhe dizer alguma coisa; quando um sopro de vento lhe descompõe uma madeixa dos cabelos.

Olho-a, e penso quando orientava as reuniões do grupo da Ação Católica na paróquia, com serenidade e firmeza, sempre a arranjar maneira de citar ilustres escritores, seus grandes amores quando era professora. Quando projetávamos campos de atividades na escola, quando falava dos seus alunos ou dos seus filhos, quando lhe telefonava porque havia um problema, e sabia que ela estava lá.

Que sucedeu? Para onde a arrastou esta malvada doença degenerativa? A que distância está aquele seu mundo para nós inalcançável? Chegar-lhe-á alguma coisa? E por isso, tem sentido festejar estes cinquenta anos de casamento, nos quais não se sabe onde ela está?

No entanto, quando, durante a missa, o amigo sacerdote lhes perguntou quais foram as coisas mais belas deste meio século, Pedro respondeu: os filhos e o afeto que nos queremos. Não disse «o afeto que nos tínhamos». Não disse «o afeto que eu lhe quero». Disse «o afeto que nos queremos»: agora, aqui, ambos. Eu quero-a a ela e ela quero-o a mim. Não importa se não fala, não reage, não sorri nem sequer aos netos... Ela quer-me bem, e eu quero-lhe bem a ela.

É preciso muita confiança no outro, para o pensar, e também muita fé naquele Deus que nos criou com a capacidade de amar para sempre.

Foi aí que me dei conta que as fotografias com que o Pedro enchia as paredes da casa, aqueles objetos colocados aqui e ali nas prateleiras – sabe-se lá quem e quando foram levados para o lar -, o saquinho branco com os confeitos dourados não são somente instrumentos para recordar, para fazer um pouco de manutenção da memória, como as lápides nos túmulos. São convites também para nós, amigos, a respirar esse amor, que continua vivo.

E se tivesse dúvidas, elas passaram ao dar-me conta que, quando ele lhe toma a mão, ela aperta-a. Entre todas as mãos que a tocam, para lhe dar de comer, para a lavar, mover da cama para a cadeira de rodas, vesti-la... entre todas essas mãos, reconhece as do Pedro.


 

Paola Springhetti
In Vino Nuovo
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Chinnapong/Bigstock.com
Publicado em 28.07.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos