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No dia mundial do teatro do ano 2019 depois de Cristo

Depois de dezenas e dezenas de espectáculos que ao longo da minha vida fui fazendo como actor e encenador (e quando foi preciso também como mão de obra de muitos dos inumeráveis ofícios que o teatro costuma chamar a si), naquele estado em que uma estúpida apatia ou uma igualmente estúpida melancolia esconde tanta outra coisa que nem coragem temos para encarar e nomear como a causa de tanto mau viver, dou por mim a tentar um mea culpa de uma culpa que não tenho. Mas eu digo “a culpa é nossa”, sim este eu é sempre um nós nas coisas públicas, e julgo que sim, que houve um nós que não viu a tempo que fazer teatro é uma responsabilidade que deixa consequências. Nós trabalhamos para a vida de todos, para “o mundo que há de vir”. E não nos lembrámos a tempo que o teatro seria o que a vida política dele fizesse, o teatro é uma arte da responsabilidade de todos e é de todas as artes a que imediatamente é produto da vida dos cidadãos e se inscreve nela. Tem em tudo uma natureza e uma função parecidas com as da Igreja. Como ela actualiza a consciência e prepara a vida das nossas convicções como ela vai transformando a vida das sociedades, bem no coração da História.

“O quê? Eu faço isso tudo? Eu quando falo, faço prosa?”, perguntava, perplexo, o Senhor Jourdain personagem de Molière, burguês que queria ser fidalgo ao seu professor de letras. Sim, sou, somos responsáveis pela vida das cidades um pouco mais do que o cidadão comum. Fomos nós que escolhemos viver assim. Tal como os senhores da Política, tal como a hierarquia da Igreja. Perguntem ao Papa Francisco. Na nossa terra, ao longo da minha vida, muita coisa mudou. Mudou sobretudo a maneira como vivemos a vida pública. Não passámos de uma situação de ditadura para um regime democrático? Soubemos viver e deixámos que o teatro que é quem no dia do teatro está na berlinda, colaborasse na tarefa de transformar a nossa relação com os outros? O Teatro tem sabido construir-se em função da sua responsabilidade moral? Perante a decadência moral de uma sociedade monstruosa na eficácia com que está a trabalhar para o egoísmo e o conforto individual, máscaras do poder do dinheiro, transformando o no único motor da vida dos cidadãos, que, cegamente gastam nisso a meia dúzia de anos que dura a nossa vida, nós, teatro que fizemos, ou que deixámos que nos levassem a fazer? Soubemos preparar os outros, para “a vida do mundo que há de vir”? Confesso que fiz o que podia e o que sabia, mas a vida democrática tão absurda se tornou que tem mecanismos que o coração dos seres humanos desconhece, e a caridade, o amor dos outros, único mandamento para os cristãos de cuja ideologia a nossa civilização é herdeira, não é coisa de que se fale ou tenha sequer cidadania. Para isso temos um sistema, o Parlamentar e uma Justiça soberana mais desumanizada, que a ferrugem da própria Constituição e tão afastada da defesa dos direitos humanos que tem conseguido transformar o cinismo e a desconfiança no mais comum dos comportamentos sociais.



Imagem "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Fotografia: Luis Miguel Cintra | D.R.

Imagem "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Fotografia: Luis Miguel Cintra | D.R.


Mas se não tenho vontade de ir ao teatro, se me aborreço passados 5 minutos porque já imagino em que é que aquilo vai descambar, se vou na esperança de ver vida nova e saio com o mesmo sono que costuma dar aos que têm a minha idade e se sentam a dormitar diante do televisor até serem horas de irem para a cama, é culpa não só mas também minha: não vivi como devia. Não, não, não me venham dizer que estou assim porque estou velho e doente, não. Eu sei, é por desgosto. Desgosto de ter sido vencido. O teatro que fazemos não é o que os que vierem depois mereciam, é o que a economia permite e os programadores ganham a vida a gerir. A culpa é nossa. Porque quem faz teatro é cada um de nós actores, de corpo e alma ali presentes, oferecidos como carne para canhão. E esquecemos que ao tornar-se homem foi o nosso sangue que Deus consagrou. A responsabilidade do teatro passa pela capacidade de nos expormos como imagem de todos para uso público. Em vez disso tentamos salvar a pele em horas de expediente cumprido, ou nos melhores casos, fazer a melhor figura possível e sermos excepção.

Tive afinal a sorte de poder parar um momento e fazer um balanço. Nem todos pudemos ter um fim assim. Depois de muitos anos de uma vida tão ocupada com o nosso ofício do teatro, de repente vi-me sem casa e sem saúde, mas com espaço para reflectir, e não gostei do resultado. E se, ao contrário do que acontecia quando tudo fazíamos na esperança de uma mudança e já na maneira de fazer antecipávamos a alegria e a novidade, se agora, pelo contrário, me invade um tédio imenso no lugar em que não nos largava  tanta verdadeira inquietação, se fazíamos tudo para um dia ser tudo diferente, e e se agora esse tudo me parece a roupa velha do banquete de há 50 anos, quando um novo espectáculo era uma coisa nova que acontecia na cidade, e cada espectáculo fazia mover um pouco o pensamento e mexia com os outros, se agora temos a sensação de ter deslaçado a maionese, a culpa não é minha, não, é de todos e muito de vocês, senhores espectadores.   Eu, e não fui só eu, fiz ou fizemos tudo para mudar tudo, só que não aconteceu. Ou aconteceu o contrário do que queríamos: aquilo que toda a vida tratámos como a forma mais cuidadosa e elaborada maneira de comunicar, de “amar” os outros, tem-se tornado numa banalização de produtos desalmados, feitos a correr, de caricaturas daquilo que devia ser uma forma superior de representação da vida. Tudo serve desde que sirva para justificar ter se empossado uma administração perfeita no seu funcionamento burocrático, capaz de fornecer uma imagem de intransigência na defesa do cidadão consumidor. Para isso também terá de conseguir fazer entrar dinheiro, claro. E ninguém nota que para conseguir que entre terá de se gastar ainda muito mais? É o público que entra mesmo na dança. Sente-se lisonjeado com mais um campo em que com teatro em boas salas, com bons actores dos filmes e da televisão e dos dvdês aí têm quanto basta, não é preciso mais, nem para isso temos tempo…



Imagem "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Fotografia: Luis Miguel Cintra | D.R.

Imagem "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Fotografia: Luis Miguel Cintra | D.R.


Ao chegar a Páscoa que aí vem, foi recordando um outro género de teatro, um teatro amador, popular, religioso, que tudo se tornou a meus olhos mais claro. Quando procurava no caos do meu computador a digitalização de um conjunto de velhas fotografias tiradas pelo meu pai e por mim, quando em 1970 ou 71, já não sei, talvez influenciados ambos pelo filme de Oliveira Acto da Primavera fomos ver a Vilar de Perdizes, perto de Montalegre, em Trás-os-Montes um Auto da Paixão de Cristo que o meu pai tinha sabido que nesse ano se voltava a representar naquela aldeia. Perante a chegada da Semana Santa e de toda a liturgia que a Igreja decidiu há muitos séculos que em princípio cada ano se deve, nas igrejas do Mundo e na consciência de cada um, “actualizar”, usando um verbo “impuro” (agora por demais esvaziado de algum interessante conteúdo), aquilo que para os cristãos é o Mistério da Incarnação. As várias cerimónias são teatros que representam, inserem no tempo o que transcende o tempo, episódios da vida de Cristo. É um teatro diferente. Mas, ó colegas, já se deram ao trabalho de pensar dois segundos no que quer dizer a palavra portuguesa “representar”, tão diferente das correspondentes em inglês (to play) e francês (jouer) e do espanhol (actuar) e do italiano (recitare)? É rica a palavra portuguesa porque o que importa não é o actor “parecer-se com”, é “estar no lugar daquilo que representa. E representa-se a ausência. Naquela representação da Paixão de Cristo, representação havia, cada camponês sua personagem, Cada carro da lavoura dos locais da acção, criando um trajecto, uma imaginária via crucis. Guardando no entanto o carro central com uma grande cruz primeiro pintada a branco num pano preto e depois feita em madeira para a elas se encostarem as três cruzes do calvário, tudo certo como quem sabe os evangelhos de cor. E às vezes com letreiros: CASA DE HERODES, CASA DE CAIFÁS, etc. E os fatos feitos na terra com a imaginação que a escultura popular das imagens para veneração nas igrejas ou para os presépios tem fixado para cada santo. Com os meios de que dispunham: muitas colchas de brocado colorido, muitos lençóis. Com uma evidente preocupação: ser claro. Diria eu ser transparente. O resultado era daquilo que na vida me foi dado participar, o que de mais perto me fez estar da verdadeira paixão. Eu vi o trabalho de actores que me tem servido sempre de bitola. Eu vi naquele homem vestido de ceroulas e camisola interior cor-de-rosa, com as chagas pintadas como nos crucifixos dos altares e nos dois rapazinhos que faziam os dois ladrões, encostados às suas cruzes, a imagem verdadeira do calvário, mais do que em qualquer representação realista. Como de outra maneira na curta-metragem de Pasolini La Ricotta, e até no seu Evangelho segundo são Mateus, vi sobretudo essa coisa tão respeitável como a Fé: a dúvida exposta para bem de todos. Isso sim que é responsabilidade: a entrega para representação do que é comum a todos, daquilo que é mais nosso: o nosso pobre eu.

O que eu vi naquele princípio da minha vida artística (sim, já teria feito na Faculdade de Letras com os meus colegas, a minha primeira encenação), o que eu vi foi a mais pura e mais perfeita representação teatral. Foi essa experiência que sempre me serviu de referência e me criou a convicção de que a melhor forma de representar a vida humana é a própria vida humana. A sua fragilidade nada melhor a expõe aos outros que deixar-se ver, oferecer-se para a substituir. Naquele Cristo, naquele Judas, naquela virgem Maria, eu acreditei. Eram símbolos de toda a humanidade. Aquele recinto improvisado com os carros da lavoura transformados nos locais de Jerusalém em que Cristo foi crucificado. E o que me fez tomar o teatro pelo mais nobre recurso nas artes em geral para representarmos a vida humana e para desejarmos para ela a mais humana e eterna das várias naturezas artísticas. Eu acreditei em mim, eu naquele dia participei daquele teatro. Fui Cristo fui S. João. Acreditei porque outros se anularam para nos deixarmos a todos ter fé. O mistério da Fé: “Anunciamos Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa Ressurreição: Vinde Senhor Jesus”. Não posso dizer que fosse a isso alheia a própria natureza da peça representada: a dramatização da narrativa da paixão de Jesus Cristo, está claro, mas aquilo de que se fala num espectáculo de teatro não tendo que ser religioso, é evidente, tem de se lhe exigir que nos tocasse nas nossas mais firmes convicções, que gerasse verdade. Eu no teatro gostaria de, como espectador, sair diferente do que entrei, se possível perturbado, que os actores me tivessem feito perceber melhor ou me tivessem dado a conhecer a vida um pouco melhor. E aí o Cristianismo não tem pouco a dizer, sei isso muito bem, mas gosto que o “actualizemos”. Com o que tinham à sua disposição aqueles camponeses de Vilar de Perdizes, no tempo anterior à televisão, apropriaram-se da forma narrativa dos evangelhos com um caminho para a cruz de uma clareza e simplicidade que exclui na representação um campo para as manifestações de vaidade a que agora qualquer espectáculo dá acesso. Mas o que era absolutamente extraordinário era a, chamem-lhe ingenuidade, que eu chamo generosidade, com que cada um expunha a sua relação com o papel que desempenhava. E a própria representação da paixão de Cristo tornava-se “Mistério da fé”. Ainda mais extraordinário porque a relação com o público era de igual natureza: eu vi todos se ajoelharem à passagem de Cristo no caminho para o Calvário. E todos de joelhos, vivemos o momento do grito de Cristo: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Nós vimos morrer Cristo e rasgar-se a cortina do templo. Vi a rapaziada correr atrás de Judas depois da traição para o mandar para o Inferno.



Imagem "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Fotografia: Luis Miguel Cintra | D.R.

Imagem "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Fotografia: Luis Miguel Cintra | D.R.


Isto que eu ainda pude ver, hoje já não existe e basta ver uns minutos da transmissão da versão actual do Auto para perceber que tinha pelo menos 3 vezes mais público e que tinham tentado pôr tudo mais bonito mas o resultado é uma trapalhice a querer modernizar-se nos hipermercados que se estão a construir por toda a parte. E que não desejámos. São intermediários, burocratas, como para o Teatro os agentes e os produtores e os programadores: profissionais da mentira. “Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem”. Talvez porque ninguém reparou na responsabilidade e na importância de um ofício como o nosso.


 

Luís Miguel Cintra
Imagem de topo: "Auto da Paixão de Cristo" | Vilar de Perdizes | 1970-71 | Luis Miguel Cintra | D.R.
Publicado em 27.03.2019

 

 
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