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No coração da pandemia: Missão e testemunho de uma mulher na capelania hospitalar

Nathalie Setton, de 57 anos, tem vivido a angústia da luta contra o vírus. Presença reconfortante junto dos doentes do hospital público de Argenteuil, em França, de 860 camas, designado para estar na primeira linha do combate à epidemia, a responsável pela capelania católica do hospital fala sobre a sua missão.

 

Qual é a situação do hospital nesta segunda vaga?

Constato um verdadeiro esgotamento dos cuidadores. Quando se salta de paraquedas a primeira vez, há stress porque se trata de saltar no desconhecido. Na segunda vez já se sabe o que nos espera, e o stress é outro. Aqui é palpável a mesma coisa. Sinto angústia nos cuidadores. Alguns tiveram a Covid-19, e por vezes levaram-na para suas casas. Têm medo de a apanhar uma segunda vez. Estão psicologicamente cansados e não estão prontos para reviver a mesma coisa. Alguns temem o esgotamento. Esta segunda vaga não se assemelha, de todo, à primeira. Na primavera, as pessoas aplaudiam os cuidadores. Hoje, exprimem mais a frustração e a ira, e já não compreendem muito bem as medidas, que evoluem incessantemente.

 

Ocupa esta função há sete anos neste hospital. Em que consiste a sua missão?

Consiste em ser uma presença da Igreja num hospital, uma missão confiada pelo bispo. Alguns capelães são voluntários, eu sou assalariada do hospital.

 

Acompanha os doentes e as famílias…

A capelania leva uma presença a toda a pessoa que a peça. Por vezes, contento-me de ficar lá, em silêncio. Uma pessoa hospitalizada pode estar desencorajada, exprimir a sua raiva, a sua angústia, ou um sentimento de vazio espiritual. Tenho uma atenção especial às pessoas em fim de vida e às suas famílias. Proponho-lhes rezar, a leitura da Palavra, levo a Comunhão. Já me aconteceu batizar de urgência: a meio da noite, recebi uma chamada do hospital; uma mãe tinha dado à luz gémeos, e o menino não estava bem; nunca esquecerei a frase do pai, quando o seu bebé morreu: «fomos a tempo de o batizar».

 

Na primeira vaga, esteve «à beira do abismo», como escreveu num belo testemunho publicado no livro de D. Stanislas Lalanne [bispo de Pontoise]. Imaginou que ia viver o que viveu?

Não, não imaginávamos ver tantas pessoas em sofrimento nem tantas mortes. Foram levados para o exterior do hospital dois contentores, porque deixámos de ter espaço suficiente na câmara mortuária. Ao início, as pessoas não podiam ver os doentes, inclusive após o falecimento, foi muito violento. Uma comissão ética Covid nasceu, depois, no hospital. Tive a oportunidade de fazer parte dela e de ver a que ponto os cuidadores tinham a preocupação de exercer o melhor possível a sua missão numa situação que lhes escapava. As urgências e a reanimação têm o hábito de salvar vidas, mas naquela situação o contexto era sobretudo do cuidado paliativo. É fora do comum.

 

Acompanha doentes, por vezes até ao último respiro…

Pude rezar junto de uma pessoa falecida, dizendo a mim própria que, provavelmente, seria a última a vê-la. É preciso acolher as famílias e explicar-lhes como o seu próximo partiu, se sofreu, transmitir as suas últimas palavras… Uma senhora disse-me: «Puseram-no num saco como um cão». Mão não. Eu vi os cuidadores terem um grande cuidado com o corpo, fechar os olhos, pentear os cabelos, fazer a “toilette” do rosto. Isso confere humanidade. No hospital, a Semana Santa foi uma via sacra. Acompanhava há vários meses um homem de 34 anos, Joseph, vindo dos Camarões, albino, que sofria de um cancro metastizado. Pude dar-lhe a Comunhão uma última vez na Quinta-feira Santa, antes de falecer. Nesse dia, também reconfortei uma cuidadora em prantos, porque não se podia ocupar da sua mãe, longe, cuja irmã estava prestes a morrer.

 

Que sentiu ao entrar pela primeira vez no quarto de um doente com o vírus, protegida dos pés à cabeça contra esse “inimigo invisível”?

Medo. Estávamos em março, o vírus suscitava uma forte angústia. Diante de mim estava um senhor que já não podia comungar, mas entendia, parecia-me, as orações. A família não podia vir. Tive medo de espalhar a doença, apesar das luvas, da máscara, da viseira, da touca… Entrei de mãos vazias, sem a minha sacola nem o meu livro de orações, sem poder tocar esse homem, mas com palavras. Depois, soube-se que, com luvas, se pode colocar uma mão no ombro, ter um contacto. Quando o rosto tem máscara, resta o olhar. Por vezes sentei-me em silêncio próximo de uma pessoa que, de vez em quando, reabria os olhos, olhava-me e voltava a fechá-los. Eu permanecia lá, e a minha presença dava segurança. Esta missão, uma missão de amor, é extraordinária.

 

Como falar de Deus nesses momentos?

Oiço muitas vezes: «Sabe, sou crente, mas não praticante». Gosto de responder: «Ah, então não ama os outros?». Cristo deu-nos duas direções: reconhecer que Deus é Deus, e amar-nos uns aos outros. Se alguém é crente, é bom para a primeira, e se ama os outros, então é praticante, sem ser celebrante. Ser praticante consiste em praticar Cristo todos os dias, no amor que se pode ter pelos outros. A este anúncio as pessoas endireitam-se, por vezes fisicamente. Procuro sempre mostrar-lhes aquilo que eles não veem deles próprios neste amor.

 

A fé tem-na apoiado?

Consagro mais tempo à minha oração pela manhã. Instaurei um ritual. Acendo uma vela ao lado de um Cristo sofredor na cruz. Confio ao Senhor estes corpos mortificados. Duas vezes por semana, D. Lalanne reúne os quatro capelães dos grandes hospitais da região em videoconferência para os apoiar. O meu acompanhante espiritual acolhe a quente as coisas pesadas que lhe confio. Encontro-me numa espécie de hiperatividade. E depois, no Pentecostes, um acidente imobilizou-me dois meses e meio, com fraturas múltiplas. Dois dias antes, numa oração intensa, tinha pedido ao Senhor para me dar repouso. Obrigado, Senhor, mas não pedi tanto! Remetida à minha cama, muitas emoções, soterradas, vieram à superfície.

 

O que despertou a sua vocação?

Quando uma amiga, que tinha a mesma função neste hospital, me propôs continuá-la, foi uma surpresa! Respondi-lhe que tinha muito medo de ser confrontada com a morte. Mas à minha volta, para meu grande espanto, todos diziam: «Corresponde-te!». Sem acreditar, confiei. Durante o meu primeiro ano no hospital, continuava a espantar-me. Senti igualmente uma alegria imensa. Num quarto, face a uma pessoa em pijama, em sofrimento físico ou psicológico, não há jogo de sedução: entra-se de imediato numa relação muito intensa.

 

A sua missão nem sempre é bem compreendida dentro do hospital, por vezes por desconhecimento…

Demorei um ano a encontrar o meu lugar. Instala-se uma relação de confiança com o pessoal cuidador. Vou muitas vezes ao serviço dos cuidados paliativos. A chefe de serviço é extraordinária. Para ela, perguntar a uma pessoa qual é a sua espiritualidade é uma evidência. Mas os cuidadores têm, por vezes, medo, porque lhes dizem que têm de ser neutros. Muitas vezes, estes são pessoas de confissão muçulmana que me chamam. Falar de religião não lhes mete medo. Veem uma Virgem num quarto, um terço, uma cruz, e dizem: «É crente? Um capelão pode vir vê-lo».

 

O que a faz continuar?

Projeto-me. Quando se olha para o passado, percebe-se que há sempre períodos difíceis. Já no tempo de Cristo! Atravessamos as estações. Hoje, o inverno. Mas sem inverno não há primavera. Estamos em suspenso. Muitos cristãos sofrem por não poder viver a Eucaristia. Não sabemos quanto tempo vai durar este inverno, mas estamos a caminhar para dias belos, a primavera, uma floração, uma renovação. Para mim, é uma evidência.


 

Agnès Chareton
In Le Pèlerin
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Nathalie Setton | Florence Brochoire/Le Pèlerin
Publicado em 15.12.2020

 

 
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