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O amor autêntico oferece tempo, presença, perdão

Jesus não fez uma teoria sobre a comunhão, mas mostrou como vivê-la através de uma prática de amor, até exprimir «o mandamento novo», isto é, último e definitivo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei». Mas, sobretudo, Jesus praticou o amor «até ao fim, até ao extremo». Gostaria de ensaiar uma releitura das suas ações a partir do nosso estilo de vida. Não citarei trechos evangélicos, mas procurarei tê-los em pano de fundo, para ver como eles agem em nós, seus discípulos e discípula, no nosso estilo de vida quotidiano. De que maneira o estilo de vida de Jesus plasma e inspira o nosso viver a comunhão?

Jesus viveu o amor antes de tudo oferecendo o seu tempo e a sua presença. Hoje a contradição ao amor autêntico vem sobretudo da falta de tempo, do não dar ao outro a própria presença. Os ritmos da vida, os compromissos laborais, as múltiplas coisas a fazer, os ritmos que nos parecem inderrogáveis, todas estas realidades devoram-nos o tempo; de maneira que, apesar de ter tempo para muitas outras coisas, deixámos de ter tempo para as coisas gratuitas, aquelas que não nos trazem lucro. Falta-nos o tempo do encontro: encontramos as pessoas que temos de encontrar por razões de trabalho, melhor, procuramos multiplicar os encontros que possam “render”, mas deixou de haver tempo para o encontro que não faz parte do nosso trabalho e que não nos faz lucrar. Dar tempo por amor, dar a presença ao outro sem fazer nada, e inclusive sem dizer nada, parece-nos tempo desperdiçado. Todavia não há amor onde não há presença de um ao outro.

Jesus, por outro lado, teve uma grande atenção para o outro, a começar pelo seu corpo. É preciso ter a perceção que o outro não é um parceiro ideal diante de mim, nem um tu qualquer, um outro e basta, mas é um corpo com que devo relacionar-me, um corpo que espera de mim atitudes, uma linguagem, porque para comunicar os corpos têm de se exprimir. Trata-se, portanto, de reconhecer o corpo do outro realmente, e não de o definir apenas com base em critérios de beleza, sedução, crescimento saudável.



Na relação está também o corpo que fala: fala como jovem e como idoso, como são e como doente, como belo e como feio. Seja dito que cada corpo é uma pessoa, cada corpo – diz o cristão – é «templo do Espírito Santo». Cada corpo é um membro do corpo de Cristo



É normal que um corpo seduza, atraia, interesse, ou recusa e faça experimentar repulsão. Para encontrar o outro é necessária muita atenção, muita sabedoria, muito exercício para disciplinar as nossas emoções e os nossos sentimentos: não podemos amar o outro apenas se nos agrada. É fácil experimentar sentimentos de atração por quem é belo, jovem, agradável, mas para amar o outro é preciso acolher antes de tudo esse corpo preciso, porque a sua vida que quero e devo encontrar está inscrita naquele corpo, nos seus olhos, nos seus lábios, nas suas mãos… O outro não tem um corpo: é um corpo. Se é um corpo, então não posso acender o amor sem acolher o seu corpo. O amor só passa através do corpo.

Não existe um contacto, uma relação com uma pessoa, que não passe através da relação com o seu corpo. Perguntemo-nos simplesmente: porque é que Francisco de Assis beijou um leproso? Não amou um leproso fazendo-lhe caridade ou orando por ele: beijou-o! Na relação está também o corpo que fala: fala como jovem e como idoso, como são e como doente, como belo e como feio. Seja dito que cada corpo é uma pessoa, cada corpo – diz o cristão – é «templo do Espírito Santo». Cada corpo é um membro do corpo de Cristo.

Jesus quis entrar em relação com os outros interrogando-os, conversando e dialogando. Para crescer no conhecimento e no amor é preciso aproximar-se do outro, acolher o seu corpo com atenção e entrar em diálogo com ele, escutando-o e falando-lhe. Inicia-se escutando o outro, ficando em silêncio, por vezes à escuta do silêncio do outro. Depois é preciso intervir, talvez respondendo ou colocando perguntas, mas sempre com uma atitude que diga o interesse pela relação. Só nestas condições se acende a comunicação: comunicação de palavras, de silêncios, de gestos, de olhares, de um “tocar” o outro. A comunicação é vital, por isso exige nela seja empenhado o coração, a mente, o corpo com as suas atitudes. Escuta do outro para colher onde ele está; escuta do outro para conhecer aquilo que ele traz no coração e me quer comunicar; escuta do outro para fazer crescer o amor; escuta do outro para me predispor a reconhecê-lo confiável, numa relação que nos comprometerá reciprocamente.



Seria preciso que quem ama tenha em conta que o outro faltará e, por consequência, se empenhe em perdoar para voltar a partir, para recomeçar, até esquecer a falta do outro. Mede-se aqui a maturidade do amor: amor vivido concretamente, não idealizado, amor enxertado naquilo que eu sou e naquilo que o outro é



Se alguém não escuta, não se predispõe a amar, não pode aceder ao amor; e se alguém não fala, não entra na dinâmica do amor, porque não falar é a primeira maneira para se subtrair à relação e para a negar. Sinceridade e verdade tornam-se então absolutamente necessárias à comunicação e tornam possível a edificação da relação no amor. Pense-se apenas numa palavra simples e contudo tão decisiva: «Amo-te», palavra dita em sinceridade, dita como confissão e promessa. Palavra que subentende sempre a pergunta: «E tu, amas-me?», aguardando uma resposta. Nestas palavras joga-se «o sentido da eternidade» que cada ser humano traz em si.

Em toda a relação de amor pode acontecer, porém, que o mal prevaleça sobre o bem, que o amor seja traído, corrompido, contradito. Nenhuma ilusão: na amizade, na história do amor vivida no casamento, nas relações de amor antes ou depois ocorre uma contradição. Por vezes é alguém que enfraquece, enquanto o outro se mantém firme; por vezes ambos os parceiros do amor tornam-se infiéis um ao outro. Acontece, mas não deve ser tão desilusivo ao ponto de impedir a relação de amor, nem ser julgado como morte do amor. É preciso preparar-se, é preciso tê-lo em conta também quando se promete reciprocamente a fidelidade, o desvanecimento. Melhor, seria preciso que quem ama tenha em conta que o outro faltará e, por consequência, se empenhe em perdoar para voltar a partir, para recomeçar, até esquecer a falta do outro. Mede-se aqui a maturidade do amor: amor vivido concretamente, não idealizado, amor enxertado naquilo que eu sou e naquilo que o outro é.

É por isso que é decisiva a capacidade, a vontade, a responsabilidade de perdoar, sobre a qual Jesus deu o exemplo até ao fim. Perdoar é amar com coragem, é acreditar que o amor que se vive é mais forte que as contradições que recebe. Quem tem um coração que sabe perdoar, tem um coração grande, habitado pelo amor, um amor que sabe acolher do outro não só a beleza, as virtudes, os dons, mas também os defeitos, as fragilidades, as quedas, inclusive as malícias. Por vezes o caminho de quem ama é gravemente ferido, quase impossível de percorrer: nestes casos é preciso parar, deter-se, não se mover, permanecer à espera do outro que se perdeu… Exige-nos muita paciência e depois, sim, a capacidade de perdoar, de retomar consigo o outro e recomeçar no amor. Esta é a vitória do amor sobre a morte que podemos experimentar aqui na Terra. Esta é comunhão que a Igreja, corpo de Cristo, pode viver e testemunhar ao mundo.









 

Enzo Bianchi
In Il blog di Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Olegkalina/Bigstock.com
Publicado em 28.06.2021

 

 
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