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Nenhuma condenação, só misericórdia

O itinerário quaresmal sob o signo do anúncio da misericórdia de Deus narrada por Jesus conhece um verdadeiro auge no trecho evangélico do quinto domingo da Quaresma: o texto do encontro entre Jesus e a mulher surpreendida em adultério (João 8,1-11).

Esta página conheceu um destino particularíssimo, que atesta o ser caráter “escandaloso”: está ausente nos manuscritos mais antigos, é ignorada pelos padres latinos até ao século IV, e não é comentada pelos padres gregos do primeiro milénio.

No termo de uma longa e atribulada migração, este texto foi inserido no Evangelho segundo João, antes do versículo 15 do capítulo 8, no qual é referida uma palavra de Jesus que parece justificar tal colocação: «Vós julgais segundo a carne, Eu não julgo ninguém».

O nosso excerto apresenta semelhanças com o Evangelho segundo Lucas, aquele que está mais atento ao ensinamento de Jesus sobre a misericórdia, e poderia ser facilmente colocado após Lucas 21,37-38: «Durante o dia Jesus ensinava no templo; à noite, saía e pernoitava ao relento no monte dito das Oliveiras. E todo o povo, pela manhã, ia até ele no templo para o escutar». Nós, no entanto, em obediência ao cânone das Escrituras, lemo-lo onde a redação final o colocou, no contexto de uma discussão sobre a relação entre a lei e o pecado.



Não há espaço para considerar a sua história, os seus sentimentos: para os seus acusadores, ela não só cometeu o pecado de adultério, é uma adúltera, totalmente definida pelo seu pecado



Enquanto que Jesus, sentado no templo, anuncia a Palavra, «escribas e fariseus conduzem-no a uma mulher surpreendida em adultério», para o «pôr à prova». Muitas vezes os Evangelhos anotam que os adversários de Jesus tentam colocá-lo em contradição com a lei, para o poder acusar de blasfémia. Mas desta vez a armadilha não diz respeito a interpretações da lei, mas a uma mulher – ou melhor, aquela que é “usada” como um caso jurídico – surpreendida em adultério e arrastada à força para à frente de Jesus por quantos velam pelo cumprimento da Torá.

Depois de irromperem pelo auditório de Jesus, aqueles homens peritos na lei colocam a mulher no meio de todos, e apressam-se a declarar: «Moisés, na lei, ordenou-nos lapidar mulher como esta». A declaração parece intocável, mas na realidade é parcial: a lei, com efeito, prevê a pena de morte para ambos os adúlteros, e atesta a mesma pena, mediante lapidação, para um homem e uma mulher casada caídos em adultério. Mas onde é que está aqui o homem, o adúltero, tão culpado como a mulher?

A dureza da pena prevista explica-se com o facto de que o adultério é um desmentido da promessa de Deus na criação, e uma grave ferida na aliança estipulada pelo casal humano. É por isso que os zelosos guardiães da lei, irrepreensíveis na aparência e considerados pelo povo homens religiosos com autoridade, pela sua visibilidade ostentada, perguntam a Jesus: «Que dizes?».

Tal pergunta visa apanhá-lo em contradição: se Jesus não confirma a condenação e não aprova a execução, pode ser acusado de transgredir a lei de Deus; se, ao contrário, decide a favor da lei, por que é que então acolhe os pecadores e come com eles?



Jesus opta por narrar de outra maneira o agir de Deus, pelo qual a vida do pecador transcende o pecado por ele cometido. Jesus, aquele que como Filho de Deus narrou humanamente Deus, que foi a exegese do Deus vivo, afirma que diante do pecador Deus tem um só sentimento: não a condenação, mas o desejo de que se converta e viva.



Detenhamo-nos nesta cena. Alguns levaram a Jesus uma mulher, para que seja condenada. Discípulos e ouvintes estão distantes: aqui só está Jesus diante destes homens religiosos – juízes injustos, inimigos – e, no meio, uma mulher de pé, na infâmia. Não há espaço para considerar a sua história, os seus sentimentos: para os seus acusadores, ela não só cometeu o pecado de adultério, é uma adúltera, totalmente definida pelo seu pecado. Mas Jesus dobra-se e começa a escrever por terra, à frente da mulher que está de pé à sua frente. Tudo isto sem proferir palavra, num grande silêncio…

Mas o que significa o gesto de Jesus? Ele escreve os pecados dos acusadores da mulher? Ou escreve frases bíblicas, segundo a opinião de alguns exegetas? Ou, simplesmente, dá-se tempo para procurar uma resposta fiel à vontade de Deus? Não é fácil interpretar este gesto.

Na minha opinião, deve ser entendido enquanto ação dotada de uma forte carga simbólica. Creio que se devem ver, por um lado, os escribas e os fariseus que recordam a lei esculpida em tábuas de pedra; do outro, Jesus, que, escrevendo na terra, a terra de que somos feitos, nós filhos e filhas de Adão, o terrestre, nos indica que a lei está inscrita na nossa carne, nas nossas vidas marcadas pela fragilidade e pelo pecado. Não é por acaso que Jesus escreve «com o dedo», assim como a lei de Moisés foi escrita na pedra «pelo dedo de Deus», e foi reescrita após a infidelidade idolátrica do bezerro de ouro e a rotura da aliança.



Só Deus, e portanto só Jesus, poderia condenar aquela mulher. Mas Jesus opta por narrar de outra maneira o agir de Deus, pelo qual a vida do pecador transcende o pecado por ele cometido



Dado que os acusadores insistem em interrogá-lo, Jesus levanta-se e não responde diretamente, mas faz uma afirmação que é também uma quesito: «Quem de vós está sem pecados, lance primeiro a pedra contra ela». Depois volta a inclinar-se e torna a escrever por terra. É uma frase que interroga: quem pode dizer que é sem pecado? Jesus confirma a lei, segundo a qual a testemunha deve ser a primeira a lapidar o culpado, mas diz também que a testemunha deve estar sem pecado.

É verdade que a mulher adúltera cometeu um pecado manifesto; mas os seus acusadores não têm pecados, ou na verdade têm pecados escondidos? E se pecaram, com que autoridade lançam as pedras que matam o pecador?

Só Jesus, Ele que era sem pecado, podia lançar uma pedra, mas não o faz. A sua palavra, que não contradiz a lei e, ao mesmo tempo, confirma a sua prática de misericórdia, é eficaz, vai ao coração dos acusadores, os quais, «ouvindo aquilo, vão-se embora um por um, começando pelos mais anciãos»: quanto mais se avança em idade, mais numerosos são os pecados cometidos; esta consciência deveria impedir a nossa inflexibilidade em relação aos outros.

Assim, uma só palavra de Jesus, incisiva e autêntica, daquelas que nos fazem ler em profundidade a nós próprios, impede aqueles homens de exercer violência em nome da lei que acreditam interpretar com rigor.

Só Deus, e portanto só Jesus, poderia condenar aquela mulher. Mas Jesus opta por narrar de outra maneira o agir de Deus, pelo qual a vida do pecador transcende o pecado por ele cometido. Jesus, aquele que como Filho de Deus narrou humanamente Deus, que foi a exegese do Deus vivo, afirma que diante do pecador Deus tem um só sentimento: não a condenação, mas o desejo de que se converta e viva.



Chamado a escolher entre o castigo pela infração da lei e a misericórdia, Jesus escolhe a misericórdia sem contradizer a lei. Esta é essencial, enquanto revelação da vocação humana que Deus nos dirige; mas uma vez que o pecado infringiu a lei, a Deus só resta a misericórdia, ensina-nos Jesus



Só quando todos se foram embora, é que Jesus se põe de pé está diante da mulher, finalmente restituída à sua identidade de ser humano, no face a face com Ele. É o fim de um pesadelo, porque os seus acusadores desapareceram, e porque quem devia julgá-la está agora de pé, como aquele que absolve.

Agora é possível o encontro falado, que se abre com o apelativo dirigido por Jesus: «Mulher», o mesmo reservado à sua Mãe, à samaritana, a Madalena. Dirigindo-se a ela desta maneira, Jesus destaca-a por aquilo que é: não uma pecadora, mas uma mulher, restituída à sua dignidade. A ela Jesus pergunta: «Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou?». E ela, respondendo «ninguém, Senhor», faz uma grande confissão de fé em Jesus. Aquele que se encontra diante dela é mais do que um simples mestre, «é o Senhor».

Jesus despede-se, então, com uma afirmação extraordinária, gratuita e unilateral: «Também Eu não te condeno. Vai, e não tornes a pecar». O texto revela que, quando ocorreu o encontro entre a santidade de Jesus e o pecado desta mulher, então «permanecem só dois, a miséria e a misericórdia» (Agostinho), e a santidade de Jesus destruiu o pecado.

Nisto consiste a gratuidade daquela absolvição: Jesus não condena, mas com o seu ato de misericórdia preveniente oferece à pecadora a possibilidade de mudar. E atenção: não está escrito que ela mudou de vida, que se converteu, nem que se torna discípula de Jesus. Sabemos apenas que, para que tornasse a viver, Deus perdoou-a através de Jesus e a enviou para a liberdade: «Vai em direção de ti própria e não voltes a pecar»…

Jesus não veio entre nós para julgar e condenar – como dirá pouco depois: «Eu não julgo ninguém» -, mas para anunciar a misericórdia, para fazer misericórdia, seguindo fiel e pontualmente a justiça de Deus, que é justiça justificadora.

Chamado a escolher entre o castigo pela infração da lei e a misericórdia, Jesus escolhe a misericórdia sem contradizer a lei. Esta é essencial, enquanto revelação da vocação humana que Deus nos dirige; mas uma vez que o pecado infringiu a lei, a Deus só resta a misericórdia, ensina-nos Jesus.

Nenhuma condenação, só misericórdia! Com efeito, de cada vez que Ele encontrou um pecador, libertou-o dos seus pecados, nunca praticou a justiça punitiva. Pronunciou convites à conversão, advertências em vista do juízo, mas nunca castigou ninguém, porque sabia discernir a vontade de Deus, que não quer a condenação do pecador, mas faz misericórdia para que se converta e viva.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Cristo com a mulher apanhada em adultério" (det.) | Guercino | 1621
Publicado em 04.04.2019

 

 
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